O tratamento de ar em unidades de saúde

Os projetos de sistemas de tratamento de ar em ambientes hospitalares apresentam desafios únicos aos instaladores devido às sensibilidades desse tipo de ambiente. O processo de seleção não é direto, porque nas unidades de saúde há um aumento no nível de demanda, uma variedade de condições térmicas necessárias e códigos relativos à confiabilidade e higiene. Além disso, há uma pressão para reduzir o consumo de energia, mantendo um ambiente seguro. Assim, os parâmetros de climatização para os seus diversos ambientes, em especial os relativos aos sistemas de filtragem, controle dos fluxos de ar e renovação de ar exterior. Em todos os compartimentos, estabelecidos pelo estudo arquitetônico, deve-se atender às condições de segurança e, principalmente, evitar a possibilidade de veiculação de doenças originada por micro-organismos cuja transmissão é causada por aerossolização.

tratamento2Da Redação –

Não há dois hospitais iguais e, embora as instalações geralmente contenham o mesmo programa, o tamanho, a localização, as prioridades ou os objetivos variáveis podem levar a sistemas de tratamento de ar completamente diferentes. O objetivo, então, não é designar um sistema de climatização universal para todas as unidades de saúde, mas sim identificar os vários fatores e processos gerais que precisam ser considerados na seleção desses sistemas para o setor da saúde.

A etapa inicial no processo de seleção de um sistema de climatização é reunir-se com as partes interessadas do projeto para entender completamente as metas específicas ou desejadas da instalação. O engenheiro deve documentar as expectativas mensuráveis do cliente e definir quaisquer fatores críticos de sucesso. Deve-se estabelecer se há metas específicas de avaliação de risco de controle de infecção que a instituição possa estar buscando, como uma redução departamental na contaminação aérea ou uma redução no número de infecções hospitalares.

Depois, identificar quaisquer metas quantificáveis sustentáveis e de eficiência energética para melhorar o ambiente de construção e fornecer economia de custos para operações de construção e manutenção de longo prazo, como se o projeto buscará programas de certificação voluntária ou obrigatória como o Leadership in Energy and Environmental Design (LEED) ou uma certificação ambiental para os edifícios mais utilizada em todo o mundo. Além disso, deve identificar se existe uma meta geral de intensidade de uso de energia ou uma porcentagem da redução de uso de energia que o projeto está buscando. Todas as metas devem ser identificadas, agrupadas em categorias obrigatórias e boas para se ter, porque algumas podem não ser viáveis devido a restrições do projeto.

Em seguida, deve-se revisar os requisitos do programa com o arquiteto e a equipe médica. Discutir as condições de temperatura e umidade para os vários programas médicos dentro do prédio, por exemplo, em salas de pacientes, salas de cirurgia, salas de exame e radiologia – especificamente se qualquer exceder os requisitos mínimos das normas internacionais ou nacionais.

Deve-se reconhecer os requisitos específicos de pressurização para todos os vários programas médicos, como salas de isolamento, salas de procedimentos, salas de espera, cozinhas e laboratórios. Identificar os requisitos especiais de filtração dos programas médicos – filtração de terceiro estágio, filtração ultravioleta e exaustão infecciosa, etc. Distinguir os requisitos específicos de ventilação para cada programa médico, incluindo taxas mínimas de fornecimento e de troca de ar externo e discutir a necessidade ou desejo de controle de fumaça em toda a unidade central e a capacidade de fornecer compartimentos pressurizados.

Deve-se analisar os requisitos de redundância específicos para o projeto e considerar a análise de vulnerabilidade de risco, incluindo o serviço de ar-condicionado e de ventilação ininterrupto e identificar os requisitos acústicos específicos para os vários programas médicos dentro do edifício.

Dessa forma, o projeto do sistema de climatização de um estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS) é de fundamental importância, pois possibilita aos coordenadores dos projetos executivos a visualização das instalações como um todo, de forma a se evitar as possíveis interferências entre as diferentes instalações prediais. O projeto também possibilita aos proprietários dos EAS visualizar o sistema de climatização e suas peculiaridades e, principalmente, compreenderem sua função e o funcionamento básico dele.

O conhecimento prévio das possíveis interferências entre as diferentes instalações prediais antes de sua construção e instalação resulta na minimização ou mesmo na eliminação de custos com modificações e reparos posteriores. Um projeto de climatização corretamente dimensionado evita a instalação indevida de equipamentos condicionadores de ar e acessórios, resultando em crescente redução de custos com a instalação, operação e manutenção do sistema.

Um dos erros mais comuns em climatização de EAS, principalmente em consultórios e clínicas, é a instalação de equipamentos de ar condicionado de janela e minisplits. Esses equipamentos não possibilitam a renovação de ar exterior e a manutenção dos níveis de pressão necessários para uma boa qualidade do ar interior.

A instalação de ventiladores portáteis ou modelos de teto em ambientes críticos não é permitida, pois eles apenas movimentam o ar ambiente por meio de uma corrente de ar que pode inclusive carrear material particulado indesejável. Deve ser observada a necessidade de controle da umidade relativa do ar no ambiente climatizado.

Caso esta seja necessária, não será permitida a climatização do ambiente pelo processo de resfriamento evaporativo. Portanto, a instalação destes ventiladores somente pode ser efetuada nas áreas não críticas como as áreas administrativas, refeitórios, salas de espera, recepções, circulações, etc. A execução dos serviços de limpeza e de manutenção de sistemas de climatização depende de uma série de fatores, como a qualidade do ar externo, a capacidade da instalação, o tipo de equipamento, o ambiente climatizado, o tempo de utilização dos equipamentos, dentre outros.

Esses procedimentos de limpeza e de manutenção dos equipamentos e acessórios que compõem o sistema de climatização são fundamentais para se garantir o seu funcionamento correto e uma boa qualidade do ar interior no ambiente climatizado. A responsabilidade técnica dos serviços de manutenção de sistemas de climatização pode ser exercida por engenheiro mecânico pertencente ao quadro funcional do EAS ou por engenheiro mecânico pertencente ao quadro funcional de uma empresa de engenharia ou autônomo. No primeiro caso o profissional gerenciará uma equipe própria do EAS, enquanto no segundo o engenheiro gerenciará uma equipe terceirizada nas atividades de manutenção do sistema de climatização.

A NBR 7256 (ABNT/NB 658) de 03/2005 – Tratamento de ar em estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS) – Requisitos para projeto e execução das instalações estabelece os requisitos mínimos para projeto e execução de instalações de tratamento de ar em EAS. Aplica-se somente aos ambientes dos EAS listados na tabela A.1 (disponível na norma), com classificação de risco nível 1 ou superior.

Os demais ambientes dos EAS, assim como os ambientes não diretamente relacionados aos serviços assistenciais, tais como saguão de entrada, escritórios administrativos, auditórios, bibliotecas, estão fora do escopo desta norma, devendo ser regidos pelas NBR 16401-1 de 08/2008 – Instalações de ar-condicionado – Sistemas centrais e unitários – Parte 1: Projetos das instalações que estabelece os parâmetros básicos e os requisitos mínimos de projeto para sistemas de ar-condicionado centrais e unitários; NBR 16401-2 de 08/2008 – Instalações de ar-condicionado – Sistemas centrais e unitários – Parte 2: Parâmetros de conforto térmico que especifica os parâmetros do ambiente interno que proporcionem conforto térmico aos ocupantes de recintos providos de ar-condicionado; e NBR 16401-3 de 08/2008 – Instalações de ar-condicionado – Sistemas centrais e unitários – Parte 3: Qualidade do ar interior que especifica os parâmetros básicos e os requisitos mínimos para sistemas de ar-condicionado, visando à obtenção de qualidade aceitável de ar interior para conforto.

Assim, a NBR 7256 não tem efeito retroativo. Aplica-se a instalações em EAS novos e a instalações em áreas modificadas, modernizadas ou ampliadas de EAS existentes. Nada nesta norma deve ser interpretado como impedimento à adoção de novos procedimentos ou equipamentos, desde que comprovado seu atendimento aos critérios e requisitos estipulados nesta norma.

As instalações de tratamento de ar devem controlar os seguintes parâmetros ambientais: condições termoigrométricas; grau de pureza do ar; e renovação e movimentação do ar. Um dos objetivos essenciais das instalações é garantir qualidade do ar adequada e, em particular, reduzir os riscos biológicos e químicos transmissíveis pelo ar em níveis compatíveis com a atividade desenvolvida nas diversas áreas.

O tratamento de ar, no entanto, embora sendo um fator importante no controle de infecções, deve ser considerado apenas um complemento às demais medidas de controle de infecção hospitalar, estas no âmbito da rotina operacional do EAS. As instalações de tratamento de ar podem se tornar causa e fonte de contaminação, se não forem corretamente projetadas, construídas, operadas e monitoradas, ou ainda se não receberem os cuidados necessários de limpeza e manutenção.

As instalações de tratamento de ar devem ser projetadas, construídas, operadas e mantidas de forma a minimizar o risco de incêndio. O controle das condições termoigrométricas é necessário para, além de propiciar condições gerais de conforto para os pacientes e profissionais da área de saúde: manter condições termoigrométricas ambientais favoráveis a tratamentos específicos; inibir a proliferação de micro-organismos, favorecida por umidade alta; e propiciar condições específicas de temperatura e/ou umidade para operação de equipamentos especiais.

Certos agentes infecciosos podem permanecer indefinidamente em suspensão no ar; 99,9% dos agentes microbiológicos presentes no ar de EAS podem ser retidos em filtros finos de alta eficiência, por formarem grumos e se aglomerarem com poeiras em colônias. Em certas áreas críticas, a utilização de filtros A3 (HEPA) é obrigatória.

As tentativas de eliminar micro-organismos presentes no ar por radiação ultravioleta ou por ação de produtos químicos têm se mostrado pouco confiáveis, não sendo recomendado seu uso. Para os efeitos desta norma, aplica-se a seguinte classificação de riscos ambientais à saúde:

  • Nível 0 – Área onde o risco não excede aquele encontrado em ambientes de uso público e coletivo.
  • Nível 1 – Área onde não foi constatado risco de ocorrência de agravos à saúde relacionados à qualidade do ar, porém algumas autoridades, organizações ou investigadores sugerem que o risco seja considerado;
  • Nível 2 – Área onde existem fortes evidências de risco de ocorrência de agravos à saúde relacionados à qualidade do ar, de seus ocupantes ou de pacientes que utilizarão produtos manipulados nestas áreas, baseadas em estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos bem delineados;
  • Nível 3 – Área onde existem fortes evidências de alto risco de ocorrência de agravos sérios à saúde relacionados à qualidade do ar, de seus ocupantes ou pacientes que utilizarão produtos manipulados nestas áreas, baseadas em estudos experimentais, clínicos ou epidemiológicos bem delineados.

Dessa forma, a renovação do ar ambiente com ar novo de boa qualidade proveniente do exterior é necessária para reduzir a concentração de poluentes transportados pelo ar, principalmente os que não são retidos pelos filtros de partículas, como odores e gases. A vazão mínima de ar total é estipulada de forma a garantir movimentação adequada do ar ambiente e acelerar o transporte, até os filtros, dos poluentes gerados internamente.

O sistema de tratamento de ar deve evitar fluxos de ar indesejáveis entre os ambientes, mantendo gradientes de pressão interna, dos ambientes mais limpos para os mais contaminados. Um diferencial de pressão em relação aos ambientes vizinhos é obtido insuflando no ambiente vazão de ar maior ou menor que a retirada por meios mecânicos, para pressão positiva ou negativa respectivamente. Os ventiladores de insuflamento devem ser instalados entre o primeiro e o segundo estágios de filtragem.

A condensação de umidade no ventilador deve ser evitada. A carcaça do ventilador deve ter, preferivelmente, porta de inspeção e dreno permitindo a limpeza interna.

Devem ser evitadas as grandes variações das vazões de insuflamento e/ou exaustão devidas ao aumento da perda de carga do sistema com a saturação progressiva dos filtros, o que pode inviabilizar a manutenção dos gradientes de pressão entre os ambientes. Nestes casos, deve ser avaliada a necessidade de um dispositivo de controle da vazão do ventilador afetado em função do grau de saturação dos filtros.

Deve ser previsto comando para acionamento manual à distância que permita em caso de emergência, desligar os ventiladores de insuflamento, retorno e exaustão, posicionados em local de fácil acesso. Os atenuadores de ruído devem apresentar superfícies em contato com o ar altamente resistentes à abrasão.

O material acústico absorvente deve ser revestido por película plástica resistente e limpável e protegida por chapa metálica perfurada ou tela metálica; a perda de atenuação, por banda de oitava, daí decorrente deve ser levada em consideração. Na aspiração do ventilador, os atenuadores devem ser instalados a jusante do primeiro estágio de filtragem, e no lado do insuflamento, a montante do segundo estágio de filtragem.



Categorias:Normalização, Qualidade

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