O uso da água da chuva

A água da chuva não é considerada potável por conta da existência de substâncias contaminantes na atmosfera. Essas substâncias tóxicas estão presentes principalmente nos centros urbanos e nas cidades industriais e contaminam a água que cai com a chuva. Na queima de combustíveis, são liberados gases cancerígenos como o benzeno e outros poluentes. Entretanto, mesmo em cidades afastadas dos centros urbanos e de cidades industriais, o ar pode estar contaminado.

guaDa Redação –

O aproveitamento de água  de chuva é a utilização, mediante tratamento adequado, de água disponível e ainda não utilizada em processos benéficos não potáveis. Assim, armazenar e reutilizar água da chuva é ecologicamente viável. Isso porque o armazenamento de água da chuva permite que se economize água potável, diminuindo a pegada hídrica.

Mas, pode-se também aproveitar a cisterna para reutilizar a água de reuso da máquina de lavar, do ar-condicionado, etc. Entretanto, por ser proveniente da chuva, essa água não é considerada potável em seu estado original, pois pode conter partículas de poeira, fuligem, sulfato, amônio e nitrato.

Portanto, se não for tratada antes, essa água não é adequada para beber. Ainda assim, ela pode ser usada nas tarefas domésticas que mais consomem água, como lavar o quintal, a calçada, o carro e até no vaso sanitário.

Ainda assim, mesmo em regiões metropolitanas, onde a concentração de poluentes no ar costuma ser mais elevada, a água da chuva pode se tornar potável e apta para consumo se for bem filtrada e tratada. Pode ser usada para uma ampla gama de propósitos dentro e ao redor de sua casa: para lavar o banheiro, lavar roupas, etc.

A água da chuva deve ser usada para fins não potáveis, preferencialmente para irrigação de áreas verdes, lavagem de piso e descarga de vaso sanitário. Há, por outro lado, equipamentos no mercado que permitem a potabilização da água de chuva, mas esta solução só deve ser utilizada em situações extremas.

O sistema de coleta e tratamento é o mesmo para uma residência – onde a economia pode chegar a 50% do consumo de água – ou uma indústria. O que muda é que empreendimentos como fábricas, centros de distribuição, shopping centers e hipermercados se caracterizam pela construção horizontal, e suas centenas de metros quadrados de cobertura permitem a coleta de elevado volume de água. Enfim, a chuva é uma fonte de água doce e sua captação pode ser importante, principalmente porque a água é um recurso finito e vulnerável. Sem dúvida, uma grande arma contra o desperdício de água é a conscientização de que ela é um bem finito e de que seu uso racional se faz necessário.

A NBR 15527 de 04/2019 – Aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis – Requisitos especifica os requisitos para o aproveitamento de água de chuva de coberturas para fins não potáveis. Aplica-se a usos não potáveis em que as águas de chuva podem ser utilizadas, por exemplo, descargas em bacias sanitárias e mictórios, irrigação para fins paisagísticos, lavagem de veículos e pisos e uso ornamental.

A concepção do projeto do sistema de coleta de água de chuva deve atender às NBR 5626 e NBR 10844. No caso da NBR 10844, não pode ser utilizada caixa de areia e sim caixa de inspeção. A área de cobertura passa a integrar o sistema de aproveitamento de água de chuva como área de captação e deve receber atenção quanto à presença de possíveis fontes de contaminação.

No estudo, deve constar a caracterização geral do local e demais informações como precipitação pluviométrica, área de captação, volume do reservatório, mecanismos para melhoria da qualidade da água, demanda a ser atendida e percentual de atendimento estimado desta demanda. Recomenda-se que seja realizada uma análise de viabilidade técnica-econômica do sistema a ser implantado.

Incluem-se na concepção os estudos das séries históricas e sintéticas das precipitações da região onde será feito o projeto de aproveitamento de água de chuva. A série histórica consiste em uma sequência de dados obtidos em intervalos regulares de tempo durante um período específico. As séries sintéticas são produzidas a partir de um modelo baseado na série histórica.

A disponibilidade teórica de água de chuva para captação depende da precipitação, da área de captação, do coeficiente de escoamento superficial da cobertura e da eficiência do sistema de tratamento, podendo ser estimado pela seguinte equação: Vdisp = P × A × C × η, onde Vdisp é o volume disponível anual, mensal ou diário de água de chuva, expresso em litros (L); P é a precipitação média anual, mensal ou diária, expressa em milímetros (mm); A é a área de coleta, expressa em metros quadrados (m²); C é o coeficiente de escoamento superficial da cobertura (runoff); η é a eficiência do sistema de captação, levando em conta o dispositivo de descarte de sólidos e desvio de escoamento inicial, caso este último seja utilizado. Estes dados podem ser fornecidos pelo fabricante ou estimados pelo projetista. Na falta de dados, recomenda-se o fator de captação de 0,85.

Segundo estudo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), por lei, a água fornecida pelo serviço de abastecimento deve seguir o padrão de potabilidade, ou seja, deve atender a certos requisitos para que não nos ofereça risco no seu uso mais nobre: beber a água. A água de chuva coletada em casa não é avaliada segundo esse padrão, ou seja, não é potável. Mesmo que pareça limpa, ela não tem qualidade garantida. Por isso, para beber e cozinhar, é mais seguro usar a água fornecida pela rede de abastecimento.

Os usos indicados para a água de chuva são aqueles não potáveis. Para outros usos, prefira sempre a água tratada pela rede de abastecimento. Mas, em condições anormais de distribuição, é possível usar a água de chuva também para tomar banho e lavar louças e roupas.

Para captar água de chuva de melhor qualidade, devem ser tomados alguns cuidados essenciais para coletá-la e armazená-la: filtrar para remover sujeiras como folhas, insetos e outras partículas. Deve-se descartar a água de primeira chuva e armazenar em reservatório adequado e protegido do mosquito da dengue.

Deve-se descartar a água de primeira chuva, pois apesar da filtragem conseguir reter as partículas maiores, a água de chuva ainda traz consigo sujeira bem fina que consegue passar pela tela. Quanto mais tempo sem chuva, mais sujo será o primeiro volume de água. Depois de três dias de estiagem, sua qualidade já fica muito ruim, prejudicando toda a água armazenada. Portanto, é muito importante descartar a água de primeira chuva.

É recomendado limpar as calhas regularmente, principalmente durante a estiagem. O volume recomendado para descarte, em geral, recomenda-se descartar o primeiro 1 milímetro (mm) de chuva.

Porém, em grandes cidades, a quantidade de poluentes e poeira no ar é maior, aumentando também o volume de água a ser descartada. Por isso, é recomendado o descarte de 2 mm de chuva. O reservatório para armazenar água de chuva é conhecido como cisterna, mas não é diferente daquele que você usa para guardar água da rede de abastecimento: caixas d’água, fabricadas conforme as normas técnicas brasileiras, são adequadas para armazenar qualquer água, inclusive de chuva.

Os usos não potáveis em edificações, abrangidos por esta norma, são os seguintes: sistemas de resfriamento a água; descarga de bacias sanitárias e mictórios, independentemente do sistema de acionamento; lavagem de veículos; lavagem de pisos; reserva técnica de incêndio; uso ornamental (fontes, chafarizes e lagos); irrigação para fins paisagísticos. Para outros usos devem ser estudados os parâmetros de qualidade específicos e tratamento necessários a cada situação pelo profissional responsável pelo projeto do sistema.

O sistema deve ser dotado de soluções ou dispositivos que impeçam a entrada e proliferação de vetores, em especial mosquitos. As calhas e condutores horizontais e verticais devem atender à NBR 10844. Deve ser observado o período de retorno escolhido, a vazão de projeto e intensidade pluviométrica. Recomenda-se que seja adotado período de retorno de no mínimo 25 anos.

Para os reservatórios, devem ser atendidas as normas técnicas vigentes aplicáveis à concepção, instalação e manutenção deles. O volume do (s) reservatório (s) deve ser dimensionado levando em consideração a área de captação, regime pluviométrico e demanda não potável a ser atendida. O reservatório deve ser seguro e possuir extravasor, dispositivo de esgotamento, inspeção e ventilação. O esgotamento pode ser feito por gravidade ou por bombeamento.

O reservatório deve ser fechado e prever mecanismos que evitem a entrada de insetos, roedores ou outros animais. Deve ser minimizado o turbilhonamento, dificultando a ressuspensão de sólidos e o arraste de materiais flutuantes. A retirada de água do reservatório deve ser feita próxima à superfície. Recomenda-se que a retirada seja feita em torno de 15 cm abaixo da superfície.

Quando houver suprimento com água potável no reservatório de água de chuva, deve ser instalado dispositivo de separação atmosférica para evitar refluxo/contaminação com água de chuva no sistema de água potável. Recomenda-se que a alimentação de água potável seja realizada de forma automática. A distância da separação atmosférica deve ser de no mínimo 3 cm ou três vezes o diâmetro nominal da tubulação de alimentação de água potável a partir da geratriz superior do extravasor.

A utilização em outras demandas não é contemplada por esta norma, cabendo ao projetista a justificativa e definição de procedimentos e parâmetros de qualidade específicos para estes usos. No caso de uso em sistemas de resfriamento à água, os parâmetros de qualidade e tratamento necessários para projeto e operação do equipamento não estão contemplados nesta norma e devem ser fornecidos pelo fabricante, pelo responsável pela colocação do produto no mercado nacional ou por profissional habilitado. Os parâmetros mínimos de qualidade para os usos não potáveis devem atender à tabela abaixo.

gua3

A contagem de coliformes (E. coli) por volume de 100 ml deve ser menor que 200 organismos por 100 mL. Para comprovação do atendimento deste requisito é possível realizar análise de presença/ausência. Se a análise indicar ausência na amostra o requisito está atendido. O valor máximo de turbidez deve ser 5 uT (unidades de turbidez) para todas as amostras.

Deve-se prever ajuste de pH para proteção das redes de distribuição, caso necessário. Em função de requisitos específicos do projeto e a critério do projetista pode ser necessária a desinfecção da água de chuva antes do seu uso. Esta desinfecção pode ser realizada por meio da utilização de cloro, ozônio, ultravioleta ou outras tecnologias.

No caso do uso do cloro recomenda-se a concentração de cloro residual livre entre 0,5 e 2,0 mg/L, sendo o valor máximo permitido de 5 mg/L. Deve-se considerar outros parâmetros de qualidade em função dos materiais e equipamentos de acordo com a orientação do fabricante.

Os parâmetros de qualidade da água de chuva para fins não potáveis devem ser monitorados periodicamente com frequência mínima semestral. Para garantia do parâmetro de qualidade, a água não potável deve ser monitorada por meio de análises laboratoriais com amostra retirada na saída do reservatório de distribuição, ou, na ausência deste, após tratamento.

Sendo constatada eventual contaminação da água do sistema de aproveitamento de água de chuva, deve-se: suspender a utilização da água de chuva contaminada; repetir a análise para confirmação da contaminação; caso confirmado, determinar e eliminar a sua causa e submeter o sistema a procedimentos que restaurem as condições de preservação da qualidade requerida da água; restaurar a distribuição após sanado o problema.

Caso o pré-tratamento descrito não seja suficiente para atingir os parâmetros mínimos estabelecidos, deve ser acrescido ao sistema um tratamento adicional por meio de soluções físicas e químicas de modo a atingir aqueles parâmetros. O tratamento, quando houver, deve também ser realizado em função do uso final e da qualidade requerida.

Devem ser realizadas a inspeção e manutenção periódica de todos os componentes do sistema. Convém realizar manutenção em todo o sistema de aproveitamento de água de chuva de acordo com recomendações da tabela abaixo ou de acordo com necessidades especificadas em projeto. Convém que o regime pluviométrico seja considerado para o estabelecimento das frequências de manutenção.

gua4

Quando da utilização de produtos potencialmente nocivos à saúde humana na área de captação, o sistema deve ser desconectado, impedindo a entrada desses produtos no reservatório de água de chuva. A reconexão deve ser feita somente após lavagem adequada, quando não houver mais risco de contaminação pelos produtos utilizados.

Em suma, implantar um projeto de captação da água da chuva em sua residência ou condomínio pode representar uma economia de até 50% nos custos finais da conta mensal de água da concessionária. Além de diminuir a pressão sobre esse recurso natural escasso, é uma garantia de que esse recurso finito não faltará em períodos de racionamento e rodízios de água, por exemplo.

Além da economia para o bolso, um sistema de captação de água da chuva, geralmente, é bem simples e não demanda grandes investimentos, nem grandes infraestruturas e mão de obra para a instalação. Um outro benefício é a minimização do risco de enchentes pelo escoamento do alto volume de água nas redes pluviais durante as chuvas fortes, uma vez que parte desta água irá para a cisterna de armazenamento.

Mas, como saber o tamanho da caixa d’água ou cisterna a ser utilizada para garantir o melhor custo x benefício? Para o dimensionamento de um sistema de coleta utilizam-se dois fatores: a área do telhado disponível para fazer a captação (em metros quadrados) e o histórico do índice pluviométrico da região em todo o ano (em metros), ou seja, a quantidade de chuva que cai na região.

O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) publicou um manual para captação emergencial e uso doméstico de água de chuva, com a ideia de oferecer à população as orientações para o aproveitamento emergencial da água de chuva, apresentando as boas práticas para a sua captação, armazenamento e utilização doméstica. As orientações se referem somente a soluções emergenciais e caseiras para a utilização de água de chuva e não a sistemas projetados de forma integrada à edificação. Clique aqui para acessar e baixar o manual

 



Categorias:Normalização, Qualidade

Tags:, , , , , ,

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: