Um dilema nas organizações

“Lamento profundamente” (Akio Toyoda, presidente da Toyota)

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Eduardo Cassano Correa

Em minha experiência profissional aprendi que a segurança e a qualidade são campos vulneráveis nas organizações: líderes tendem a assumir grandes riscos em prol de resultados financeiros visíveis e imediatos.

É quase uma regra na política e documentações do sistema de gestão nas organizações definir a segurança como prioridade, seguido pela qualidade e, somente quando ambas estiverem devidamente sólidas, a quantidade. Na prática, esta sequência nem sempre é respeitada.

Certa vez, um CEO viu sua organização passar por momentos difíceis após grande crise do setor em que atuava. Prestes a dar a volta por cima, sua empresa estava, em suas próprias palavras, ávida por uma salvação.

Assim, ele vislumbrou que sua organização atingisse o maior número de vendas em relação a seus concorrentes. Em determinado momento, em uma de suas raras entrevistas, fez uma afirmação que deixou jornalistas e especialistas do seu setor estarrecidos. Sua organização havia destronado sua principal concorrente do posto de número um do mundo. Ele parecia estar no caminho certo…

Porém, pouco tempo depois, este mesmo CEO voltou à mídia, agora para se desculpar publicamente por ter negligenciado a segurança e qualidade em prol da quantidade. Ele disse no momento: “nós buscamos crescimento acima da velocidade com a qual fomos capazes de desenvolver nossas pessoas e nossa empresa, mas devemos sinceramente repensar isso”.

Falo de Akio Toyoda, presidente mundial da Toyota e neto do seu fundador que, no final de 2009 viu sua empresa ruir devido a um recall de mais de 8,5 milhões de veículos da marca, primeiramente devido ao tapete que se prendia ao acelerador do veículo e em seguida por detectar também que, em certos casos raros, o mecanismo do pedal desgastava, fazendo com que o acelerador ficasse mais difícil de ser pressionado, mais lento para voltar ou, em alguns casos, totalmente preso. O prejuízo foi inestimável uma vez que quatro pessoas de uma mesma família dos Estados Unidos morreram ao se envolver em um acidente que pode ter sido causado pelo tapete preso ao acelerador.

Este caso reflete o dilema de muitos líderes nas mais distintas e diversificadas organizações ao redor do mundo, onde tendem a negligenciar segurança e qualidade em algum momento. Muitas podem ser as razões para isso, mas destaco abaixo as que considero mais evidentes:

Preocupação em atingir e superar as metas de vendas – Como vimos no caso da Toyota, muitas vezes o faturamento e as vendas falam mais alto e a necessidade em apresentar resultados positivo trazem desespero que minimizam a visão do risco.

Pressão por redução constante nos custos – Este fator reflete em muitos outros dentro da organização, como redução nos custos de manutenção preventiva, redução de pessoal especializado, alterações de fontes de fornecimento para produtos produtivos e improdutivos, entre outros.

Treinamento inadequado e/ou insuficientes de seus profissionais – Um fator importante e menosprezado em parte das organizações. Uma coisa leva a outra. A pressão por produção num ambiente operacional com recurso reduzido de pessoal, por exemplo, pode exigir que supervisores iniciem profissionais na operação com informações mínimas e precárias. Um risco para a segurança, a qualidade, o equipamento e a organização, como mínimo.

Crescimento mal planejado e desorientado – Crescer é importante e necessário para qualquer organização, mas este deve ser planejado minuciosa e conscientemente. Planejar significa conhecer cada etapa do processo, os responsáveis e prazos de cada atividade e elaborar uma análise prévia e precisa de como atuar perante aos potenciais riscos envolvidos.

Portanto, os líderes são referências dentro da organização e definem o caminho que todos, ou pelo menos a maioria, irão seguir. Assim, seu comportamento deve ser consistente com a visão e os valores da organização. Suas ações dificilmente serão esquecidas, portanto seu exemplo pode tanto construir como destruir sua credibilidade. Basta ao líder decidir que caminho irá seguir.

Referências bibliográficas

ARAGÃO, Marianna. O que a Toyota não viu. 2012. Disponível em: <https://exame.abril.com.br/negocios/eles-nao-viram-561718/>. Acesso em: 22 jan. 2019.

PRESSE, France. Presidente da Toyota se desculpa ante congressistas dos EUA. 2010. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Carros/0,,MUL1504006-9658,00-PRESIDENTE+DA+TOYOTA+SE+DESCULPA+ANTE+CONGRESSISTAS+DOS+EUA.html>. Acesso em: 22 dez. 2018.

KOTTER, John. Liderando Mudanças: Transformando empresas com a força das emoções. 2012. ed. Rio de Janeiro: Alta Books, 2017. 188 p.

NOS EUA, problema no acelerador causa o segundo recall da Toyota em três meses. 2010. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/nos-eua-problema-no-acelerador-causa-segundo-recall-da-toyota-em-tres-meses-3064349>. Acesso em: 22 jan. 2019.

TOYOTA lamenta acidente que provocou recall recorde nos EUA. 2009. Disponível em: <http://g1.globo.com/Noticias/Carros/0,,MUL1327222-9658,00-TOYOTA+LAMENTA+ACIDENTE+QUE+PROVOCOU+RECALL+RECORDE+NOS+EUA.html>. Acesso em: 22 jan. 2019.

Eduardo Cassano Correa é engenheiro mecânico com MBA em gestão empresarial, é especialista em gerenciamento da qualidade e atua em empresas do ramo automotivo há mais de 20 anos.



Categorias:Qualidade

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