Os prejuízos com as perdas de água potável

A crise hídrica que marca algumas regiões do país, notadamente o Sudeste e Nordeste, vem sendo insistentemente discutida entre autoridades, formadores de opinião e sociedade. Nesse sentido, as perdas de água nos sistemas de distribuição existentes nas cidades é um assunto que vem recebendo destaque. Apesar dos indicadores de perdas serem ruins há muito tempo, a escassez de água está causando debates e isso é importante se realmente o país quer dispor de mais água num futuro próximo.

gua2Da Redação –

O Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados, realizou um estudo que mostrou que as perdas de água potável seriam suficientes para abastecer 30% da população brasileira por um ano. Vazamentos, furtos, erros de leitura do hidrômetro, entre outros fatores, causaram um prejuízo acima de R$ 11 bilhões em 2017. Tendo como fundamento os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS – ano de referência 2017), foi revelado que as perdas na distribuição estão em 38,3%, ou em outras palavras, mais de 7.000 piscinas olímpicas de água potável perdidas todos os dias.

É importante compreender que as perdas de água potável ocorrem de maneiras diversas, sendo as mais comuns os vazamentos, roubos/furtos de água e erros de leitura ou leituras imprecisas devido aos hidrômetros serem muito antigos. As perdas são distribuídas entre físicas e aparentes, conforme a tabela abaixo.

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Comparativamente a outros países, o Brasil possui índices de perdas muito mais elevados do que de países menos desenvolvidos, tais como Bangladesh, Uganda e África do Sul, com perdas de 21,6%, 33,5% e 33,7%, respectivamente (tabela abaixo). Nessa tabela, vale observar que se deve ter em consideração que em outros países a diferenciação entre o volume consumido e o volume faturado não é comumente utilizada. Portanto, as comparações apresentadas têm como propósito evidenciar a tendência geral, tendo-se em vista que podem existir possíveis distorções geradas pela diferença nas definições mencionadas.

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Por sua vez, os indicadores brasileiros de perdas têm sofrido um aumento significativo, o indicador de perdas na distribuição apresentou aumento de 1,3 ponto percentual nos últimos cinco anos, e o indicador de perdas de faturamento de 2017 praticamente se igualou a 2013, quando era de 36,9%. Na tabelas abaixo é também possível ter uma dimensão do índice de Perdas de Faturamento Total (IPFT), indicador adaptado para o estudo que mensura também o uso de água de serviços (água para bombeiro, lavagem das estações de tratamento de esgoto, caminhões pipa, etc.), diferentemente do que é calculado pelo indicador de perdas de faturamento presente no SNIS.

Há tanto casos em que o volume de serviços reportado é zero, quanto casos em que o volume de serviços é um percentual representativo do total produzido de água. Por exemplo, há empresas que incluem o volume de perdas sociais (água utilizada em regiões mais carentes e não faturada) no volume de serviço reportado ao SNIS. Tal prática pode elevar desproporcionalmente o volume de serviço de alguns prestadores.

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Para o presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, este é um cenário preocupante. “As perdas de água são um sinônimo da eficiência do sistema de produção e distribuição das empresas operadoras”, explica. “O aumento das perdas mostra que há um problema de gestão e que os investimentos na redução não vêm sendo suficientes para combater o problema. Mais preocupante é pensar que num momento de crise hídrica não será suficiente pedir para que a população economize água se as empresas continuarem perdendo bilhões de litros por deficiências diversas”.

Para o sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, a redução de perdas é o maior manancial que o Brasil possui. “Tal desafio requer uma ação conjunta de todos os agentes envolvidos no setor”, observa. “Somente com foco em planejamento de longo prazo e aprimoramento das sinergias entre operadores e poderes públicos será possível viabilizar os recursos para os investimentos tão necessários para aumentar a disponibilidade hídrica”.

O estudo fez, também, uma análise dos principais indicadores ligados às perdas de água entre 2015 e 2017, que pode ser conferido na tabela abaixo. Pode-se ver que houve um aumento na produção de água, ou seja, para atender a população as cidades brasileiras estão retirando mais água da natureza. O problema é que as perdas também aumentaram.

“O aumento da produção de água pode nos levar a crer que está havendo um consumo maior pela população e demais usos da água potável, mas na verdade podemos estar tirando mais água apenas para compensar o aumento das perdas. Isso seria péssimo para a sustentabilidade do próprio sistema e para os usuários. Incrível ver que, em 2017, perdemos uma quantidade de água que poderia abastecer metade da nossa população por um ano”, acrescenta Édison Carlos.

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O índice de perdas de água no sistema de distribuição (IPD) no Brasil é consideravelmente alto, mas as médias escondem as disparidades regionais. No Norte do país, por exemplo, região com os piores índices de abastecimento de água, coleta e tratamento dos esgotos, o IPD também alcança uma porcentagem muito alta: 55,14% (ver tabela abaixo). Isso significa que mais da metade da água produzida não chega à população.

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Já analisando as Unidades da Federação (UF), Goiás é o único estado que está abaixo dos 30% de perdas na distribuição. Roraima é o estado que mais perde, com 75% de perdas de água potável (tabelas abaixo). Com relação às Perdas de Faturamento Total e Perdas de Faturamento, os indicadores estão igualmente nas tabelas abaixo.

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Para estratificar as perdas de água potável nos maiores municípios brasileiros, o estudo abordou as 100 maiores cidades que, juntas, representam 40% da população do país. O nível de perdas dessas cidades é superior à média nacional conforme a tabela abaixo.

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Os municípios que perderam mais e menos água foram Porto Velho – RO (77,11%) e Santos – SP (14,32%). Em Porto Velho, o índice de perdas na distribuição aumentou de um ano para o outro e apenas Santos possui níveis de perdas na distribuição menores que 15% (valores considerados como ótimos). Os dados mostram que 81% das grandes cidades têm perdas na distribuição superiores a 30%, existindo assim grande potencial de redução de perdas (tabela abaixo).

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Campina Grande (-2,72%) foi o município com menor índice de perdas de faturamento e o maior foi Porto Velho – RO (73,55%). Deve-se observar que é possível que o indicador apresente valor negativo, isto é, que o volume faturado seja superior ao volume produzido e importado. No entanto, não é comum que isso ocorra em operações de saneamento. Apesar disso, foi adotado o número reportado ao SNIS como parâmetro.

Dos 100 municípios considerados, apenas nove possuem níveis de perdas totais de faturamento iguais ou menores que 15% (valor usado como parâmetro ideal para o esse indicador). Os dados mostram que quase 70% dessas cidades tiveram perdas de faturamento superior a 30%, portanto, as empresas podem ganhar muito reduzindo os problemas (tabela abaixo).

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O estudo criou cenários futuros para mensurar os ganhos do país se houvesse a redução das perdas de água potável definindo-se três cenários para 2033: redução a 15% (cenário otimista); redução a 20% (cenário base); e redução a 25% (cenário conservador). Considerou-se a meta de 20% como a mais realista para o cenário brasileiro.

Logicamente, não se busca os níveis de Tóquio ou Cingapura, cujos níveis de perdas estão abaixo de 10%, mas também não se partiu de metas pouco desafiadoras, como os 31% do Plansab para 2033. Considerou-se os investimentos necessários nas ações a serem realizadas, como caça-vazamentos, troca de tubulações, conexões e ramais, caça-fraude, troca de hidrômetros tomando como parâmetro o Cenário Base (redução a 20%). Foi possível constatar que existe um potencial de ganhos líquidos (já descontados os investimentos necessários) de quase R$ 31 bilhões até 2033 (tabela abaixo).

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“O estudo analisou os principais indicadores de perdas no Brasil e conseguiu mostrar a relação novamente com os impactos econômicos e de eficiência. Num cenário de imprevisibilidade do clima e consumo de água, não cabe mais manter o assunto perdas de água apenas na esfera técnica. A sociedade, a imprensa, formadores de opinião e outros precisam se apropriar do assunto, pois, no fim, o que resulta é a diminuição da água para todos os usos, especialmente faltando aos cidadãos”, complementa Édison Carlos.

“Muitas capitais brasileiras já têm dificuldade de controlar suas perdas, até mesmo por serem populosas e terem relevos acidentados que justificam parte destes problemas. Estamos num momento em que é necessário avançar na redução das perdas de água, pois é o único recurso que não pode faltar para a humanidade. Ao tirar mais água da natureza para tratar e fornecer aos cidadãos, precisamos fazê-lo de maneira segura e responsável, com comprometimento para que não haja deficiência financeira e social no futuro”, conclui Gesner Oliveira.

O saneamento básico no Brasil não avança

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O ranking do saneamento básico no Brasil, nas 100 maiores cidades, analisou os indicadores de água e esgotos através dos dados do Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS). O SNIS é atualizado todo ano pelo Ministério das Cidades que foi criado em 01/01/2003 com o propósito de combater a desigualdade social e garantir acesso da população a moradia, saneamento básico e transporte. Em 01/01/2019 o Ministério das cidades foi fundido ao Ministério da Integração Nacional e foi criado o Ministério do Desenvolvimento Regional.

O relatório, referente ao ano 2016, demonstra que houve pouco avanço em relação ao período anterior e que o Brasil descartava 5.733 mil piscinas olímpicas por dia (14 milhões de M³/ dia) de esgoto sem tratamento. No ano de 2016 o quadro do Brasil era: 17% da população não tinha abastecimento de água, 48% não tinha coleta e tratamento de esgoto e apenas 45% dos esgotos gerados no país eram tratados.

Ao analisar o período de 2011 a 2016, os número indicam pouco avanço: aumento de 1% de população com água tratada; aumento de 3,1% de população com coleta de esgoto; aumento de 7,7% de tratamento de esgoto de toda água consumida; reduziu 0,7% de perdas de água na distribuição. O investimento foi crescente de 2011 até 2014 mas teve queda nos anos seguintes de 2015 e 2016. 2016 teve investimento quase igual do valor investido em 2011. Veja gráfico abaixo.

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Do ano 2015 ao ano 2016 o investimento em água potável reduziu 13,19% no Brasil. Nas 100 maiores cidades essa redução foi menor 7,17%. A diferença é grande se analisar regiões menos desenvolvidas, isso fica visível ao comparar as 20 piores e as 20 melhores cidades. Mesmo considerando que as 20 piores tem aproximadamente 2,5 milhões a mais de pessoas que as 20 melhores.

As 20 piores cidades têm 19,19% mais habitantes, quase 80% em cobertura de atendimento de água; 25% de cobertura de atendimento de esgoto; 15% de esgoto tratado por água consumida; 45% de perda na distribuição de água. Já as 20 melhores cidades têm: 57% mais investimento (milhões/5 anos); 65% mais investimento médio anual por habitante (R$ unidade); 100% de cobertura de atendimento de água; 96% de cobertura de atendimento de esgoto; 90% de esgoto tratado por água consumida; e 33% de perda na distribuição de água.

Pode-se destacar dois indicadores como sendo os mais discrepantes: o primeiro é a cobertura de atendimento de esgoto que é 71% maior nas 20 melhores cidades do que nas 20 piores cidades. O segundo indicador se trata da quantidade de esgoto tratado em relação a água consumida, as melhores cidades tratam 75% a mais que as piores.

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Édison Carlos destaca que o desenvolvimento e investimento feitos nas melhores cidades continua mesmo que de forma desacelerada, porém o grande problema é que as cidades deficitárias, e que deveriam ter investimentos aumentados, continuam com falta de estruturas adequadas para atender as suas comunidades. Isso acaba aumentando as distanciando ainda mais as melhores e as piores cidades, criando uma barreira maior.

O indicador de tratamento de esgoto é o que tem maior diferença, longe de ser um serviço universalizado, mostrando um grande desafio a ser quebrado. É o índice mais preocupante se levar em consideração a existência de 10 municípios com índice entre 0% e 3,89% de tratamento.

Os estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais apresentam os melhores indicadores de água e esgoto no país, coincidindo com a concentração de maiores investimentos e infraestrutura. É necessário investimento com foco nas regiões mais carentes. Esse quadro se complica se levar em consideração que quanto mais precário o serviço de fornecimento de água e a coleta e tratamento de esgoto menores são os investimentos, menos infraestrutura, além de fatores complicadores como a dificuldade de acesso, distância dos grandes centros, fatores que não ajudam no desenvolvimento.



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2 respostas

  1. Muita conversa para empolgar desavisados. Perdas com visão operacional sempre estarão neste patamar.

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