Os riscos da queda de árvores em áreas urbanas

No verão são frequentes as quedas de árvores nas áreas urbanas, causadas pelas chuvas intensas, ventos e, muitas vezes, pela falta do manejo adequado da vegetação arbórea. Além de risco de graves acidentes envolvendo pessoas e de danos materiais, a queda de árvores traz transtornos à população por conta da interrupção de vias públicas, do fornecimento de energia elétrica ou de serviços de telecomunicações. Conheça uma norma técnica que pode servir como gestão de conhecimento sobre o assunto.

queda3Hayrton Rodrigues do Prado Filho –

Segundo a Prefeitura de São Paulo, as árvores urbanas desempenham funções importantes para os cidadãos e o meio ambiente, tais como benefícios estéticos e funcionais que estão muito além dos seus custos de implantação e manejo. Esses benefícios estendem-se desde o conforto térmico e bem estar psicológico dos seres humanos até a prestação de serviços ambientais indispensáveis à regulação do ecossistema.

Além disso, a ausência de arborização somada a outros fatores como poluição e elevada concentração de asfalto e concreto produzem ilhas de calor, que são áreas de baixa umidade relativa e alta temperatura. As árvores são contribuintes chaves para a moderação dos extremos climáticos dos grandes centros urbanos.

Outro benesse seria a interceptação da água da chuva, pois as copas das árvores fracionam a água das chuvas, o que diminui a energia do impacto da gota no solo minimizando o problema de erosão. As superfícies das folhas, frutos, galhos e demais estruturas aéreas promovem também a retenção de água e constitui-se uma “caixa” de retenção hídrica natural diminuindo, consequentemente, o problema das enchentes.

Também, proporcionam sombra, já que os locais arborizados economizam recursos públicos, por exemplo, na manutenção de áreas pavimentadas. Áreas arborizadas quando comparadas àquelas expostas diretamente ao sol sofrem menos com os fenômenos de contração e dilatação, diminuindo seu desgaste. A copa das árvores filtra os raios solares diminuindo os efeitos da fotoexposição humana que, em excesso, pode causar doenças de pele e de visão. Assim, por meio da arborização, os órgãos públicos tendem a reduzir seus gastos na área de infraestrutura e saúde.

A arborização funciona como corredor ecológico, viabilizando a conexão entre as populações de fauna e podem abrigar uma infinidade de seres vivos, como insetos, líquens, pássaros, enriquecendo o ecossistema urbano e aumentando sua biodiversidade. As flores e frutos presentes nas árvores também trazem à cidade um ganho ambiental significativo, pois se prestam como atrativo e refúgio da fauna urbana.

Algumas espécies vegetais, com ênfase nas frutíferas nativas, são responsáveis pelo abrigo e alimentação de aves, assegurando-lhes condições de sobrevivência. As árvores modificam os ventos pela obstrução, deflexão, condução ou filtragem do seu fluxo, assim, a vegetação quando arranjada adequadamente pode proteger as construções da ação dos ventos ou direcionar a passagem destes por um determinado local.

Quanto aos ruídos, as estruturas vegetais são capazes de absorver ondas sonoras diminuindo a poluição sonora. Já no que se refere à luminosidade, a vegetação atenua o incômodo causado pelas superfícies altamente reflexivas de determinadas edificações, que podem ofuscar a visão.

Por meio do paisagismo se obtém uma infinidade de formas e cores, anulando o efeito monótono de construções retilíneas. A presença de espécies arbóreas na paisagem promove beleza cênica, melhoria estética (especialmente na época de floração) e funcionalidade do ambiente e, em consequência, um aumento da qualidade de vida da população.

Contudo, a falta de planejamento leva ao aumento de práticas de manejo, como a poda e a remoção das árvores, realizadas pelas prefeituras e concessionárias de energia elétrica, principalmente pelo contato entre a fiação e o afloramento de calçadas. Geralmente, as podas são feitas de maneira incorreta, como por exemplo, em forma de U, que pode desequilibrar a árvore e deixando-a com risco de queda. Levando-se em conta a arquitetura da árvore, a poda deve ser conduzida de modo a diminuir o volume de folhas, adequá-la ao espaço disponível, evitando podas drásticas e mutilação do vegetal.

Esse tipo de prática traz problemas à árvore, como a formação de gemas epicórmicas dormentes que gera uma deficiência na absorção de água e nutrientes. Como consequência, as raízes menores podem apodrecer com o tempo e posteriormente sofrer o ataque de cupins, afetando a estabilidade da árvore.

Outros fatores que influenciam diretamente na possibilidade de quedas de árvores são o corte de raízes e podas mal executadas devido à fiação elétrica e/ou telefônica, que deixam a estrutura da planta altamente desestabilizada, além do uso inadequado de espécies (de grande porte e/ou suscetíveis a ventos) e compactação do solo.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) desenvolveu um projeto que procurou aprofundar os conhecimentos para avaliação de risco de queda e as espécies estudadas foram a tipuana e o eucalipto. Para diminuir as incertezas da análise de risco de queda, um projeto iniciado em 2015, em parceria entre o Laboratório de Árvores, Madeiras e Móveis e o Laboratório de Vazão, que avaliou durante três anos o comportamento das árvores sob a força do vento. A ferramenta empregada pelos pesquisadores do IPT para a gestão da arborização urbana, principalmente das árvores localizadas em calçadas, e na análise de risco de queda, foi o Arbio, um software desenvolvido no IPT.

O grande diferencial dele é a análise de risco baseada em um modelo probabilístico e dinâmico: os pesquisadores consideram parâmetros como altura total da árvore, diâmetro à altura do peito, porcentagem de deterioração interna e densidade aparente para auxiliar o diagnóstico de risco de queda. A ferramenta simula ainda a árvore em 12 diferentes velocidades de vento, indicando a probabilidade de ruptura no colo, que é a área de transição da raiz com o tronco.

“O aplicativo considera as forças de vento; no entanto, devido à variação do coeficiente de arrasto de acordo com a velocidade do vento e também com o tipo de árvore, havia a necessidade de melhor compreensão do fenômeno. Os coeficientes de arrasto utilizados atualmente no Arbio são os conhecidos para estruturas rígidas ou árvores hipotéticas que não representam a variedade da arborização brasileira”, explica Raquel Amaral, pesquisadora do Laboratório de Árvores, Madeiras e Móveis e coordenadora do projeto.

O coeficiente de arrasto é um parâmetro relacionado com a aerodinâmica do objeto, ou seja, ele varia de acordo com formato, dimensão e também velocidade do vento, impactando diretamente na força exercida seja sobre uma casa ou uma ponte, por exemplo. O formato de uma árvore submetida à ação do vento se modifica, ao contrário de um edifício, exemplifica o pesquisador Gilder Nader, do túnel de vento do IPT.

“As árvores são flexíveis e cada espécie tem rigidez em níveis distintos. Devido à complexidade de comportamento a partir de uma combinação que inclui folhas, ramos, galhos, copa e tronco, há poucos estudos referentes aos efeitos do vento em árvores. Existe a necessidade de ensaios em túnel de vento para a determinação da variação do coeficiente de arrasto, assim como o desenvolvimento de modelos computacionais para avaliação”, explica ele.

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O projeto se iniciou em 2015 com uma análise das equipes do IPT sobre as melhores possibilidades de realizar os ensaios: foram consideradas hipóteses como executar o estudo com mudas de até 1,5 m de altura, com modelos reduzidos aeroelásticos ou com galhos que representassem todas as propriedades físicas da árvore na escala reduzida. O ideal seria realizar o ensaio de uma árvore real, mas há poucos túneis de vento com capacidade para realização desse tipo de ensaio, explica o pesquisador.

“Pelo fato de as mudas não apresentarem as mesmas propriedades físicas de rigidez de uma árvore, e devido à complexidade para se construir um modelo reduzido aerolástico de uma árvore, optou-se por ensaiar galhos no túnel de vento do IPT. O maior índice de queda é dos galhos que acabam por quebrar sob o efeito das ventanias”, completa Nader.

Dois estudos da década de 1960 feitos na Inglaterra, no Royal Aircraft Establishment, em Farnborough, conseguiram superar este obstáculo por conta das dimensões do túnel de vento disponível, com 7,3 metros de altura – estes resultados acabaram por ser usados no final do trabalho para uma comparação com aqueles obtidos no IPT. A partir de 2017 iniciaram-se os ensaios em túnel de vento com galhos de tipuana e eucalipto.

A escolha da primeira se deu pelo fato de ela ser abundante na capital paulista, tendo sido escolhida para projetos de arborização urbana da cidade na década de 1930, e pelo conhecimento presente no laboratório por conta da tese de doutorado defendida, no ano de 2009, pelo pesquisador Sergio Brazolin; a segunda, por estar presente em alguns condomínios da Região Metropolitana de São Paulo, fornecer matéria-prima para as empresas de papel e móveis e, sobretudo, porque a queda de uma árvore de eucalipto pode provocar um efeito dominó e devastar uma plantação inteira.

Os objetivos do projeto foram atingidos a partir dos ensaios no túnel de vento, nos quais se determinaram as variações dos coeficientes de arrasto em função da velocidade do vento para as duas espécies, ambos na configuração de galhos simples e ramificados (dois galhos unidos na forquilha).

A partir dos resultados e da melhor compreensão do comportamento das árvores sob a ação do vento, foi proposto e iniciado um modelo computacional, utilizando o método de vórtices discretos, que pode ser aplicado a qualquer tipo de árvore, desde que conhecidas suas propriedades físicas, dimensões e quantidade de galhos.

“Por meio dessas informações e utilizando o modelo computacional em desenvolvimento no IPT, foi possível obter o coeficiente de arrasto global da árvore inteira. Atualmente o modelo computacional é bidimensional e está em processo de validação”, completa Paulo Jabardo, pesquisador do túnel de vento. Em continuidade ao projeto, o modelo computacional deverá ser aprimorado para a realização de simulações tridimensionais e atualização dos parâmetros do Arbio.

Para gestão do conhecimento sobre o assunto, existe a NBR 16246-1 de 11/2013 – Florestas urbanas — Manejo de árvores, arbustos e outras plantas lenhosas – Parte 1: Poda que estabelece os procedimentos para a poda de árvores, arbustos e outras plantas lenhosas em áreas urbanas, em conformidade com a legislação aplicável. pode ser utilizada como orientação para que profissionais da administração pública municipal, estadual e federal, assim como prestadores de serviço particulares, proprietários de imóveis, concessionárias de serviços públicos e outros, elaborem suas especificações de trabalho. Os procedimentos previstos nesta parte da NBR 16246 não se aplicam a podas em frutíferas, para as quais podem ser utilizadas as técnicas de poda empregadas na fruticultura.

Os objetivos da poda, bem como a destinação de seus resíduos, devem ser estabelecidos antes do início de qualquer operação de poda. A fim de se alcançar os objetivos da poda, convém: considerar o ciclo de crescimento, a estrutura individual das espécies e o tipo de poda a ser executada; que não se retire mais que 25% da copa, pois o percentual e a distribuição da folhagem a ser removida devem ser definidos de acordo com a espécie arbórea, idade, estado sanitário e localização e podas de maior intensidade devem ser justificadas tecnicamente; que não se retire mais que 25% da folhagem de um galho, quando este é cortado junto a outro galho lateral. Convém que o galho lateral tenha dimensões sufi cientes para assumir a dominância apical.

O destopo e a poda tipo poodle devem ser considerados práticas de poda inaceitáveis para árvores, exceto nos casos em que tal prática for necessária para posterior supressão. O arborista deve realizar uma inspeção visual, para avaliar todos os aspectos físicos e fitossanitários de cada árvore-alvo do trabalho e realizar o planejamento prévio das atividades. O arborista em treinamento também pode realizar este tipo de inspeção, desde que esteja sob supervisão direta de um arborista.

Caso se constate a existência de alguma condição ou fator que requeira atenção além do escopo original do trabalho, é conveniente que esta condição ou fator seja reportado a um supervisor imediato, ao proprietário da árvore ou à pessoa responsável por autorizar a realização do trabalho. Devem ser utilizados equipamentos e práticas de trabalho que não danifiquem o tecido vivo e a casca além das especificações de trabalho. Ferramentas de impacto não podem ser usadas no corte final.

As ferramentas usadas para fazer os cortes de poda devem estar sempre afiadas e em perfeitas condições de uso. Esporas de escalada não podem ser usadas para poda de árvores, exceto quando: os galhos estiverem separados à distância maior que a linhada de arremesso e não houver alternativa de escalada da árvore; ou a casca for de espessura sufi ciente para prevenir danos ao câmbio. A limpeza consiste em poda seletiva para remover galhos mortos, doentes ou quebrados.

A localização e a variação de tamanho dos galhos a serem removidos devem ser especificadas. A desrama ou raleamento consiste em poda seletiva para reduzir a densidade de galhos vivos. Convém que a desrama ou raleamento resulte em distribuição equilibrada de ramos em galhos individuais, não comprometendo a estrutura da árvore. Não é recomendado que se retire mais que 25% do volume da copa que cresceu após a última poda.

A localização e a variação de tamanho dos galhos, bem como o percentual de folhagem a serem removidos devem ser especificados. A elevação da copa consiste em poda seletiva para fornecer espaços verticais. Convém que a necessidade de espaço vertical, a localização e a variação de tamanho dos galhos a serem removidos sejam especificadas.

A redução consiste em poda seletiva para reduzir a altura e/ou a largura da copa e, por consequência, a área e o volume da copa, sempre obedecendo à arquitetura típica da espécie, buscando uma distribuição equilibrada de ramos. O galho deve ser podado junto a outro que tenha no mínimo 1/3 do seu diâmetro. Deve-se considerar a tolerância da espécie a esse tipo de poda.

Convém que sejam especificadas a localização e a variação de tamanho dos galhos a serem podados, bem como o espaço (desobstrução) a ser obtido com a poda. A restauração consiste em poda seletiva para aprimorar a estrutura, forma e aparência de árvores que tenham sido severamente destopadas, vandalizadas ou danificadas. Recomenda-se especificar a localização na árvore, a variação de tamanho e o percentual de brotações que devem ser removidos.

A poda para vistas consiste em poda seletiva de galhos para permitir acesso a uma vista específica. Recomenda-se especificar a variação de tamanho de galhos, sua localização na árvore e o percentual de folhagem a ser retirado. A poda de raízes não é recomendada, devendo ser priorizado o aumento dos canteiros e alternativas a essa poda, que, caso imprescindível, deve ser feita com ferramentas adequadas, com cortes que devem resultar em uma superfície plana, não permitindo o ressecamento do tecido, a uma distância e intensidade que não comprometam a estabilidade e a vitalidade do vegetal.

É recomendada a realização de poda de palmeiras quando fronde, inflorescências, frutos e pecíolos puderem criar uma condição de risco. Não podem ser removidas frondes vivas e saudáveis que se iniciem em ângulo maior ou igual a 45° com o plano horizontal na base das frontes (ver figura abaixo), exceto no caso de frondes em conflito com redes aéreas de serviços.

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Recomenda-se a retirada de folhas junto à base do pecíolo sem causar danos aos tecidos vivos do estipe. Recomenda-se que a descamação da palmeira (barba) seja feita pela remoção apenas das bases de frondes mortas no ponto onde elas entram em contato com o estipe, sem causar danos aos tecidos vivos (ver figura abaixo).

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O propósito da poda de árvores que estejam em risco imediato ou potencial com redes elétricas e outros serviços de utilidade pública é prevenir a interrupção no fornecimento desses serviços, cumprir os requisitos legais e regulamentares sobre distâncias de segurança, prevenir danos aos equipamentos, evitar a obstrução de acesso às estruturas e assegurar o uso correto da faixa de passagem.

Somente o podador em sistema elétrico de potência deve ser designado para trabalhos próximos a redes elétricas, conforme estabelecido na Norma Regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O podador em sistema elétrico de potência em treinamento também pode realizar esse tipo de trabalho, desde que esteja sob supervisão direta de um podador em sistema elétrico de potência.

Operações de poda próximas a redes elétricas devem atender aos demais requisitos estabelecidos nesta parte da NBR 16246. Não é recomendável o uso de substâncias para tratamento de lesões ou cortes de poda, exceto quando recomendado para controle de doença, inseto, ervas parasitas, controle de brotações ou razões estéticas.

Não pode ser realizado tratamento de lesões com substâncias danosas às árvores. A limpeza da casca junto a lesões somente deve retirar tecido solto e danificado. Os restos e resíduos provenientes das podas e remoções de árvores devem ter destinação adequada, compatível com o valor desses materiais, devendo ser privilegiados os destinos que proporcionem o aproveitamento da madeira, a manutenção do carbono fixado, o emprego em práticas de jardinagem e paisagismo, e a geração de renda.

Quando houver necessidade de disposição final destes resíduos, eles devem ser depositados em local apropriado, licenciado para este fim. Quanto às técnicas de cortes, um corte de poda que remova o galho em seu ponto de origem deve ser feito junto ao tronco ou ao galho de origem, sem danificar a crista da casca ou o colar, e sem deixar toco de galho (ver figura abaixo).

Convém que um corte de poda para redução da extensão do comprimento do galho ou caule de origem seja a bissetriz entre a crista da casca e uma linha imaginária perpendicular ao galho ou caule a ser suprimido (ver figura abaixo). O corte final deve resultar em uma superfície plana, com a casca adjacente firmemente ligada.

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Ao se remover um galho morto, o corte final deve ser feito no limite da crista e do colar, respeitando-os, junto e para fora do colar de tecido vivo. Galhos de árvore devem ser removidos de tal forma que não causem danos a outras partes da árvore, a outras plantas ou a propriedades.

Os galhos muito grandes, para serem seguros com uma das mãos, devem ser cortados em fases (técnica dos três cortes), a fim de se evitarem lascas ou a queima da casca na madeira ou rompimento da casca (ver figura acima). Onde necessário, cordas ou outros equipamentos devem ser usados para a descida de galhos grandes ou suas partes até o chão.

O corte final para remoção de galho com pequeno ângulo de incisão deve ser feito a partir da parte externa do galho, a fim de se evitarem danos ao galho de origem(ver figura acima). Os galhos danificados devem ser removidos da copa após o término do serviço, quando a árvore for deixada sem assistência ou ao final do dia de trabalho. O corte de destopo é uma técnica aceitável, em determinados casos, quando necessário para se alcançar um objetivo específico.

Quanto à pesquisa de Sergio Brazolin, ela procurou avaliar a ocorrência de fungos apodrecedores em tipuanas na cidade de São Paulo e foi mais significativa em comparação à presença de cupins subterrâneos na amostragem de 1.109 árvores avaliadas nos bairros de Alto da Boa Vista, Alto da Lapa, Alto de Pinheiros, Cerqueira César, Paraíso, Pacaembu/Sumaré e Vila Nova Conceição. Ele é pesquisador do Laboratório de Preservação de Madeiras e Biodeterioração de Materiais do CT-Floresta.

“O cupim aproveita o lenho previamente apodrecido pelos fungos para se alojar nas árvores. Podemos então dizer que o problema está nesses organismos, que deixam o lenho em um estado que pode ser classificado como pré-digerido para a alimentação dos cupins”, conta o biólogo.

A avaliação da biodeterioração do lenho das tipuanas em passeios públicos e a sua relação com o risco de queda foi o objetivo principal do estudo. A escolha da tipuana foi feita em função de a árvore ser a mais frequente em seis das sete regiões a serem avaliadas: os projetos de arborização urbana na maior parte destes bairros foram executados na década de 1930 pela incorporadora City, que escolheu a espécie pela sua robustez e resistência a stress urbano, além da questão estética (grande quantidade de flores amarelas).

Para a avaliação dos 1.109 exemplares de tipuanas, o pesquisador partiu de uma abordagem macroscópica baseada em conceitos de biomecânica (biologia e engenharia) em que foram observadas as condições de entorno, posições de inserção, execução de poda de galhos e raízes, presença de barreiras e injúrias. O próximo passo do pesquisador envolveu os exames microscópicos do lenho das árvores.

Foram estudadas em lâminas as alterações causadas pela atuação de fungos, cupins e brocas na anatomia do lenho e nas propriedades físico-mecânicas das tipuanas, com o intuito de mensurar modificações no grau de resistência das árvores provocadas pelos organismos xilófagos (que se alimentam de madeira).

Em seguida à quantificação e qualificação dos estragos, o pesquisador simulou matematicamente pelo Método de Elementos Finitos (MEF) apodrecimentos em uma árvore hipotética para verificar a distribuição de forças frente a intempéries como ventos e chuvas.

No final do estudo, o pesquisador compilou todos os conhecimentos e criou parâmetros para um técnico responsável pela arborização de uma cidade tomar decisões em campo quanto ao risco de queda da árvore. As conclusões apontaram que uma tipuana com diâmetro à altura do peito (DAP) acima de 70 cm tem uma probabilidade de deterioração externa comprometedora de 67%. Isso torna necessário priorizar esse exemplar em situações de avaliação de risco, assim como a presença externa de fungos e cupins simultaneamente, que trazem uma probabilidade de 42% da árvore apresentar risco máximo de queda.

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Tipuana

O estudo mostrou ainda que uma quantidade significativa (79%) das tipuanas está plantada em canteiros inadequados dos passeios públicos, em áreas inferiores a três metros quadrados – espaço reduzido para uma espécie cuja altura média na cidade é de 12 a 14 metros, mas pode alcançar 40 metros – e 57% delas encontram-se em vias de tráfego intenso. No entanto, do total de 1.109 árvores estudadas, nenhuma delas apresentou características de declínio, ou seja, sinais de que estava morrendo em razão da presença de fungos, despejo de produto químico ou falta de espaço para crescimento da raiz. Segundo o pesquisador, isso confirma a ideia de que a tipuana é uma espécie robusta, mas ele chama a atenção para a constatação de um estado crítico em relação aos cupins e fungos.

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Tronco oco de árvore

“Esses organismos não afetam a saúde da árvore porque crescem no cerne, que é uma área morta. A parte viva é somente a externa”, assegura Brazolin. “Apesar de as árvores analisadas estarem repletas de folhas e flores, o estado delas era crítico. Assim, é bom ressaltar que os organismos estudados podem ocasionar a queda, mas não a morte da árvore”.

O cupim subterrâneo Coptotermes gestroi e o fungo apodrecedor Ganoderma sp foram os gêneros mais encontrados nas árvores estudadas. O primeiro, relatado como praga há pelo menos 40 anos, chegou ao Brasil da Ásia provavelmente pelo Porto de Santos e não encontrou seus predadores naturais, enquanto o segundo está normalmente associado a injúrias causadas pelo homem às árvores, o que traz a questão da necessidade de programas de educação ambiental, acredita o pesquisador.

Brazolin ressalta que o trabalho não buscou avaliar as diferenças entre bairros, mas sim transformar conceitos complexos em algo útil. “Espero que a tese auxilie os responsáveis pela arborização urbana a tomar decisões por meio de parâmetros simples, mas com todo um conhecimento acadêmico incorporado. Com parâmetros visuais e outros de prospecção, será possível inferir o risco de queda da árvore”.

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Queda de tipuana com apodrecimento intenso

Em resumo, o biólogo explica que se deve considerar a árvore como um ser vivo e é uma estrutura complexa que, diante de forças do vento ou instabilidade do solo, com a copa e o tronco encharcados pelo excesso de chuva, ficará sujeita à queda. Nas cidades em que a arborização urbana não foi planejada ou não há o manejo adequado, esse risco se agrava pela escolha inadequada do local ou das espécies de árvores.

Somam-se a isto as interferências urbanas que afetam o crescimento, como o tamanho dos canteiros e das calçadas e as redes de abastecimento de energia, água, esgoto e gás. A ação do homem na execução de podas inadequadas pode desequilibrar a árvore e favorecer o apodrecimento do tronco e raízes, o que também é um fator significativo para a queda.



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