The gates of delirium

A crença num mundo externo independente da percepção subjetiva é a base natural da ciência. No entanto, uma vez que a percepção apenas fornece informações da ‘realidade física’ de maneira indireta, a compreensão desta só nos é possível num sentido especulativo.

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Márcio Barreto

Encontramos em Einstein a crença de que existe um mundo objetivo e independente de qualquer subjetividade, traduzido em leis físicas a partir de uma observação, ou seja, Einstein insiste na diferenciação entre a essência da realidade e a sua aparência: a crença num mundo externo independente da percepção subjetiva é a base natural da ciência. No entanto, uma vez que a percepção apenas fornece informações da ‘realidade física’ de maneira indireta, a compreensão desta só nos é possível num sentido especulativo (1).

Há vários indícios de que, para Einstein, a realidade significa realidade física, determinada pelo intercâmbio constante entre a experiência e a análise. As experiências realizadas em laboratório ou os resultados de observações astronômicas revelam a veracidade de um modelo científico que nos permite traduzir o mundo real; mas estas experiências não são suficientes para nos dar a perceber aquilo que escapa de nossa percepção imediata.

É neste contexto que Einstein percebe a potência da criação de uma verdade científica: seguindo os rastros do filósofo alemão Immanuel Kant, Einstein privilegiará a invenção – que cria o que não existe – sobre a descoberta – pela qual alguém se dá conta de algo que já existia. De uma perspectiva lógico-matemática, o início do século XX é marcado por uma desvinculação entre a noção de verdade e a realidade sensível.

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Assim, emerge a geometria de Riemann, superando em complexidade a geometria euclidiana, tornando a verdade geométrica mais complexa e independente daquilo que percebemos da realidade. A física newtoniana baseia-se nas noções básicas da geometria de Euclides (ponto, reta, plano, cubo, etc.), as quais encontram lastro em nossa percepção do mundo que nos rodeia, mas a geometria riemannana permitirá à física novas possibilidades de tradução do real.

No período entre as duas Grandes Guerras, Einstein foi a Paris para uma série de conferências a convite do Collège de France. Na ocasião, os jornais franceses enfatizaram em suas manchetes que, pela primeira vez, compreendemos que existe algo que não podemos compreender se esperamos deduzir da teoria de Einstein uma concepção realista do espaço e do tempo.

O cientista inglês Arthur Eddington escreveu um livro de divulgação da Relatividade. No prefácio, ele afirma que: o universo real a três dimensões caiu em desuso; deve ser substituído por um espaço tempo quadridimensional com propriedades não euclidianas. Recorremos algumas vezes a imagens que certamente não correspondem a nenhuma realidade física – o tempo imaginário ou uma quinta dimensão que jamais perceberemos. O universo a quatro dimensões não é uma simples imagem; é o universo real do físico, ao qual ele chegou pelo método bem conhecido que a física tem sempre seguido em sua pesquisa sobre a realidade.

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Cartoom de 1929 publicado no The New Yorker. Na legenda: as pessoas lentamente estão se acostumando com a ideia segundo a qual os estados físicos do espaço em si eram a realidade física final. (2)

A relatividade nos remete à formulação matemática que permite sua consistência teórica, mas escapa da identificação do tempo com a imagem da linha reta que se prolonga do passado ao futuro, da tridimensionalidade do espaço e da atração gravitacional newtoniana que varia com o inverso do quadrado da distância; escapa, enfim, da simplicidade com que atribuíamos aos antigos conceitos um lastro na nossa experiência direta com os objetos reais. Como escreveu De Broglie, Einstein nos obriga a abandonar a visão tradicional, desde Newton, da absoluta natureza do espaço e do tempo, estabelecendo entre estes dois elementos do esquema, nos quais nossas percepções estão ordenadas, uma inesperada relação totalmente contrária aos dados imediatos das nossas intuições (3).

As novas ideias transcendiam as fronteiras da física. O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, ao introduzir o conceito de sincronicidade, argumentou que seu significado era irrepresentável tal como a introdução do tempo como quarta dimensão na física moderna (4).

O público em geral parecia perceber que estavam ocorrendo enormes mudanças na compreensão do mundo físico e muitos artistas deixaram-se levar pelo impulso de tentar captar o imperceptível. O cubismo era também uma arte conceitual, uma tentativa de pintar o que não se vê, mas que se sabe que está lá; Marcel Duchamp foi o que tomou com mais entusiasmo o rumo do antiretiniano.

Fora da esfera científica, o fascínio por um universo existente para além da nossa percepção ordinária estendeu-se por todo o século XX, projetando paixões pela transcendência não apenas da percepção, mas também de comportamentos e costumes. Neste sentido, talvez o período mais eloquente deste fascínio tenha sido o final da década de 60, quando vários movimentos vanguardistas buscavam abrir as portas da percepção, como se dizia. As esperanças de captar da realidade aquilo que nos escapa e de que este alargamento no espectro perceptivo nos levaria a construir um mundo melhor foi a tônica dos movimentos culturais dos anos 60.

A conquista da Lua e as primeiras imagens da Terra vista do espaço pareciam reforçar a tendência de que novos pontos de vista mudariam nossa maneira de ver o mundo. Além do cinema, das artes plásticas e do teatro, as canções ancoradas na contracultura dos anos 1960 pareciam apostar na potência da percepção ampliada, inclusive através de alucinógenos.

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O guitarrista, compositor e cantor Jimi Hendrix no palco do festival de Woodstock, em 1969 (5)

Hoje, a utopia parece ter se coagulado na pluralidade de tendências do futuro do humano, do cyborg à engenharia genética, possibilitadas pela centralidade na aceleração da tecnologia da informação no mundo contemporâneo. Mas ainda é comum encontrarmos expressões com inspiração na física relativística e relacionadas à ampliação da percepção, tais como outra dimensão, passagens interdimensionais, sexto sentido, etc.

Hoje, novas capilaridades de difusão da informação nos surpreendem e possibilitam a propagação de falsas notícias que interferem na realidade, a qual parece nos escapar entre os dedos. Embora every news tenha um quê de fake, no sentido em que a linguagem não abarca a totalidade do real, embora o termo fake news tenha, portanto, um quê de pleonasmo, a perversa indistinção entre o falso e o verdadeiro no imaginário contemporâneo tem como questão de fundo a autenticidade da nossa plataforma comum de realidade virtual e o transe coletivo nela engendrado, particularmente no Brasil.

Referências

[1] EINSTEIN, Albert (1979). Comment je vois le monde. Paris, Flammarion. Pág. 60.

[2] Disponível em: history.aip.org (acesso em 02/06/2019)

[3] BROGLIE, Louis de. (1949). A General Survey of the Scientific Work of Albert Einstein.

[4] JUNG, Carl Gustav. (2000). Sincronicidade. Petrópolis, Editora Vozes. Pág. 77-8

[5] Disponível em: google.com (acesso em 02/06/2019):

Márcio Barreto é docente da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp desde 2009. Doutor em Ciências Sociais (IFCH-Unicamp), mestre em Educação (FE-Unicamp) e graduado em Matemática (PUC-Campinas). Pós-Doutorado em Filosofia (Paris-1), com o tema Cinema e Percepção sobre a Ciência. Durante mais de duas décadas, atuou como professor de física no ensino médio e no ensino superior. Autor dos livros Física: Newton para o Ensino Médio (Papirus, 2002), Trama Matemática (Papirus, 2012), entre outros.

Fonte: Jornal da Unicamp



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