Buenos Aires, entre o divã e os jacarandás em flor

Buenos Aires dá o tom de como o argentino está encarando seus desafios cotidianos. Que não são poucos.

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Marcello Rollemberg

Buenos Aires está linda. Neste final de primavera, com os jacarandás em flor margeando avenidas como a enorme e ampla 9 de Julio, o céu sem nuvens, a cidade impressionantemente limpa – para quem a viu não faz nem um ano – e o trânsito nem tão caótico assim, a capital de todos os argentinos parece tentar recuperar o glamour de tempos idos. Parece. Porque, como diz aquela velha frase, “por fora, bela viola, por dentro…”.

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Jacarandás em flor no bairro da Recoleta – Foto: Carla Risso

Olhe mais atentamente: há muita gente nas ruas, mas poucas nas lojas. Os preços estão nas alturas – apenas a alimentação, pasmem, está a valores mais acessíveis –, a relação peso x dólar, a 1 x 60, deixa a economia mais uma vez à beira de um ataque de nervos. Em agosto do ano passado, um dólar comprava 20 pesos argentinos. Em fevereiro deste ano, comprava 40 pesos. Agora, compra 60, quiçá 65. E a conta só faz subir. Bom para o turista? Não necessariamente, porque mesmo com o câmbio favorável até para os brasileiros – 1 real compra entre 13 e 15 pesos –, os preços em geral, como já se disse aqui, não estão nem um pouco convidativos. A não ser que você queira comprar só medialunas e alfajores. Mas descarte os da Abuela Goye, um alfajor, digamos, nutella: custam coisa de quatro vezes mais do que os tradicionais e mais populares. Tem turista que encara o desafio, mas as lojas da abuelita andam mais vazias do que de costume.

Mas o caso aqui não é falar de acepipes portenhos. A questão é a alma e a mente do argentino. Mas dá para dimensionar como está o argentino só a partir de Buenos Aires? Talvez. Não é o caso de levarmos em consideração aquela frase atribuída ao genial – e conservadoríssimo – Jorge Luís Borges, que dava conta que “a Argentina é Buenos Aires. O resto é deserto e índios”. Afinal, do norte mais assemelhado ao Peru e à Bolívia – Jujuy e Salta que o digam –, ao gelado sul patagônico, passando pelas vinícolas de Mendoza, quase ali no Chile, a Argentina é um cadinho cultural e, algumas vezes, étnico. Mas é Buenos Aires sua grande síntese.

O país tem cerca de 45 milhões de habitantes. Só a área metropolitana da capital federal chega a 14 milhões. Ou seja, um terço da população está ali, entre os bares da Boca, o burburinho do microcentro e os limites de Avellaneda. Então, sim, Buenos Aires dá o tom de como o argentino está encarando seus desafios cotidianos. Que não são poucos.

E a recente posse do novo presidente, Alberto Fernandez, não parece trazer muito otimismo. Até porque otimismo não faz, digamos, parte da essência argentina. A depressão, sim. Ninguém cria o tango impunemente. Não é à toa que Buenos Aires é uma das cidades com mais psicanalistas no mundo. Os especialistas fazem parte da Previdência Social e são frequentados por quase metade da população. “Na Argentina, a psicanálise não é apenas uma terapia, é uma ideologia”, disse, há alguns anos, a analista Sara Gola à revista Meridiani.

E nem mudanças políticas, que acenam com possibilidades de mudanças, parecem que vão deixar o divã vazio. Porque poucos por lá acreditam em um câmbio de fato. Nos quatro dias que passei em BsAs (como a cidade é nomeada) em finais de novembro, a apatia com o cenário político local era grande. Quando Maurício Macri assumiu a presidência, havia a proposta de mudança depois de anos da família Kirshner, Néstor e Cristina. Agora, com sua saída – e a volta de Cristina ao poder, desta vez com uma bem tramada vice-presidência –, não parece mais haver motivos para empolgação. Macri fez muito menos do que prometeu, a crise econômica está aí para provar. A única coisa a seu favor é que, nas últimas décadas, foi o único presidente não peronista a concluir um mandato. Pouco, muito pouco.

Já a dupla Fernandez-Cristina também não empolga. “Mais do mesmo. Ela é acusada na Justiça, agora será Macri. Não muda nada e nós continuamos ladeira abaixo”, me disse um taxista para lá de cético.

Talvez as últimas décadas de promessas não cumpridas tenham levado a este estado de espírito. O argentino cansou de ser ludibriado: a artificial paridade do austral (que substituiu o peso por um período) com o dólar e que, quando fez água, foi um tsunami; o corralito, um confisco muito pior do que aquele de Fernando Collor; presidentes renunciando e se alternando no poder em prazo curtíssimo; o kirshnerismo surgindo como derivação do peronismo. E os sem-teto aumentando nas ruas, senhores bem vestidos (com ternos cheirando a naftalina) pedindo dinheiro – “una moneda de su país” –, a economia solapada. Não há panelazo que mude isso. Até porque, como disse uma amiga portenha, até essa forma de protesto perdeu um pouco sua essência. O argentino reclama de tudo, qualquer coisa vai para as ruas. Para quem está de fora, parece participação política, mas não é, necessariamente. É vontade de reclamar, só isso. E de tanto bater panela por qualquer coisa, o protesto acaba perdendo sua força. Algo para se pensar…

Só uma coisa não perde a força entre os portenhos: a fé na tradição e na sua história cultural. O que, no final das contas, acaba servindo de amálgama para o espírito portenho e bálsamo para as mazelas cotidianas.

Gente que ainda fala de Carlos Gardel como se estivesse vivo – Carlito está cantando como nunca –, que vê em Eva Peron uma quase santa – e não são poucos os que se benzem diante de seu mausoléu no cemitério da Recoleta –, que curte a parrilla de final de semana, que ama as livrarias e o futebol e que bebe fernet com coca-cola e mate amargo. E nem os recentes gols de Gabigol pelo Flamengo na final da Libertadores contra o tradicional River Plate são capazes de mudar o quadro. Mas, se for preciso, é só procurar o psicanalista mais próximo, passando por avenidas com jacarandás em flor.

Marcello Rollemberg é editor de cultura do Jornal da USP.

Fonte: Jornal da USP



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