Mariana e Brumadinho confirmam a falência das barragens de montante

Já́ existem métodos construtivos mais seguros, técnicas para desaguamento dos rejeitos e possibilidades de seu reuso em benefício em outras atividades econômicas.

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Maria Eugênia G. Boscov

As rupturas das barragens de Fundão em Mariana e de Feijão em Brumadinho, somadas a outras tantas rupturas de barragens de rejeitos de mineração ocorridas nas últimas décadas no Brasil e no mundo, não deixam dúvida: é imprescindível aposentar definitivamente o alteamento de barragens pelo método de montante – ou seja, a construção de novas etapas da barragem na parte interna do reservatório, sobre os rejeitos já́ depositados.

Entre as outras alternativas disponíveis, o método de jusante, em que a barragem é erguida na parte externa (“para fora”), sobre o solo natural, é muito mais seguro, e é indecoroso alegar seu custo mais alto diante das perdas ambientais e em vidas humanas que presenciamos.

Mesmo com projeto adequado, operação cuidadosa e monitoramento continuo – o que parece ter sido o caso tanto em Mariana quanto em Brumadinho –, rupturas têm ocorrido nas barragens de montante, indicando que a engenharia ainda não compreendeu por inteiro o comportamento complexo das mesmas. As previsões de comportamento simplesmente não são confiáveis em um nível que garanta segurança aceitável.

Já́ existem métodos construtivos mais seguros, técnicas para desaguamento dos rejeitos e possibilidades de seu reuso benéfico em outras atividades econômicas. Há muito campo para inovação em relação ao desaguamento e reuso, no que as universidades e centros de pesquisa podem e devem ajudar.

Também é preciso, entre tantas carências no controle efetivo da segurança na área da mineração, criar normas técnicas e padronizar e unificar os regulamentos, leis e portarias dispersos em diversos órgãos estaduais e federais.

Mais do que tudo, é fundamental proibir a construção de novas barragens pelo método de montante, interromper as atividades das que estão em operação e aplicar emergencialmente um plano de diagnóstico e recuperação das minas já encerradas.

O governo federal brasileiro deve colocar em sua agenda prioritária a questão das barragens de mineração. Como ponto de partida, sugiro o estudo realizado pelo governo do Estado de São Paulo em 2015 (http://www.energia.sp.gov.br/wp-content/uploads/2016/07/relatorio-de-barragens.pdf).

Maria Eugênia G. Boscov é professora titular do Departamento de Engenharia de Estruturas e Geotécnica da Escola Politécnica da USP.



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1 resposta

  1. Ainda não temos informações detalhadas sobre a barragem de Brumadinho, capazes de já permitir uma análise de causas. No entanto, as informações disponíveis sobre a barragem do Fundão permitem afirmar que ela não rompeu por se tratar de método de construção de montante e, sim, por desvios dos princípios da Mecânica dos Solos e da Engenharia de Barragens. O estudo do Morgenstern e outros relatórios disponíveis mostram isto e permitem dúvidas se o projeto foi adequado, se a operação foi cuidadosa e se o monitoramento foi continuo.

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