A importância do propósito social para a reputação da empresa do século XXI

Qualquer empresa que pretenda se perpetuar através do século XXI buscará um propósito social e lucro para atender aos anseios de seus acionistas e da sociedade onde atua.

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Silvia De Tommaso

Em um mundo onde se vive uma crise ética e de valores e uma aumento considerável de desigualdade social, a empresa, que atua com proposito social e de valores que transformam a vida de pessoas e causam um impacto positivo na sociedade onde atua ao mesmo tempo em que gera lucro para seus acionista, tem se destacado entre as empresas favoritas dos consumidores atuais.

O conceito de impacto social vem transformando a dinâmica de gestão de grandes, médias e pequenas empresas e de pessoas por trás destas empresas. Esse conceito se estabelecerá na gestão empresarial como uma condição sine qua non, similar ao que se tinha estabelecido como padrão na década de 80 com o conceito de qualidade total.

Qualquer empresa que pretenda se perpetuar através do século XXI buscará um propósito social e lucro para atender aos anseios de seus acionistas e da sociedade onde atua. O novo ecossistema que surge, o ecossistema de projetos ou negócios de impacto social, atua de forma articulada com as empresas privadas, as organizações da sociedade civil, as pessoas e as organizações governamentais.

As conexões, que estão se formando, trocas de experiência e diálogo entre os diferentes atores (stakeholders), são fundamentais para a quebra de paradigma nas soluções possíveis e viáveis no caminho da diminuição da desigualdade social e para o desenvolvimento econômico e sustentável no mundo. Todos os atores desta nova geração de negócios entendem ser habitantes de um mesmo planeta onde a ação de um impactará diretamente a vida do outro.

Nesse sentido, milhares de atores pelo mundo, reunidos pelas Nações Unidas, participam ativamente da execução da Agenda 2030 para um desenvolvimento sustentável mundial. A Agenda 2030 e seus 17 objetivos coloca um grande desafio para que os negócios e projetos desenvolvam soluções, em parceria com outros atores (stakeholders), capazes de responder de maneira integrada às demandas sociais, econômicas e ambientais.

Nesse contexto, os negócios e projetos de impacto atuam para acelerar o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Em contrapartida, o alinhamento com a agenda 2030 de desenvolvimento global, exige empreendimentos com maior escala e impacto para não deixar ninguém para trás e resolver grandes dilemas da sociedade.

Dessa forma, são valores fundamentais da Agenda 2030: a universalidade, pois ela contempla desafios globais que devem ser abordados por todos os países, independentemente de sua situação de desenvolvimento; a integração, pois entende a relevância de se buscar abordagens que consigam mesclar, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental; e não deixar ninguém para trás, pois pretende dar visibilidade aos grupos mais desfavorecidos e em situação de vulnerabilidade.

O cenário do empreendedorismo social tem se fortalecido ao redor do mundo como acelerador desta mudança de hábito empresarial. Mas, considerando-se a atual era digital e um mundo sem fronteiras, faz-se necessário a explanação sobre o cenário mundial do empreendedorismo.

Aliás essa palavra assim como algumas outras que serão utilizadas são importadas da língua e cultura inglesa. Algumas definições são importantes no entendimento deste novo ecossistema.

O empreendedorismo (entrepreneurship) é o processo de iniciativa de implementar novos negócios ou mudanças em empresas já existentes. Os empreendedores (entrepreneurs), segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM) são todos os indivíduos que já possuem um negócio (formal ou informal), ou que não possuem, porém, estão envolvidos na criação de um.

Portanto, estão incluídos indivíduos em diferentes estágios de maturação do negócio e segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) um empreendedor é uma pessoa realizadora que produz novas ideias através da congruência entre a criatividade e a imaginação, dois elementos importantíssimos no mundo atual para solucionar importantes dilemas da sociedade.

O empreendedor social é aquece empreendedor que investe sua capacidade empreendedora na solução de problemas sociais. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)(2018), do Global Entrepreneurship Monitor (GEM)(2015) e do Sebrae(2017), os pequenos negócios respondem pela esmagadora maioria dos empreendimentos do setor privado no mundo e representam uma parcela muito expressiva da atividade econômica mundial nos países desenvolvidos e em desenvolvimento.

No Brasil, os pequenos negócios respondem por 27% do PIB e 52% dos empregos com carteira assinada e, dessa forma, desempenham um papel vital para promover o crescimento econômico inclusivo e sustentável, o emprego e o trabalho decente, bem como impulsionar a produção sustentável e fomentar a inovação. As mulheres superaram os homens na abertura destas empresas e já são maioria entre os trabalhadores com carteira assinada nos pequenos negócios.

Dos 49,6 milhões de empreendedores no Brasil, 23,9 milhões são mulheres. A taxa de sobrevivência dos empreendimentos destas mulheres é de 76% segundo a última pesquisa do Sebrae (2017). Apesar de serem uma enorme força de trabalho e pilar de sustentabilidade de suas famílias, as mulheres ainda recebem menos monetariamente do que os homens: 78% recebem até três salários mínimos (61% no caso dos homens).

As mulheres têm sido as maiores propulsoras de mudanças nos hábitos de gestão empresarial adotando o proposito social como estratégia de negócio. Alavancar o desenvolvimento econômico da empresa e ao mesmo tempo solucionar causas raízes de graves problemas sociais no mundo tem movido empresas.

Exemplos importantes como os da Natura e Nestlé que compartilham desenvolvimento na cadeia de valor de seus produtos e outros como das empresas Grammem, cujo fundador recebeu o prêmio Nobel da paz de 2006, o professor Yunus, entre outros. Nesse sentido, percebemos o aumento de projetos de fortalecimento do empreendedorismo feminino através da aceleração financeira de empresas como a Avon e o Google.

Empoderar (empower) as mulheres para que participem integralmente de todos os setores da economia e em todos os níveis de atividade econômica é essencial para fortalecer a economia de um país, estabelecer relações mais amigáveis e justas e melhorar a qualidade de vida para as mulheres, homens, famílias e comunidades. Há um forte anseio das mulheres empreendedoras no Brasil de participar de um programa de mentoria para se capacitar profissionalmente e conseguir sustentabilidade para seu negócio atingindo assim a estabilidade emocional e financeira sua e de sua família.

O estudo feito pelo Goldman Saks Bank através de seu programa de empreendedorismo feminino, GS 10.000 Women, aponta que a primeira necessidade das empreendedoras é conhecer caminhos para obtenção de linhas de financiamento e crédito. A deficiência na gestão dificulta de alguma maneira a negociação com potenciais investidores ou a aquisição de linhas de crédito e financiamento.

Não é à toa que a segunda necessidade mais importante das empreendedoras é receber ajuda para estruturar sua gestão, isto é uma mentoria. Ou seja, a mentorship seria a orientação para empreendedoras, em diferentes estágios de seus empreendimentos, por empreendedoras mais experientes.

A mentoria pressupõe que uma pessoa, a mentora, independentemente de sua idade, tenha mais experiência ou conhecimento em alguma área específica do que a mentorada. A ideia de mentor vem do grego e se referia a figura mítica de Mentor, amigo e conselheiro de Telêmaco, que o apoiava enquanto o pai estava ausente na guerra de Tróia(Global Mentoring Group).

Desde então o mentor passou a ser aquela pessoa que compartilha conhecimento, experiência e sabedoria com alguém menos experiente dentro de suas expertises. Importantes casos de mentores são lembrados, como Warren Buffet para Bill Gates ou Gandhi para Martin Luther King. Entretanto, percebemos a presença marcante de mentoras no Brasil, como Luiza Helena Trajano e Sonia Hess a frente do Grupo Mulheres do Brasil, Ana Fontes a frente da Rede Mulheres Empreendedoras que vem trazer uma nova figura de mentor, mais apropriadamente, de mentora.

Dessa maneira, essa é a mulher que empreende e que faz de seu proposito social fortalecer outras empreendedoras a terem sucesso, independentemente do significado que sucesso possa ter a cada uma destas mulheres. Através do empoderamento destas mulheres e de  conceitos de autoquestionamento são feitas as perguntas fundamentais que cada uma deverá aplicar a si própria, como por exemplo: o que desejo para minha realização profissional como pessoa livre e cidadã e neste empreendimento? o que quero para este empreendimento? o que me impede de desenvolver meu propósito?

Essas mulheres sacodem a zona de conforto de suas mentoradas. A mentora conduzirá a mentorada ao encontro dos conhecimentos necessários para desenvolver o que se busca inicialmente, da capacitação, que é a busca de conhecimento técnico e da autonomia que é a atitude de tomar decisões que viabilizam sua própria proposta. A união de mulheres gestoras no Brasil está ajudando a consolidar um ecossistema de negócios sociais, trazendo experiências profissionais inovadoras levando em consideração a multidisciplinaridade das áreas possíveis e envolvidas na nova composição do cenário social.

Busca-se impactar um universo diferenciado de pessoas, devolvendo à sociedade brasileira resultados novos, positivos, apurados e transparentes do que era convencionalmente chamado de dores empresariais das mulheres, dito que corresponde ao que a mulher empreendedora enfrenta no seu dia a dia de vida e de negócio.

A complexidade do inesperado e sua solução geram três momentos: o de se defrontar com o problema, o de refletir sobre ele e o de concluir e trazer a solução, tornando prudentes as atitudes atentas ao tempo e a descontinuidade do tempo, onde tudo flui e deixando de lado a aparente trivialidade do determinismo do para sempre.

Parafraseando o sociólogo, antropólogo e filósofo francês, Edgar Morin, a estratégia prudente nos mostra que não nos devemos fechar no contemporaneísmo, isto é, na crença de que o que acontece hoje vai continuar indefinidamente. Deve-se lembrar do filósofo grego, Heráclito, nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez não somos os mesmos, e também o rio mudou. Tudo flui. Nada neste nosso mundo é permanente. Tudo está mudando o tempo todo. A mudança é a lei da vida e do universo.

A primeira atitude na jornada social é através do voluntariado empresarial. Segundo dados do IBGE (2017), 4,4% da população ativa maior de 14 anos, isto é, 7,4 milhões de brasileiros estão engajados em ações de voluntariado, sendo que as mulheres representam 68%. Aumentar esta estatística é extremamente pertinente na formação de uma nova dinâmica de engajamento dos diferentes atores (stakeholders) na solução dos desafios sociais.

Kofi Annan, ex-presidente da ONU (2002) afirmou que o desenvolvimento sustentável seria um sonho distante sem a participação do setor privado e isto só é possível por meio da revisão de seus modelos organizacionais, dos produtos/serviços que são criados e da forma como é gerenciada a cadeia de valor. O setor privado assume uma relevância ainda maior para desenvolver soluções economicamente viáveis e capazes de responder às demandas sociais e ambientais nos contextos onde atuam.

Participar e cooperar na formação do ecossistema social de união das forças sociais, que propiciem que a colaboração de um indivíduo ajude a transformar a vida de um outro, propondo as mudanças de hábitos comportais correntes no mundo de hoje, é extremamente pertinente na construção de uma nova forma de gestão empresarial.

Começamos a mudar um indivíduo ou uma comunidade para que o movimento de mudança mundial se fortaleça. Na concepção de Morin, o todo é maior do que a soma das partes. Respeitar a singularidade humana e considerar a diversidade como a condição comum humana nos desarma para um olhar sem julgamento das especificidades de cada região, país, estado, cidades, vilas, mas levando em consideração que cada ser humano é habitante de um único planeta e responsável pelos seus atos e pelo que diz e produz.

A pesquisa desenvolvida pela professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo(FEA-USP), Graziella Comini (2016), indica que os negócios de impacto são caracterizados por diferentes lógicas de atuação e, portanto, suas contribuições ao desenvolvimento sustentável não são homogêneas. Negócios e projetos de impacto com forte lógica social tende a desenhar e a estruturar suas atividades com o propósito de gerar valor socioambiental em diferentes dimensões, sua contribuição tende a ser mais qualitativa e com maior profundidade de impacto (scale deep). Há maior diversificação na maneira de mensurar os resultados de impacto social.

Por outro lado, os negócios de impacto, com uma lógica de atuação fortemente direcionada ao mercado, tendem a provocar resultados de maior abrangência em dimensões específicas do desenvolvimento sustentável. Sua contribuição tende a ser em termos de abrangência e, portanto, quantitativa e escalável (scale up). Não há um tipo ideal de projeto: é necessário fomentar tanto negócios e projetos que tenham potencial de atingir um número elevado de pessoas, bem como aqueles negócios e projetos que gerem transformações profundas em uma localidade, embora muitas vezes atinjam um número menor de beneficiados.

O importante é, portanto, que o movimento de tomada de consciência aconteça a partir do indivíduo que, junto com vários outros indivíduos, terá força para a mudança necessária que precisamos alcançar para a diminuição da desigualdade social e o desenvolvimento econômico sustentável. O indivíduo número um pode e deve ser o presidente das empresas formadoras e influenciadoras de opinião.

Silvia De Tommaso é consultora de estratégia, gestão e negócios sociais, professora no I GESC, é consultora da empresa Facilit Tecnologia, empreendedora social e mestranda em gestão de negócios pela FIA – silviafntommaso@gmail.com



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