Prever os problemas é a melhor forma de evitá-los

Em uma sociedade empresarial, quando a empresa começa a apresentar bons resultados, surgem alguns fenômenos imprevisíveis.

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Vicente Falconi

Conheço sociedades boas e de longa duração. Os bons exemplos que conheço têm uma característica em comum: um dos sócios tem maioria substancial e o outro já sabe desde o início que é coadjuvante.

Não quero desanimá-los, mas é difícil imaginar uma sociedade exatamente perfeita. Sugiro que contratem, desde o início, antes que o negócio dê certo, um escritório com advogados experientes em empresas e estabeleçam um acordo de cotistas (mesmo que um dos sócios tenha maioria substancial).

Nesse acordo, coloquem todas as regras do jogo e não se esqueçam de incluir uma saída para a sociedade. Ou seja, caso os sócios cheguem a uma situação de discordância total, como ela seria resolvida da forma mais simples possível.

Caso vocês decidam redigir o acordo, vão reparar que começam a surgir dúvidas bem na hora de colocar as intenções no papel para ser assinado na presença de testemunhas e registrado em cartório. Uma coisa é falar, outra é escrever e assinar. Vocês vão reparar que montar um acordo de cotistas – ou de acionistas – é coisa muito mais demorada do que se imagina.

No início, quando se estabelece uma sociedade, tudo são flores e sonhos. Os futuros sócios acham que nunca vão brigar e que um acordo de cotistas é perda de tempo ou que pode ser deixado para mais tarde. Tremendo engano.

Ao longo dos anos, poderão surgir divergências que provavelmente comprometerão o empreendimento. Quando a empresa começa a apresentar bons resultados, surgem alguns fenômenos do comportamento humano.

Algumas pessoas, assim que começam a ganhar dinheiro, ficam deslumbradas e mudam de comportamento. Aparecem usando roupas de grife, desfilando em carrões importados, e os escritórios se tornam verdadeiros palácios.

Começa a reinar a arrogância. Surgem familiares invejosos para dar palpites e trazer a discórdia. Essas coisas fazem com que aquele clima de amizade e confiança estabelecido inicialmente seja comprometido.

Nesse sentido poderá ser uma boa ideia já colocar no acordo de cotistas a impossibilidade de admitir qualquer parente (não se esqueça, porém, de definir o que é parente!) na organização. Caso vocês consigam fazer um bom contrato, sigam em frente, pois a estrada estará pavimentada e já não existem possíveis atoleiros. O resto, para um negócio dar certo, é muita luta e ralação.

Outro problema que pode ser evitado: quais os prós e contras de colocar os filhos dos sócios no negócio? Certa vez, conversando com um empresário muito bem-sucedido a respeito desse tema, ele falou o seguinte: “É tão difícil a gente recrutar e selecionar centenas dos melhores jovens, treiná-los por anos afio, selecioná-los ao longo dos anos em provas no dia a dia e, finalmente, ir afunilando e escolher aquele que será o presidente. Como posso ter a confiança de que qualquer de um de meus filhos poderia ser dispensado dessa prova? Será que meu sangue é realmente tão bom assim?”

Conheço sucessões de pai para filho muito bem-sucedidas, inclusive em empresas de grande porte. Em uma delas, o filho fez um trabalho de certa forma até superior ao que seu pai, já falecido, havia feito. Em outra, o filho se desligou do negócio do pai, montou o próprio negócio, foi bem-sucedido e depois fundiu sua empresa com a do pai e assumiu o comando.

Nesse caso, o filho se provou na prática. Mas nem sempre esse roteiro é possível. Essas situações são raras. O mais comum é ver as empresas se perder numa luta interminável por poder ou, então, o oposto, por total desinteresse dos filhos no negócio.

Também conheço uma história assim. Um dos filhos é um artista reconhecido e não tem o mínimo interesse em tocar o negócio do pai. O outro é esportista e nunca foi à empresa.

A verdade é que cada caso é um caso. No entanto, existe uma regra geral: uma pessoa, qualquer que seja, só deveria assumir uma posição se realmente tivesse um amor genuíno, aquela verdadeira paixão pelo que faz.

Quando você tem essa paixão, tudo fica mais fácil, não existe pesar pelas horas de trabalho, pois tudo o que a pessoa faz é como se fosse lazer. Nesses casos existe um entusiasmo que desperta, naturalmente, o respeito de todos. Os grandes líderes são pessoas apaixonadas pelo que fazem. Qual de seus descendentes demonstra essa paixão?

Vicente Falconi é sócio fundador e presidente do Conselho de Administração da Falconi Consultores de Resultado, e membro da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ).



Categorias:Opinião

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1 resposta

  1. Na maioria das vezes a gente cria a cobra (filhote) com tanto carinho, que lá na frente quando adulta nos morde, e com o seu veneno, “morremos”.

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