A realidade aos olhos dos sistemas de gestão em saúde e segurança

A ISO 45001:2018 é uma vitória para a área, isso porque a gestão em saúde e segurança do trabalho passa a virar estratégica do negócio.

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Luiz Otávio Goi Junior

Há um imenso vazio quando tratamos de saúde e segurança dentro de um sistema de gestão. Existem inúmeras empresas de consultoria que geram os famosos documentos de gestão em saúde e segurança obrigatórios. Por si só tenho minhas considerações quando tratamos dos sistemas de gestão a partir da obrigatoriedade, mas isso é um caso à parte, já que não estamos falando de legislação trabalhista.

No tocante aos conceitos dos sistemas de gestão, temos perfis de profissionais responsáveis por administrar o sistema com formações especificas definidas nas Normas Regulamentadoras que, normalmente, pouco agregam dessa capacitação tradicional acadêmica quanto à gestão de sistemas. Se os sistemas de gestão por si só já apresentam uma complexidade notória, maior ainda quando o perfil técnico é o mais presente e isso é o que acontece nas áreas de saúde e segurança principalmente.

Em casos de empresas com menor porte, onde a obrigatoriedade de profissionais é menor ou inexistente, lidamos com terceirizações de serviços e ainda com programas para atender a legislação, que é onde mora o grande perigo. As atividades voltadas aos sistemas de gestão em saúde e segurança que até então foram sintetizados na OHSAS 18001 (pouco difundida nas empresas) têm agora um marco que é o lançamento da ISO 45001:2018 que é a norma certificadora de saúde e segurança que tomará seu lugar. Para as empresas já certificadas na OHSAS 18001, haverá uma transição cujo prazo será de três anos para adaptação.

E o que mudou na ISO 45001 quando se compara com a OHSAS 18001. Para os grandes conhecedores da área, a ISO 45001:2018 é uma vitória para a área, isso porque a gestão em saúde e segurança do trabalho passa a virar estratégica do negócio e também porque tem uma abrangência de sistema maior do que na OHSAS 18001.

As principais diferenças existentes entre as normas estão na gestão de riscos, isso porque na OHSAS 18001 existe uma concentração na análise dos perigos o que faz toda a diferença para o aspecto de prevenção. Na norma atual será necessário por parte da empresa um maior detalhamento na avaliação dos riscos, assim como também está em foco na ISO 9001:2015.

No caso de gestão em saúde e segurança que trata de condições mais delicadas, principalmente das irreversíveis, como acidentes com mortes, invalidez, amputações e doenças ocupacionais, a gestão de risco cai como uma luva em um cenário trágico atual. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) temos o catastrófico número de 2.300.000 de mortes por acidentes de trabalho por ano no mundo.

Só no Brasil, segundo os dados da previdência social, temos cerca de 700.000 acidentes de trabalho por ano, sendo que 75% dos casos gerados por acidentes típicos e 25% por acidentes de trajeto. Nessas questões, a gestão de riscos será uma grande aliada para que os acidentes evitáveis sejam realmente tratados no caráter de prevenção para que esse número possa ser reduzido.

Outra mudança interessante é quanto ao contexto da saúde e segurança para a organização e ainda o fator das responsabilidades. Nas empresas certificadas na OHSAS 18001, é muito comum termos uma área de estrutura fixa de segurança do trabalho onde as responsabilidades do sistema estão direcionadas a essa área, quase sempre sob a gestão de quem coordena todo os sistemas de gestão ou de um gestor específico para a área.

No caso da ISO 45001:2018 a responsabilidade do sistema de saúde e segurança está como nas outras normas ISO certificáveis (gestão da qualidade e meio ambiente) ligada ao sistema de operações gerais da empresa, como também à alta administração. Isso faz com que a responsabilidade pelo funcionamento do sistema seja compartilhada, amplamente divulgada e ainda com que sua política seja disseminada entre todos os colaboradores, como requisito.

Uma mudança que também promete dar o que falar é a inclusão da gestão de fornecedores. Agora, além de auditar e avaliar os fornecedores, as empresas certificadas precisarão monitorar os riscos em saúde e segurança sob os quais esses fornecedores estão submetidos, com isso a cadeia de fornecimento começa a ficar estreita e a cultura de segurança tende a se espalhar mais rapidamente.

Toda essa mudança, ligada a certificações de saúde e segurança, vem com tendência a trazer grandes impactos positivos. Porém, é muito importante que os envolvidos nesses sistemas tenham o entendimento e convicção que com a ISO 45001:2018, a gestão de saúde e segurança deixa de ser simplesmente técnica, como muitos acreditam que seja ainda hoje, para se tornar um sistema administrado e gerenciável.

Essa mudança no perfil profissional será o principal divisor de águas, pois ainda existe em grande parte das empresas a divisão entre o fazer mais x fazer seguro. Em uma avaliação prática, o fazer melhor é a soma dessas duas ideias, onde todos colaboram para um mesmo objetivo: a produtividade eficaz com saúde e segurança.

Luiz Otávio Goi Junior é gerente de sistemas de gestão integrados em indústria de grande porte, atua com sistemas de gestão há 12 anos, passando pelos setores de artigos esportivos, energia eólica e na indústria automobilística de autopeças, tem graduação em gestão ambiental, pós graduação em educação, sistemas de gestão integrados e MBA em gestão empresarial – luizgoijraa@gmail.com



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