Aplicando a sistemografia no processo editorial de um periódico científico

Pode-se, a partir de um enfoque sistêmico, apresentar a sistemografia para o mapeamento dos processos editoriais de um periódico científico.

Mônica Frigeri, Fernando Ernesto Kintschner e Ettore Bresciani Filho

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O objetivo deste texto é o mapeamento do processo de avaliação de artigos submetidos a um periódico científico. Este mapeamento se insere no desenvolvimento de conceitos básicos sobre sistema e sistêmica. Neste contexto, é apresentada a sistemografia para o estudo desse processo, a fim de auxiliar no entendimento da interação existente entre as etapas de editoria e suas influências para o resultado de avaliação de um artigo.

A designação mais recente para a área do conhecimento denominada ciência dos sistemas é a sistêmica, a qual, em grande parte, decorre dos estudos desenvolvidos, principalmente a partir da década de 50, com a denominação de Teoria do Sistema Geral (LeMOIGE,1997). A sistêmica tem como objetivo encontrar paradigmas fundamentais comuns às diferentes áreas de conhecimento e permitir o desenvolvimento de métodos de estudos de sistemas complexos como são os sistemas técnicos e sociais.

A sistêmica utiliza-se de uma técnica de construção de modelos complexos chamada sistemografia. Sistemografar é construir um modelo de um fenômeno percebido como complexo. O modelo é uma representação do sistema através de uma exemplificação idealizada da realidade, com o propósito de explicar as relações essenciais envolvidas. A sistemografia constrói o fluxograma de um processo sistêmico com a denominação de sistemógrafo.

Nesse sentido, a sistemografia é considerada uma técnica de modelagem gráfica e descritiva para a concepção, análise, simulação dos sistemas complexos visando à busca da racionalidade, agilidade e flexibilidade estrutural e funcional desses sistemas. A sistemografia é a representação de atividades, identificadas por um modelador, por meio de um sistema, e tem como objetivo compreender o comportamento dos sistemas complexos em relação aos seus diversos componentes e o meio-ambiente. Diferentes modeladores podem construir diferentes sistemógrafos.

Na sistemografia o sistema complexo é concebido, analisado ou simulado por meio do seu desdobramento em três subsistemas, ou seja, o subsistema operacional, o subsistema informacional e o subsistema decisional, que devem operar de modo integrado. A sistemografia permite estudar a organização dos processos existentes e propor novas configurações que possam levar ao aumento da eficácia e da eficiência estrutural e funcional desses processos.

Os processos estudados, nos trabalhos de aplicação, visando propor modelos de gestão mais efetiva, são os processos das organizações com apoio na tecnologia da informação (TI), particularmente para a área de gestão de sistemas de produção, de informação e de telecomunicações (BRESCIANI, 2003 a 2006).

Partindo da definição geral de processos como sendo uma série lógica de transações relacionadas que transforma importações em exportações ou resultados, pode-se definir, por exemplo, processos de negócios do seguinte modo: processo é uma cadeia lógica conectada de atividades repetitivas, que utiliza os recursos (materiais e humanos) de uma organização e que elabora um objeto (concreto ou abstrato) com a finalidade de um determinado resultado (produtos ou serviços) mensurável destinado a clientes internos e externos. A busca de melhoria constante de desempenho, ou seja, da eficiência e da eficácia, é uma necessidade que tem a sua origem interna e externamente às organizações.

Desse modo, a sistemografia facilita a análise dos processos, pois permite a representação e a descrição dos sistemas operacional, informacional e decisional, inicialmente de modo separado e posteriormente de modo integrado, levando em consideração a complexidade do sistema. A sistemografia identifica redundância e a ausência de processadores e de conexões entre eles, permitindo estabelecer a apresentação de proposta de modificação que possa levar à melhoria de desempenho. Além do mais, a sistemografia se revela como uma etapa prévia importante para um projeto de informatização de sistema de gestão com apoio em sistemas  e tecnologias de informação.

O estudo desta técnica pode contribuir para o aperfeiçoamento dos seus conceitos e da sua aplicação. Para contribuir com o desenvolvimento de conceitos básicos sobre aplicação da sistemografia, buscando aprimorar esta técnica, toma-se como base os conceitos propostos na teoria dos grafos orientados, para ser aplicada nos estudos de modelagem de processos (organizacionais, gerenciais e de negócios).

A classificação dos processadores busca facilitar o entendimento do processo estudado. Inicialmente os processadores devem ser classificados segundo as categorias (BRESCIANI, 2009): operacional: o processador realiza uma operação em um objeto processado durante o processo; informacional: o processador realiza, utiliza ou produz informações durante o processo; e decisional: o processador toma decisões durante o processo.

Os processadores são também classificados em três tipos, a partir das perspectivas de espaço, forma e tempo: espaço: o processador provoca uma mudança de lugar do objeto processado, ou uma comunicação de informação sobre o objeto processado, durante o processo; forma: o processador provoca uma mudança de forma no objeto processado durante o processo; tempo: o processador realiza o processo em um objeto processado durante um determinado intervalo de tempo que é considerado relevante.

Os processadores são ainda classificados em um dos nove níveis progressivos de complexidade a seguir indicados: 1º nível – Processador Passivo – processador que não exerce qualquer tipo de atividade (processador inerte no momento do estudo); 2º nível – Processador Ativo – processador que processa, realiza e exterioriza algum tipo de comportamento; 3º nível – Processador Regulado – processador que processa, realiza e exterioriza um comportamento, porém com certo controle; 4º nível – Processador Informado – processador que processa, realiza e exterioriza um comportamento de forma regular, porém utilizando a informação; 5º nível – Processador com Decisão – processador que tem a capacidade de tomar decisões com base em uma informação, que provoca uma ação predefinida e conhecida; neste caso, a representação é feita com pelo menos um processador decisional; 6º nível – Processador com Memória – processador que toma decisões e apoia-se em um processo de memorização; 7º nível – Processador com Pilotagem – processador que contém e coordena três subsistemas: decisional, informacional e operacional; 8º nível – Processador com Inovação – processador que tem a capacidade de inovar, de gerar novas informações, de aprender, de demonstrar inteligência e de se auto organizar; e 9º nível – Processador com Autofinalização – processador que tem em seu sistema de pilotagem um subsistema de finalização que confere a capacidade de gerar os seus próprios objetivos e de ter consciência da sua existência e identidade.

A discussão existente sobre a qualidade das publicações científicas, em especial dos periódicos científicos é, atualmente, um tema de grande repercussão tanto no Brasil quanto em outros países. Sabe-se que é por meio dos periódicos que se publicam resultados de pesquisas, em sua maioria originais e inéditos. Dessa forma, os periódicos são vistos como elementos-chave no contexto científico brasileiro (FRIGERI, 2012).

Sendo assim, esse trabalho apresenta parte do processo editorial realizado em um periódico científico: a avaliação dos artigos submetidos pelos autores. O processo de avaliação desses artigos é de extrema importância para a sustentabilidade do próprio periódico, pois garante a sua qualidade, legitimidade e relevância para a comunidade científica.

O sistemógrafo representativo do referido processo é um modelo do que ocorre atualmente no periódico estudado e foi desenvolvido buscando aproximar-se o máximo possível da realidade. O processo atual de editoria funciona da seguinte forma: os artigos submetidos ao periódico passam por três etapas de avaliação no decorrer do processo editorial: verificação de formato; avaliação de admissão ; e avaliação de mérito.

A etapa de verificação de formato avalia se o artigo cumpre as normas solicitadas pela revista, no que diz respeito à formatação do texto. Sendo aprovado nesta primeira etapa, o artigo segue para a avaliação de admissão, realizada pelos membros do corpo editorial, a fim de verificar o enquadramento do artigo às linhas temáticas do periódico, sua relevância e contribuição científica para a área. Os artigos que deixam de cumprir qualquer um dos requisitos são recusados pela editoria.

Uma vez acolhido no processo editorial, o artigo é encaminhado para a avaliação de mérito, onde é enviado a três pareceristas pelo sistema eletrônico, sem identificação de autoria, da mesma forma que ao autor não é revelada a identificação dos pareceristas. Tendo em vista orientar a avaliação do artigo, são enviadas aos pareceristas as diretrizes de avaliação que devem ser levadas em consideração na elaboração do parecer com os pontos considerados essenciais, mas sem cercear a liberdade de avaliação, seja em termos de tamanho ou de conteúdo.

Estabelece-se também que os pareceres devem ser conclusivos em termos de uma entre três opções: aprovado (A); efetuar modificações (EM), e não aprovado (NA), e que devem ser enviados dentro do prazo estabelecido de quatro semanas. A partir dos pareceres recebidos, a decisão editorial é tomada em reunião entre os editores. Essa decisão baseia-se em critérios estabelecidos que, por sua vez, baseiam-se nas três opções conclusivas dos pareceres.

No caso de modificações necessárias, a versão revisada é novamente enviada aos mesmos pareceristas para nova avaliação. O processo de avaliação só termina quando esses pareceristas se manifestam definitivamente sobre a versão revisada e os editores tomam a decisão final. Na figura 1 pode-se visualizar a construção do sistemógrafo do processo de avaliação dos artigos.

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Figura 1 – Sistemografia do processo de avaliação dos artigos científicos

A tabela 1 permite fazer a comparação entre os processadores, considerando as categorias (O) operacional, (I) informacional e (D) decisional.

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Enfim, por meio da sistêmica, o uso da sistemografia, como forma de mapeamento de processos, contribuiu para o entendimento das relações e interações entre as atividades desenvolvidas durante o processo de avaliação dos artigos submetidos ao periódico. Com o sistemógrafo, também é possível perceber, caso existam, possíveis falhas e desperdícios. O sistemógrafo e seu confronto com a realidade poderão servir de subsídio para a melhoria do processo de avaliação dos artigos submetidos ao periódico, assim como para o desenvolvimento das demais tarefas relacionadas à prática editorial.

Referências bibliográficas

BRESCIANI F.,E. Sistemografia – Técnica de Modelagem de Sistema, Notas de Aulas, Faculdade de Engenharia Mecânica, Unicamp, Campinas, 2009 (não publicadas).

BRESCIANI F., E. Gestão de Processos de Negócios com Aplicação da Sistemografia, Relatórios de Pesquisa, PUC-Campinas, Campinas, 2003 a 2006 (não publicados).

FRIGERI, Mônica. Entendendo o Qualis: um estudo sobre a avaliação dos periódicos científicos brasileiros. Dissertação de Mestrado em Política Científica e Tecnológica, Unicamp, Campinas, 2012.

Le MOIGNE, J.L., A Teoria do Sistema Geral – Teoria da Modelização. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

Mônica Frigeri é professora mestre da Faculdade de Tecnologia de Campinas e ex-secretária executiva da Revista Brasileira de Inovação; Fernando Ernesto Kintschner é professor doutor extensionista da Pontifícia Universidade Católica de Campinas; e Ettore Bresciani Filho é professor titular aposentado, ex-coordenador do curso de especialização em engenharia da qualidade da Faculdade de Engenharia Mecânica, membro do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp, e membro da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ).



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