As patologias em revestimento cerâmico

A ocorrência de patologias representa um fator de redução da vida útil nas edificações prediais e pode comprometer a segurança e habitabilidade de um imóvel. Os tipos de patologias são extremamente variados e praticamente atingem todos os sistemas prediais. O surgimento também ocorre em período abrangente, ou seja, constatam-se registros de manifestações patológicas em obras recém-concluídas até construções centenárias. As causas podem ser diversificadas, mas em sua maioria estão restritas a falhas de projeto (inclusive ausência de projeto específico), falhas de execução e falhas de manutenção. O sistema de revestimento cerâmico de fachada vem se destacando pela estética e valorização do imóvel, contudo, o surgimento de patologias nesse sistema cresceu consideravelmente. Os custos de recuperação são significativos e podem ser atribuídos às incorporadoras e ou construtoras, conforme diagnóstico de causas. Observa-se que as falhas de projeto e execução tem gerado inúmeras patologias no revestimento cerâmico de fachadas, repercutindo em despesas não previstas nos orçamentos das obras e na redução do tempo de vida útil do revestimento.

Marcelo

Marcelo Pereira de Miranda

Apesar dos avanços nas tecnologias construtivas, bem como na qualidade e disponibilidade de materiais, a presença de patologias em obras de edifícios residenciais e comerciais recém-construídos ainda é recorrente. Os estudos publicados por Vazquez e Santos(2010) identificaram as manifestações patológicas mais frequentes ocorridas entre a etapa de pós-entrega até a vigência da garantia contratual e recuperadas como serviços de assistência técnica.

Todos os imóveis foram construídos por uma grande construtora nacional. Ademais, também foram apurados os gastos necessários ao tratamento dessas patologias. As amostras foram coletadas entre janeiro/2005 e maio/2008 e compreenderam 53 empreendimentos imobiliários de médio e alto padrão localizados na Barra da Tijuca e Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Dados extraídos desse trabalho permitiram elaborar a tabela abaixo.

Tabela 1 – Manifestações Patológicas

ESTATÍSTICA DE MANIFESTAÇÕES PATOLÓGICAS (2005 a 2008)
DESCRIÇÃO OCORRÊNCIAS RECUPERAÇÃO
Número % Custo(R$) %
Revestimentos Cerâmicos 1.690 7,81 425.244,79 6,51
Fundação 124 1,15 450.836,11 6,90
Fachadas 1.588 7,33 486.191,04 7,44
Pintura e Limpeza 1.706 7,88 642.527,78 9,84
Instalações Hidrossanitárias 5.584 25,79 735.136,03 11,25
Impermeabilização 3.454 15,95 1.738.054,03 26,61
Demais Patologias 7.630 34,09 2.053.592,44 31,45
TOTAL 21.652 100,00 6.531.582,22 100,00

Fonte: O Autor.

Obs.: Nenhuma das demais patologias atingiram percentual de ocorrência superior a 6%.

A análise da Tabela 1 permite constatar os valores substanciais destinados à recuperação de patologias em novas edificações (R$6.531.582,22). Ressalta-se que esses levantamentos estão restritos a obras de uma mesma construtora e abrangem determinada região da capital fluminense.

No alt text provided for this imageMais informações no link https://lnkd.in/d29TQ-T

Os diagnósticos realizados em habitações de interesse social na cidade de João Pessoa/PB, constataram que as patologias classificadas como umidade representaram o maior percentual de manifestações patológicas (40%), seguida por fissuras (32%), deslocamento (16%) e outros (12%) (STUCKERT; SOBRINHO; 2016). Os estudos acerca da avaliação de desempenho de habitações sociais localizadas na cidade de São Carlos/SP constataram o aumento de patologias em períodos cada vez mais curtos.

Apesar da indústria da construção estar evoluindo no campo das técnicas e dos materiais de construção e estar se adequando aos sistemáticos programas de qualidade, verifica-se que as patologias continuam sendo um grande desafio para a engenharia. Isto porque cada vez mais se observa um aumento de incidências em prazos cada vez mais curtos devido, sobretudo, às soluções inadequadas de projeto, uso impróprio de materiais, negligência na execução e falta de manutenção, entre outros aspectos. (OLIVEIRA et al; 2009.)

Portanto, infere-se que a ocorrência de patologias não se caracteriza por ser um problema específico de determinada região do país, tampouco está restrita ao padrão construtivo (baixo, normal e alto). Pelo contrário, as inconformidades verificadas nos trabalhos supracitados se assemelham pelas características e elevado número de ocorrências.

Considerando o nível de concorrência existente no mercado da construção civil, os gastos necessários à recuperação de patologias podem implicar na perda de competitividade e ocasionar a falência de empresas do setor. De acordo com a Tabela 1, 7,44% dos recursos financeiros para tratamento de patologias detectadas no respectivo estudo foram destinados à recuperação de fachadas.

Outrossim, 6,51% dos recursos totais foram aplicados na recuperação de revestimentos cerâmicos. A crescente utilização de revestimento cerâmico em fachadas vem repercutindo sobremaneira no surgimento de patologias, sendo a principal delas, o desplacamento de peças cerâmicas. Essa patologia representa riscos de acidentes, implicando em isolamento de áreas com possibilidade de queda de materiais. Assim, é evidente que as ações corretivas podem chegar intempestivamente. Portanto, é necessário implementar ações preventivas que possam garantir a segurança dos usuários e a vida útil do sistema de revestimento.

A metodologia aplicada consistiu na análise crítica de normas técnicas de referência concernentes aos temas de desempenho de edificações, manual de uso, operação e manutenção e conservação predial. Além disso, foram pesquisados estudos de caso que abordavam o tema patologia sob os aspectos qualitativos e quantitativos com destaque para as manifestações patológicas em revestimentos cerâmicos de fachadas.

Analisando os termos e definições presentes na norma NBR 15575 – Edificações habitacionais – Desempenho, verifica-se que vida útil de projeto (VUP) é uma estimativa teórica do tempo que compõe o tempo de vida útil (VU) de um sistema ou edificação. VUP e VU são termos que se relacionam, porém, distintos. Assim, a VUP corresponde ao período estimado de tempo para o qual um sistema é projetado, a fim de atender aos requisitos de desempenho estabelecidos pela própria norma de desempenho.

Por sua vez, a VU compreende o período de tempo em que um edifício e/ou seus sistemas se prestam às atividades para as quais foram projetados e construídos, com atendimento a determinados níveis de desempenho, todavia, é necessário que o proprietário do imóvel atenda aos preceitos descritos na NBR 14037 – Diretrizes para elaboração de manuais de uso, operação e manutenção de edificações. O tempo de VU pode ou não ser atingido em função da eficiência e registro das manutenções, de alterações no entorno da obra, fatores climáticos, dentre outros.

Dessa forma, a VU está relacionada não somente com o projeto e execução, mas também com os procedimentos de uso, operação e manutenção a cargo do proprietário. Além disso, a norma de desempenho estabelece parâmetros para categorização e determinação da VUP, conforme tabelas CI a C6, a saber: Tabela C1 – Efeito das falhas no desempenho; Tabela C2 – Categoria de vida útil de projeto para partes do edifício; Tabela C3 – Custo de manutenção e reposição ao longo da vida útil; Tabela C4 – Critérios p/ estabelecimento de VUP das partes do edifício; Tabela C5 – Estabelece a VUP mínima e superior; Tabela C6 – Exemplos de VUP. Portanto, de acordo com as tabelas C1 a C4, podemos classificar os revestimentos de fachadas, inclusive revestimentos cerâmicos, de acordo com o Quadro 1.

Quadro 1 – VUP Para Fachadas

PARÂMETROS PARA ESTABELECIMENTO DE VUP – FACHADAS
Tabela Categoria Descrição
C1 B Risco de ser ferido
C2 2 Manutenível – São duráveis, porém necessitam de manutenção periódica, e são passíveis de substituição ao longo da vida útil do edifício.
C3 E Alto custo de manutenção ou reparação

Custo de reposição muito superior ao custo inicial

C4 Entre 40% e 80% da VUP da estrutura

Fonte: O autor.

A tabela C5 fixa o mínimo de 40 anos para VUP pertinente ao sistema de vedação vertical externa que contempla o subsistema de fachada. Por sua vez, a tabela C6, que preconiza a VUP para parte da edificação, estabelece o tempo mínimo de 20 anos para revestimento de fachada aderido e não aderido. Dessa forma, infere-se que o tempo mínimo para a VUP do subsistema de revestimento cerâmico de fachada é de 20 anos.

Todos esses prazos estão vinculados à periodicidade e processos de manutenção segundo a NBR 5674 – Manutenção de edificações e especificados no manual de uso, operação e manutenção entregue ao usuário em atendimento à NBR 14037. Portanto, o estabelecimento da VUP não representa garantia de que o respectivo sistema e suas partes manterão desempenho adequado nesse período de tempo. Apesar da VUP estimada em 20 anos para o revestimento cerâmico de fachada, constata-se que em inúmeros casos, patologias emergem nos primeiros anos de construção, o que levanta dúvidas acerca da confiabilidade das técnicas e materiais utilizados na execução desse sistema.

O prazo de garantia legal corresponde ao período de tempo previsto em lei que o comprador dispõe para reclamar dos vícios (defeitos) verificados na compra de produtos duráveis.  A contagem dos prazos de garantia inicia-se a partir da expedição do “Habite-se” ou “Auto de Conclusão”. Os prazos de garantia para os diversos sistemas, elementos, componentes e instalações recomendados estão descritos no Anexo D da norma de desempenho (Tabela D.1 – Prazos de garantia). A seguir, transcrevemos os parâmetros de garantia relacionados ao sistema de fachada constantes no citado anexo.

Quadro 2 – Prazos de Garantia

Sistemas, elementos,

Componentes e instalações

Prazos de garantia recomendados
Um ano Dois anos Três anos Cinco anos
Revestimentos de paredes, piso e tetos internos e externos em argamassa/gesso/liso componentes de gesso para drywall Fissuras Estanqueidade

De fachadas e pisos em áreas molhadas

Má aderência do revestimento e dos componentes do sistema
Revestimento de paredes, pisos e tetos em azulejo/cerâmica/pastilhas Revestimentos soltos, gretados, desgaste excessivo
Selantes, componentes de juntas e rejuntamentos Aderência
NOTA   Recomenda-se que quaisquer falhas perceptíveis visualmente, como riscos, lascas, trincas em vidros, etc.; sejam explicitadas no termo de entrega.

Fonte: Tabela D.1 – NBR ABNT 15575 (Adaptado)

Dessa forma, a recuperação das manifestações patológicas que surgirem dentro do prazo de garantia legal, a priori, não serão custeadas pelo proprietário do imóvel, sendo responsabilidade do construtor ou incorporador a regularização dessas ocorrências. Todavia, é oportuno relembrar que é dever do proprietário atender todas as exigências previstas no manual de uso, operação e manutenção elaborado pelo construtor ou incorporador de acordo com a NBR 14037, bem como elaborar programa de manutenção conforme a NBR 5674.

Havendo descumprimento por parte do proprietário, a responsabilidade pela regularização poderá ser revertida. O programa de manutenção consiste na determinação das atividades essenciais de manutenção, sua periodicidade, responsáveis pela execução, documentos diversos, referências normativas e recursos necessários.

As atividades de manutenção devem contemplar todos os sistemas, seus elementos, componentes e equipamentos. A NBR 5674 apresenta um modelo de programa de manutenção que deve ser adaptado às particularidades de cada edificação. As atividades sugeridas para manutenção de sistema de fachadas foram extraídas da Tabela A.1 e encontram-se descritas no Quadro 3.

Quadro 3 – Modelo Para Elaboração de Programa de Manutenção

Tabela A.1 – Exemplos de modelo não restritivos para a elaboração do programa de manutenção preventiva de uma edificação hipotética.
Periodicidade Sistema Elemento/

componente

Atividade Responsável
A cada ano Rejuntamento e vedações Verificar sua integridade e reconstituir os rejuntamentos internos e externos dos pisos, paredes, peitoris, soleiras, ralos, peças sanitárias, etc. Equipe de manutenção local/ Empresa capacitada
Revestimentos de parede, piso e teto Paredes externas/fachadas e muros Verificar a integridade e reconstituir, onde necessário Equipe de manutenção local/ Empresa especializada
Piso acabado, revestimento de paredes e teto Verificar a integridade e reconstituir, onde necessário Equipe de manutenção local/ Empresa especializada
 

A cada três anos

Fachada Efetuar lavagem

Verificar os elementos e, se necessário, solicitar inspeção

Atender às prescrições do relatório ou laudo de inspeção

Equipe de manutenção local/ Empresa capacitada/Empresa especializada

Fonte: Tabela A.1 – NBR ABNT 5674 (Adaptado)

Conforme a Tabela A.1 da NBR 5674, as paredes externas/fachadas devem ser submetidas a procedimentos de verificação de integridade anualmente. Portanto, a inspeção da fachada é procedimento imprescindível para avaliar o nível de depreciação.

O sistema de fachada possui algumas particularidades que o diferenciam de outros sistemas. A constante exposição aos agentes climáticos (sol, vento, chuva, etc.) tanto na fase de execução quanto de utilização pode ocasionar variações volumétricas distintas em seus constituintes. Tais variações podem resultar em tensões nas diversas partes de seus componentes, inclusive na junção entre a placa cerâmica e o revestimento de fixação.

A junção desses fenômenos pode comprometer a aderência da placa cerâmica ao substrato e gerar patologias como o desplacamento. Assim, as técnicas e o cronograma de execução devem considerar tais fatores, minimizando a possibilidade de surgimento de patologias.

O acesso à fachada exige infraestrutura adequada que permita aos profissionais desenvolver as atividades com segurança, além dos cuidados adicionais para evitar a queda de materiais em decorrência da altura. Portanto, infere-se que o revestimento cerâmico de fachada é um sistema com baixo grau de manutenibilidade. Essas questões devem ser criteriosamente analisadas durante a definição da VUP desse sistema.

A inspeção de fachadas de edifícios altos pode se tornar complexa devido à dificuldade de acesso aos últimos pavimentos. O uso de VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado) tem sido eficaz no auxílio de atividades de inspeção. Por meio desse veículo, também foi possível realizar os registros fotográficos com maior proximidade, o que levou a um aumento da visualização dos detalhes e manifestações patológicas nas fachadas pela maior resolução final da imagem. (MELO et al; 2017).

A termografia infravermelha se apresenta como uma ferramenta de elevado potencial a serviço das atividades de inspeção, avaliação e diagnóstico de problemas em revestimentos, em especial nas fachadas de edifícios (FREITAS, CARASEK E CASCUDO, 2013). A despeito dos avanços tecnológicos citados, a técnica de constatação da ocorrência de som cavo ainda é utilizada com muita frequência nas inspeções, sendo considerada imprescindível para as análises e praticamente um pré-requisito para realização do ensaio de arrancamento em revestimento cerâmico.

Dessa forma, a constatação da patologia exige a presença do profissional no local de inspeção. A prática de mercado usualmente adotada é contratar a inspeção quando o revestimento já está com sinais visíveis de desplacamento. De fato, os programas de manutenção em fachadas são direcionados para ações corretivas em detrimento de ações preventivas, o que pode ser uma das causas do elevado custo de recuperação. O teste de percussão é fundamental para avaliar a degradação real das fachadas, assim como é importante a realização de ensaios complementares nas placas cerâmicas, como a absorção de água e a expansão por umidade.

Em seus estudos, Silva, Carvalho e Branco(2003) destacam a necessidade de elaboração de um projeto para execução da fachada no qual esteja detalhada uma série de informações relacionadas com a especificação de materiais e das técnicas executivas, bem como o posicionamento e o dimensionamento das juntas de movimentação e dessolidarização. Asseveram a relevância da necessidade de rigoroso controle sobre a qualidade dos materiais do substrato, argamassa de assentamento, bem como do próprio material utilizado no revestimento.

Galleto e Andrello (2013) constataram que a maior parte das patologias verificadas em revestimentos cerâmicos de fachadas ocorriam no sistema de rejuntamento, todavia, poderiam afetar outras partes do conjunto, gerando novas patologias. Ademais, ratificaram a importância de um apropriado projeto de fachadas, a correta especificação e aplicação dos materiais, em conjunto com manutenções adequadas e periódicas, visando a maior durabilidade das fachadas.

Segundo Junginger (2014) apud Horsth et al (2018), o projeto de revestimento visa produzir detalhes construtivos e especificações técnicas de materiais e métodos construtivos adequados a cada situação. As diversas camadas que compõem o sistema, se fossem de movimentação livre, apresentariam comportamento bastante diferenciado daquele que apresentam quando imersas no sistema, que impõe restrições e leva ao surgimento de esforços internos. Tais esforços tendem a ser tão mais expressivos quanto mais rígidas as camadas e, caso atinjam valores excessivos, podem levar ao surgimento de fissuras, perda de aderência e outros problemas.

Horsth et al (2018) ressaltam a ausência de metodologia e padrões técnicos acerca de procedimentos para execução de fachadas. Em seus estudos, constataram que as técnicas de execução na maioria dos casos são passadas informalmente principalmente em pequenos centros, e que a necessidade de um projeto específico para revestimentos de exteriores, ainda é questionada pelo proprietário da obra. Por fim concluíram que as empresas de seguro estão interessadas nas projeções de vida útil de seus objetos segurados, e um projeto detalhado e exclusivamente pensado para tal finalidade, traz boas garantias de durabilidade.

Pacheco e Vieira(2017) registraram e analisaram as manifestações patológicas nos revestimentos cerâmicos de três imóveis localizados na cidade de Vitória (ES). As patologias encontradas foram relacionadas com suas possíveis causas. Dados extraídos desse estudo permitiram construir a Tabela 2

Tabela 2- Percentual de Causas Prováveis

PATOLOGIAS DIAGNOSTICADAS EM FACHADAS – 3 IMÓVEIS DE VITÓRIA/ES.
CAUSAS PROVÁVEIS OCORRÊNCIAS PERCENTUAL
Falhas de Projeto 23 22,12%
Erros de Execução 31 29,81%
Comportamento Em Uso 9 8,65%
Ações Ambientais 30 28,85%
Falha de Manutenção 11 10,58%
TOTAIS 104 100,00%

Fonte: O autor

A soma das causas pertinentes a falhas de projeto (22,12%) e erros de execução (29,81%) corresponderam a 51,93% das causas prováveis. Essas questões antecedem a ocupação do imóvel e não podem ser atribuídas ao proprietário (uso inadequado ou falta de manutenção). Além disso, as ações ambientais corresponderam a 28,85% das possíveis causas.

Considerando a possibilidade de prever algumas das ações ambientais durante a especificação dos materiais e detalhes construtivos, infere-se que a soma dessas três possíveis causas pode chegar a 80,78% das causas prováveis. Percentual extremamente elevado, considerando que decorrem de planejamento e execução equivocadas.

Ainda que a amostra seja restrita e contemple apenas três edificações, os resultados obtidos sugerem o aprofundamento de estudos mais detalhados e amostragem mais abrangente. O descolamento do revestimento cerâmico para os três edifícios foi o que possuiu mais causas relacionadas e oriundas de todas as etapas.

As evidências ressaltam a necessidade de acompanhamento técnico durante a especificação, execução, uso e manutenção desse tipo de revestimento, principalmente devido aos danos ocasionados com a queda do revestimento. Dessa forma, entende-se inquestionável a necessidade de elaboração de projeto detalhado para execução de fachadas.

Em suma, o revestimento cerâmico de fachadas é uma das partes da edificação que apresenta manifestações patológicas com elevada recorrência, bem como custos elevados para recuperação da fachada. A despeito da existência de normas técnicas que estabelecem parâmetros para elaboração de projeto e execução de revestimento cerâmico, constatou-se que grande parte das patologias identificadas nesses sistemas são decorrentes da ausência de projeto e falhas na execução.

Dessa forma, conclui-se que a exigência de projeto específico elaborado por profissional habilitado deveria ser exigência das prefeituras para compor o projeto arquitetônico. Ademais, os órgãos de fiscalização a exemplo do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia e do Conselho Arquitetura e Urbanismo deveriam fazer essa exigência em suas fiscalizações.

As patologias em revestimentos cerâmicos de fachadas são causadas por inúmeros fatores atuando isoladamente ou em conjunto. Isso dificulta a apresentação de um diagnóstico exato em todas as ocorrências. Nem sempre é possível afirmar com elevado grau de convicção se a origem da patologia é decorrente de imperícia do profissional executante, qualidade dos materiais e condições climáticas.

Portanto, julga-se necessária a implementação de ferramentas de gestão e indicadores objetivos que possam ser aplicados em cada etapa do processo como pré-requisito para a etapa subsequente, registrando a comprovação de que a execução atendeu aos parâmetros técnicos previstos em norma. Por fim, é imprescindível desenvolver uma interface eficiente entre projeto, execução e programas de manutenção visando atingir o prazo de vida útil previsto no projeto da fachada.

Referências

Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 5674 – Manutenção de edificações – Requisitos para o sistema de gestão de manutenção. 2012.

Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 14037 – Diretrizes para elaboração de manuais de uso, operação e manutenção das edificações – Requisitos para elaboração e apresentação dos conteúdos. 2014

Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 15575 – Edificações habitacionais – Desempenho Parte 1: Requisitos gerais. 2013

FREITAS, Juliana Gomes; CARASEK Helena; CASCUDO Oswaldo. Utilização de termografia infravermelha para avaliação de fissuras em fachadas com revestimento de argamassa e pintura. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 14, n. 1, p. 57-73, jan./mar. 2014.

GALLETO, Adriana; ANDRELLO, José Mario. Patologia em fachadas com revestimentos cerâmicos. IX Congresso Internacional Sobre Patologia. Brasil, Paraíba, João Pessoa. 2013.

HORSTH, Alessandra Ambrósio et al. Patologias nos revestimentos cerâmicos em fachada. REV. EDUC. MEIO AMB. SAÚ. 2018 JAN/MAR V8 Nº 1. 2018

JUNGINGER, Max. A Nova NBR 13755. ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA DO AMBIENTE CONSTRUÍDO, v. 15, 2014.

MELO JÚNIOR, Carlos Mariano et al. Geração de mapas de danos de fachadas de edifícios por processamento digital de imagens capturadas por vant e uso de fotogrametria. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 18, n. 3, p. 211-226, jul./set. 2018.

OLIVEIRA, Carla B. et al. Avaliação de desempenho de habitações sociais: patologias internas. VI Simpósio Brasileiro de Gestão da Economia da Construção. 2009.

PACHECO, C. P.; VIEIRA, G. I. Análise quantitativa e qualitativa de degradação das fachadas com revestimento cerâmico. UFES; 2017.

SILVA, A. P.; CARVALHO JÚNIOR, A. N.; BRANCO, LAMN. A concepção de projetos de revestimentos de fachada em empresas de construção civil. Brasil-Belo Horizonte, MG, 2003.

STUCKERT, Thaisa Carneiro; SOBRINHO JÚNIOR, Antonio da Silva. Patologias em habitações de interesse social. Interscientia, Vol. 4, N°2; 2016.

VAZQUEZ, Elaine G.; SANTOS, Victor A. L. dos; Estudo Estatístico de Patologias na pós-entrega de empreendimentos imobiliários. XIII Encontro Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído.2010

Marcelo Pereira de Miranda é engenheiro civil/segurança do trabalho, analista de correios na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos – mpmnew2010@hotmail.com



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