Interlúdio sobre o futuro

A visão corriqueira de que o futuro será o presente vitaminado é uma simplificação sem graça e que não se sustenta.

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Peter Schulz

Interlúdio é uma pausa na discussão sobre ciência & universidade para abordar um assunto pautado há mais de um ano e que venho procrastinando, que nada mais é que empurrar para o futuro. A ideia veio de uma dica por whatsapp sobre uma matéria publicada no El Pais: “Há uma inveja equivocada do futuro: astrofísica contra as utopias que nasceram em séries de TV” (I).

A dica (II) me fez lembrar que o futuro foi o fio condutor da disciplina “Língua, Linguagem e Discurso”, quando a ministrei na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp. Futuro é assunto sério.

Começando pela matéria recente, o texto chama a atenção para uma série de postagens pelo Twitter da astrofísica Katie Mack (III) que tem mais de 270 mil seguidores. Ela abre a série com o seguinte texto: “Amigos, precisamos falar sobre o futuro. Não é mais aceitável reclamar sobre não termos mochilas a jato e carros voadores. Séries de TV antigas criaram uma geração de pessoas com uma inveja equivocada de um futuro de ficção científica”.

Até o momento e quem escrevo estas linhas, chegou a mais de 9 mil reações. E ao longo da série, ela tuita que é bom que não existam mochilas e carros voadores, mas que é uma pena não termos teletransporte; por outro lado a imortalidade seria uma má ideia, sem falar no poder da mente. A colonização da Lua e de Marte seria difícil, e por aí foi ou vai ainda.

A matéria no El País, agora sem a responsabilidade da astrofísica americana, conclui dizendo que ao tentar prever o futuro, muito frequentemente extrapolamos a partir do presente. Ou seja, imaginamos o mesmo, só que mais vitaminado. Seguindo e concluindo: é preciso levar em conta que os autores de ficção científica frequentemente estão mais preocupados com o presente do que com o futuro, sobretudo (embora não só) no caso das distopias.

Retomando, o futuro é assunto sério e me deparei com isso por acaso, vasculhando uma livraria da UFRJ em 2009, onde encontrei o livro Futuros imaginários – das máquinas pensantes à aldeia global, de Richard Barbrook e a primeira epígrafe é o título do primeiro capítulo do livro, a segunda é do último. E com este livro podemos entender melhor as mochilas e os carros voadores, apenas dois exemplos pontuais de toda uma visão de futuro cuidadosamente articulada, pelo menos segundo Barbrook.

O início dessa história é a memória afetiva de uma visita do autor à Exposição Universal de Nova Iorque de 1964 (IV) e sua referência à de 1939 (V). O epíteto da de 1939 era o mundo de amanhã e um dos temas principais era o transporte e sua universalização. Futuro que se realizara nos Estados Unidos nas décadas seguintes e presente na época da exposição de 1964, cujo slogan foi Paz através da compreensão (VI).

Como o futuro previsto em 1939 se realizara, nada mais natural que o futuro anunciado em 1964 também se concretizasse em duas décadas. E que futuro seria esse: energia praticamente de graça, viagens espaciais rotineiras e tecnologias de informação e comunicação proporcionando uma vida mais agradável.

Segundo Barbrook, a construção desse futuro alcançável em pouco tempo visava a aceitação pública das tecnologias necessárias para a Guerra Fria: energia nuclear pacífica para tornar as bombas palatáveis, exploração espacial para que fossem aceitos os mísseis, guiados pelos computadores e a comunicação entre eles. Era afinal de contas a época em que o conceito de internet foi criado, conhecida como ARPANET da ARPA, Agência de Projetos de Pesquisa Avançados do Departamento de Defesa, que aliás financiava maciçamente o desenvolvimento de uma Ciência Social da Guerra Fria.

Pois bem, Barbrook, mochilas e carros voadores à parte, chama a atenção para a importância de olharmos detidamente as visões de futuro do passado, caso contrário corremos o risco de ficarmos presos ao futuro do passado, que é a segunda epígrafe acima. E hoje as manchetes continuam a falar do mesmo futuro engendrado durante a Guerra Fria, com algumas mudanças, é verdade: aplicativos de celular em vez de robôs domésticos (que ainda não invadiram nossas casas), energia limpa (ainda bem, embora ainda cara, mas a promessa para o novo futuro é de custo reduzido) e já podemos nos candidatar a viagens espaciais, além de uma idazinha a Marte voltar a ser anunciada.

A visão corriqueira de que o futuro será o presente vitaminado é uma simplificação sem graça e que não se sustenta. Recomendo a leitura de Re-examining the Future: the challenge for citizen education de David Hicks (VII) que analisa a percepção de futuro entre estudantes do ensino médio no começo deste século. Entre as imagens de futuro mais comuns encontradas, o futuro vitaminado é apenas uma delas. Hicks encontrou outras três: fixação tecnológica, eminência do desastre e de uma sociedade sustentável. A motivação da pesquisa é cutucante, Hicks se pergunta: se toda a educação é para o futuro, onde o futuro é tratado na educação?

A ideia de que os autores de ficção científica frequentemente estão mais preocupados com o presente do que com o futuro também deixa a desejar. A ficção científica cria ucronias, ou seja, utopias, mas não localizados em lugares remotos e sim em outro tempo, no caso no futuro.

E esse gênero adotou do seu antecessor a crítica ao lugar (tempo) próximo parodiado no remoto. Vejamos o exemplo de Paris no século XX de Júlio Verne moço, que ficou engavetado por mais de um século, pois o editor achava que era ruim (e é mesmo, mas vale a pena a curiosidade).

Não importa, o protagonista é um jovem poeta, que não encontra lugar em um mundo (século XX) dominado pela técnica. Para ver como os conceitos em torno da ideia de utopia se desenvolveram, recomendo uma exposição virtual (VIII) que começa pela idade do ouro na tradição greco-latina, passa pela Bíblia, país de Cocanha, as utopias, a era das revoluções, chegando até as distopias do século XX: com o peso desse passado continuamos a sonhar com o futuro.

Referências

[I]https://brasil.elpais.com/brasil/2018/07/27/cultura/1532682632_173369.html

[II] Agradeço à Profa. Néri de Barros Almeida por essa dica.

[III] http://www.astrokatie.com/

[IV]https://pt.wikipedia.org/wiki/Feira_Mundial_de_Nova_Iorque_de_1939%E2%80%9340

[V]https://pt.wikipedia.org/wiki/Feira_Mundial_de_Nova_Iorque_de_1939%E2%80%9340

[VI] http://www.nywf64.com/gm05.shtml

[VII] https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/00131910120085838

[VIII] http://expositions.bnf.fr/utopie/enimages/portugais/index.htm

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp durante 20 anos, atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira, é autor de artigos em periódicos especializados em Física e Cienciometria e publicou o livro A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos (Vieira & Lent, 2009).



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