Nunca subestime a estupidez humana

A estupidez humana é uma das forças mais importantes na história, porém com frequência tendemos a desconsiderá-la. Políticos, generais e estudiosos tratam o mundo como se fosse um grande jogo de xadrez, no qual cada movimento deve seguir-se a cuidadosos cálculos racionais.

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Yuval Noah Harari

As últimas décadas têm sido a era mais pacífica na história humana. Enquanto nas antigas sociedades agrícolas a violência humana causou até 15% de todas as mortes, e no século XX provocou 5%, hoje ela é responsável por apenas 1%. Mas, desde a crise financeira de 2008 a situação global está se deteriorando rapidamente, o belicismo voltou à moda e os gastos militares estão disparando.

Tanto leigos quanto especialistas temem que, assim como em 1914 o assassinato de um arquiduque austríaco desencadeou a Primeira Guerra Mundial, nos próximos anos algum incidente no deserto da Síria ou um ato imprudente na península coreana possa provocar um conflito global. Considerando as tensões crescentes no mundo, e a personalidade de líderes em Washington, Pyongyang e vários outros lugares, há motivos para se preocupar.

Porém há várias diferenças cruciais entre os dias atuais e 1914. Em 1914 a guerra teve grande apelo para as elites em todo o mundo porque elas tinham muitos exemplos concretos de como guerras bem-sucedidas haviam contribuído para a prosperidade econômica e o poder político. Em contraste, nos dias atuais guerras bem-sucedidas parecem ser uma espécie em extinção.

Desde a época dos assírios e da dinastia Chin, grandes impérios eram comumente construídos mediante conquistas violentas. Em 1914, todas as grandes potências também deviam seu status a guerras bem-sucedidas. Por exemplo, o Japão Imperial tornou-se uma potência regional devido a suas vitórias sobre a China e a Rússia; a Alemanha ficou sendo dominante na Europa após seus triunfos sobre a Áustria-Hungria e a França; e a Inglaterra criou o maior e o mais próspero império do mundo com uma série de esplêndidas guerras em todo o planeta.

Assim, em 1882 a Inglaterra invadiu e ocupou o Egito, perdendo apenas 57 soldados na decisiva Batalha de Tel el-Kebir. Enquanto em nossos dias a ocupação de um país muçulmano é motivo para pesadelos ocidentais, após Tel el-Kebir os britânicos enfrentaram pouca resistência armada, e por mais de seis décadas controlaram o vale do Nilo e o importante canal de Suez. Outras potências europeias imitaram os britânicos, e sempre que governos em Paris, Roma ou Bruxelas pensaram em fincar suas botas no Vietnã, na Líbia ou no Congo, seu único medo foi que alguém chegasse lá primeiro.

Até mesmo os Estados Unidos devem seu status de grande potência a ações militares, e não apenas à iniciativa econômica. Em 1846 invadiram o México e conquistaram a Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado, Kansas, Wyoming e Oklahoma. O tratado de paz confirmou também a anexação anterior do Texas. Cerca de 13 mil soldados americanos morreram na guerra, que acrescentou 2,3 milhões de quilômetros quadrados aos Estados Unidos (mais do que a soma dos tamanhos de França, Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha e Itália). Foi o negócio do milênio.

Daí que em 1914 as elites em Washington, Londres e Berlim sabiam exatamente o que era uma guerra bem-sucedida, e quanto poderiam ganhar com ela. Em contraste, nos dias atuais as elites globais têm bons motivos para suspeitar que esse tipo de guerra está extinto. Embora alguns ditadores do Terceiro Mundo e atores não estatais ainda tentem prosperar pela guerra, parece que as grandes potências já não sabem como fazer isso. A maior vitória na memória viva — a dos Estados Unidos sobre a União Soviética — foi alcançada sem uma grande confrontação militar. Os Estados Unidos tiveram o gosto fugaz de uma antiquada glória militar na primeira Guerra do Golfo, mas isso os deixou tentados a gastar trilhões de dólares em fiascos militares humilhantes no Iraque e no Afeganistão.

A China, a potência emergente do início do século XXI, tinha evitado todo conflito armado desde o fracasso de sua invasão do Vietnã, em 1979, e deve sua ascensão exclusivamente a fatores econômicos. Com isso, tinha emulado não os impérios japonês, alemão e italiano da era pré-1914 e sim os milagres econômicos japonês, alemão e italiano da era pós-1945.

Em todos esses casos a prosperidade econômica e a influência geopolítica eram alcançadas sem disparar um só tiro. Até mesmo no Oriente Médio — o ringue do mundo — as potências regionais não sabem como empreender guerras bem-sucedidas. O Irã não ganhou nada com a carnificina da guerra Irã-Iraque, e subsequentemente evitou qualquer confronto militar direto.

Os iranianos financiam e armam movimentos locais, do Iraque ao Iêmen, e têm enviado seus Guardas Revolucionários para ajudar aliados na Síria e no Líbano, mas até agora tiveram o cuidado de não invadir nenhum país. O Irã tornou-se recentemente hegemonia regional não por força de qualquer vitória brilhante no campo de batalha, e sim por falta de concorrentes. Seus dois principais inimigos — os Estados Unidos e o Iraque — envolveram-se numa guerra que destruiu tanto o Iraque quanto o apetite americano por atoleiros no Oriente Médio, deixando que o Irã usufruísse os espólios.

O mesmo pode ser dito de Israel. Sua última guerra bem-sucedida foi travada em 1967. Desde então Israel prosperou apesar de suas muitas guerras, não graças a elas. A maior parte de seus territórios ocupados sobrecarrega o país com fardos econômicos e responsabilidades políticas impeditivas.

Assim como o Irã, Israel melhorou ultimamente sua posição geopolítica não por travar guerras bem-sucedidas, e sim evitando aventuras militares. Enquanto a guerra devastava antigos inimigos no Iraque, na Síria e na Líbia, Israel mantinha-se distante dela. Não se deixar envolver na guerra civil na Síria tem sido sem dúvida a maior conquista política de Netanyahu (pelo menos até março de 2018). Se ele quisesse, as Forças de Defesa de Israel (FDI) poderiam tomar Damasco em uma semana, mas o que Israel ganharia com isso?

Seria ainda mais fácil para as FDI conquistar Gaza e derrubar o regime do Hamas, mas Israel rejeitou essa ideia repetidamente. Com todo o seu poder militar e com toda a retórica belicosa de seus políticos, Israel sabe que tem pouco a ganhar com uma guerra. Assim como os Estados Unidos, a China, a Alemanha, o Japão e o Irã, Israel parece entender que no século XXI a estratégia de maior sucesso é ficar em cima do muro e deixar outros brigarem em seu lugar.

A visão do Kremlin

Até agora a única invasão bem-sucedida feita por uma grande potência no século XXI foi a conquista da Crimeia pela Rússia. Em fevereiro de 2014, forças russas invadiram a vizinha Ucrânia e ocuparam a península da Crimeia, que na sequência foi anexada à Rússia. Quase sem combate a Rússia ganhou um território estrategicamente vital, infligiu medo a seus vizinhos e restabeleceu-se como uma potência mundial.

No entanto, essa conquista deveu-se a uma combinação extraordinária de circunstâncias. Nem o Exército ucraniano nem a população local ofereceram muita resistência aos russos, enquanto outras potências evitaram intervir diretamente na crise. É difícil que essas circunstâncias se reproduzam em outra parte do mundo. Se a pré-condição para uma guerra bem-sucedida é a ausência de inimigos dispostos a resistir ao agressor, isso limita seriamente as oportunidades disponíveis.

De fato, quando a Rússia buscou repetir seu sucesso na Crimeia em outras partes da Ucrânia, encontrou uma oposição bem mais vigorosa, e a guerra na Ucrânia oriental acabou atolando num impasse. Pior ainda (do ponto de vista de Moscou), a guerra atiçou sentimentos antirrussos na Ucrânia e transformou o país, antes aliado, em inimigo. Assim como o sucesso na Primeira Guerra do Golfo tentou os Estados Unidos a se envolverem ainda mais no Iraque, o sucesso na Crimeia pode ter tentado os russos a se envolverem ainda mais na Ucrânia.

Tomadas como um todo, as guerras da Rússia no Cáucaso e na Ucrânia no início do século XXI dificilmente podem ser descritas como muito bem-sucedidas. Ainda que tenham aumentado o prestígio da Rússia como uma grande potência, também aumentaram a desconfiança e a animosidade em relação a ela, e em termos econômicos têm sido um empreendimento sem retorno.

As estâncias turísticas na Crimeia e as decrépitas fábricas da era soviética em Lugansk e Donetsk dificilmente compensam o custo de financiar a guerra, e certamente não cobrem os custos da fuga de capital e das sanções internacionais. Para constatar as limitações da política russa, basta comparar o imenso progresso da pacífica China nos últimos 20 anos com a estagnação econômica da vitoriosa Rússia no mesmo período.

Não obstante as bravatas de Moscou, a elite russa provavelmente está bem consciente dos verdadeiros custos e benefícios de suas aventuras militares, razão pela qual tem sido até agora muito cautelosa para que não haja uma escalada. A Rússia tem seguido o princípio do valentão na escola: escolha o garoto mais fraco, mas não bata demais nele, para que o professor não intervenha.

Se Putin tivesse conduzido suas guerras no espírito de Stálin, Pedro, o Grande, ou Gêngis Khan, os tanques russos teriam investido sobre Tbilisi ou Kíev, se não sobre Varsóvia ou Berlim. Mas Putin não é Gêngis nem Stálin. Ele parece saber melhor do que ninguém que seu poder militar não pode ir longe no século XXI, e que travar uma guerra bem-sucedida significa travar uma guerra limitada.

Mesmo na Síria, apesar da brutalidade dos bombardeios aéreos, Putin tem tido o cuidado de minimizar os rastros da presença russa, deixando que outros combatam seriamente, e impedindo que a guerra se estenda a países vizinhos. De fato, do ponto de vista da Rússia, todos os seus movimentos supostamente agressivos nos anos recentes não foram manobras de abertura de uma nova guerra global, e sim uma tentativa de dar suporte a defesas expostas.

Os russos podem alegar que após suas retiradas pacíficas no final de década de 1980 e início da de 1990 eles foram tratados como um inimigo derrotado. Os Estados Unidos e a Otan aproveitaram-se da fraqueza russa e, apesar de terem prometido o contrário, expandiram a Otan para a Europa oriental e até mesmo para antigas repúblicas soviéticas. O Ocidente continuou ignorando os interesses russos no Oriente Médio, invadiu a Sérvia e o Iraque sob pretextos duvidosos e, de modo geral, deixou muito claro para a Rússia que ela só poderia contar com seu próprio poder militar para proteger sua esfera de influência das incursões ocidentais.

A partir dessa perspectiva, a culpa pelos recentes movimentos militares da Rússia pode ser atribuída a Bill Clinton e a George W. Bush tanto quanto a Vladimir Putin. É claro que as ações militares russas na Geórgia, na Ucrânia e na Síria ainda podem se mostrar como o estopim de um ímpeto imperial muito mais audacioso. Mesmo que até agora Putin não tenha abrigado planos sérios para conquistas globais, o sucesso poderia insuflar suas ambições.

No entanto, também seria bom lembrar que a Rússia de Putin é muito mais fraca que a União Soviética de Stálin, e a menos que a ela se juntem outros países, como a China, ela não é capaz de sustentar uma nova Guerra Fria, muito menos uma guerra mundial total. A Rússia tem uma população de 150 milhões de pessoas, e um PIB de 4 trilhões de dólares. Tanto em população quanto em produção fica muito abaixo dos Estados Unidos (325 milhões de pessoas e 19 trilhões de dólares) e da União Europeia (500 milhões de pessoas e 21 trilhões de dólares).

Juntos, Estados Unidos e União Europeia têm uma população cinco vezes maior que a da Rússia e dez vezes mais dólares. Desenvolvimentos tecnológicos recentes tornaram essa diferença ainda maior do que parece. A União Soviética atingiu seu zênite em meados do século XX, quando a indústria pesada era a locomotiva da economia global, e o sistema centralizado soviético se destacava na produção em massa de tratores, caminhões, tanques e mísseis intercontinentais.

Hoje, a tecnologia da informação e a biotecnologia são mais importantes que a indústria pesada, mas a Rússia não se sobressai em nenhuma das duas. Embora tenha capacidade impressionante para a guerra cibernética, ela carece de um setor de TI civil, e sua economia baseia-se esmagadoramente em recursos naturais, em especial petróleo e gás. Isso pode ser muito bom para enriquecer alguns oligarcas e manter Putin no poder, mas não é suficiente para vencer uma corrida bélica digital ou biotecnológica.

Ainda mais importante, a Rússia de Putin carece de uma ideologia universal. Durante a Guerra Fria a União Soviética se apoiava no apelo global do comunismo tanto quanto no alcance global do Exército Vermelho. O putinismo, ao contrário, tem pouco a oferecer aos cubanos, aos vietnamitas ou aos intelectuais franceses. O nacionalismo autoritário realmente pode estar se espalhando pelo mundo, mas por sua própria natureza ele não conduz ao estabelecimento de blocos internacionais coesos.

Enquanto o comunismo polonês e o comunismo russo estavam ambos comprometidos, ao menos em teoria, com interesses universais da classe trabalhadora internacional, o nacionalismo polonês e o nacionalismo russo estão por definição comprometidos com interesses opostos. Se a ascensão de Putin inflama o ressurgimento do nacionalismo polonês, ela também intensifica os sentimentos antirrussos na Polônia.

Por isso a Rússia embarcou numa campanha global de desinformação e subversão que visa a fragmentar a Otan e a União Europeia, mas não parece provável que esteja prestes a embarcar em uma campanha de conquista territorial. Pode-se esperar — com alguma justificativa — que a tomada da Crimeia e as incursões russas na Geórgia e na Ucrânia oriental continuarão a ser exemplos isolados e não os prenúncios de uma nova era de guerra.

A arte perdida de ganhar guerras

Por que é tão difícil para as grandes potências travar guerras bem-sucedidas no século XXI? Um dos motivos é a mudança na natureza da economia. No passado, os ativos econômicos eram na maior parte materiais, e por isso era relativamente simples e imediato enriquecer mediante conquista. Se você derrotasse seus inimigos no campo de batalha, poderia ganhar dinheiro saqueando suas cidades, vendendo seus habitantes no mercado de escravos e ocupando valiosos campos de trigo e minas de ouro.

Os romanos prosperaram vendendo gregos e galeses cativos, e os americanos, no século XIX, ocupando as minas de ouro da Califórnia e as fazendas de gado do Texas. No século XXI, porém, só se podem obter ganhos insignificantes dessa maneira. Hoje em dia os principais ativos econômicos consistem em conhecimento técnico e institucional, e não em campos de trigo, minas de ouro ou até mesmo campos de petróleo, e não se pode conquistar conhecimento por meio da guerra.

Uma organização como o Estado Islâmico ainda pode prosperar saqueando cidades e poços de petróleo no Oriente Médio — eles se apoderaram de mais de 500 milhões de dólares de bancos iraquianos, e em 2015 fizeram mais 500 milhões com a venda de petróleo, mas para uma grande potência como a China ou os Estados Unidos essas quantias são irrisórias. Com um PIB anual de mais de 20 trilhões de dólares, a China provavelmente não vai começar uma guerra por um mísero bilhão.

Quanto a gastar trilhões de dólares numa guerra contra os Estados Unidos, como a China seria capaz de arcar com essas despesas e ainda compensar todos os danos materiais e oportunidades de negócios perdidas? Será que o vitorioso Exército Popular de Libertação saquearia os ricos do Vale do Silício? É verdade que corporações como a Apple, o Facebook e o Google valem centenas de bilhões de dólares, mas não é possível se apropriar dessas fortunas pela força. Não existem minas de silício no Vale do Silício.

Uma guerra bem-sucedida ainda seria capaz, teoricamente, de trazer enormes lucros ao possibilitar ao vencedor rearrumar o sistema comercial global a seu favor, como fez a Inglaterra após a vitória sobre Napoleão, e como fizeram os Estados Unidos após a vitória sobre Hitler. Contudo, mudanças na tecnologia militar fazem com que seja difícil repetir esses feitos no século XXI. A bomba atômica transformou a vitória numa guerra mundial num suicídio coletivo.

Não é coincidência que, depois de Hiroshima, as superpotências nunca lutaram entre si diretamente, e só se engajaram no que (para elas) eram conflitos de baixo risco, nos quais a tentação de usar armas nucleares era pequena. De fato, atacar até mesmo uma potência nuclear de segunda linha como a Coreia do Norte é uma proposta pouquíssimo atraente. É assustador pensar o que a família Kim faria se estivesse diante de uma derrota militar.

A guerra cibernética torna as coisas ainda piores para pretensos imperialistas. Nos bons e velhos tempos da rainha Vitória e da Maxim, a primeira metralhadora automática, o Exército britânico era capaz de massacrar nativos em algum deserto distante sem pôr em perigo a paz de Manchester e de Birmingham. Até mesmo nos dias de George W. Bush, os Estados Unidos faziam estragos em Bagdá e em Faluja, enquanto os iraquianos não tinham como retaliar em San Francisco ou Chicago. Mas, se os Estados Unidos atacassem agora um país que possua capacidade para guerra cibernética, mesmo que moderada, a guerra poderia ser levada à Califórnia e a Illinois em minutos.

Softwares contendo vírus e códigos maliciosos podem causar a parada do tráfego aéreo em Dallas, fazer trens colidirem na Filadélfia e interromper o fornecimento de eletricidade em Michigan. Na grande era dos conquistadores, a guerra era um negócio de baixos danos e altamente lucrativo. Na Batalha de Hastings, em 1066, Guilherme, o Conquistador, ganhou toda a Inglaterra em um único dia, ao custo de poucos milhares de mortos. Armas nucleares e guerra cibernética, em contraste, são tecnologias altamente danosas e de baixa lucratividade. Podem-se usar essas ferramentas para destruir países inteiros, mas não para construir impérios lucrativos.

Assim, num mundo cada vez mais cheio de ameaças militares e mal-estar, talvez nossa melhor garantia de paz seja o fato de as grandes potências não estarem familiarizadas com exemplos recentes de guerras bem-sucedidas. Enquanto Gêngis Khan ou Júlio César invadiriam um país estrangeiro sem hesitar, os líderes nacionalistas da atualidade, como Erdoğan, Modi e Netanyahu, engrossam a voz, mas são muito cautelosos quanto a realmente encetar guerras. É claro que, se alguém descobrir uma fórmula para empreender guerras bem-sucedidas nas condições do século XXI, as portas do inferno se abrirão num instante. É isso que faz o sucesso russo na Crimeia ser um presságio particularmente assustador. Esperemos que continue a ser uma exceção.

A marcha da insensatez

Lamentavelmente, mesmo que guerras bem-sucedidas sejam impossíveis no século XXI, isso não nos dá uma garantia absoluta de paz. Não devemos jamais subestimar a estupidez humana. Tanto no nível pessoal quanto no coletivo, os humanos são propensos a se engajar em atividades autodestrutivas.

Em 1939 a guerra era provavelmente uma medida contraproducente para as potências do Eixo — mas isso não salvou o mundo. Uma das coisas espantosas no que concerne à Segunda Guerra Mundial é que em seguida à guerra as potências derrotadas prosperaram como nunca. 20 anos após o completo aniquilamento de seus exércitos e o colapso total de seus impérios, alemães, italianos e japoneses usufruíam de níveis de afluência sem precedentes.

Por que, então, partiram para a guerra? Por que infligiram morte e destruição desnecessárias a incontáveis milhões de pessoas? Tudo foi apenas um estúpido erro de cálculo. Na década de 1930 os generais, almirantes, economistas e jornalistas japoneses concordaram que sem o controle da Coreia, da Manchúria e da costa chinesa o Japão estava condenado à estagnação. Estavam todos errados. Na verdade, o famoso milagre econômico japonês só começou após o Japão perder todas as suas conquistas no continente.

A estupidez humana é uma das forças mais importantes na história, porém com frequência tendemos a desconsiderá-la. Políticos, generais e estudiosos tratam o mundo como se fosse um grande jogo de xadrez, no qual cada movimento deve seguir-se a cuidadosos cálculos racionais. Isso é correto até certo ponto. Poucos líderes na história foram desvairados no sentido estreito da palavra, movendo peões e cavalos aleatoriamente. O general Tojo, Saddam Hussein e Kim Jong-il tiveram motivos racionais para cada movimento que fizeram. O problema é que o mundo é muito mais complicado que um tabuleiro de xadrez, e a racionalidade humana não está à altura da tarefa de realmente compreender esse fato.

Por isso até mesmo líderes racionais muitas vezes acabam fazendo coisas muito estúpidas. Sendo assim, até onde deveríamos temer uma guerra mundial? O melhor é evitar os dois extremos. Por um lado, a guerra não é, de fato, inevitável. O término pacífico da Guerra Fria provou que quando humanos tomam a decisão certa, até mesmo conflitos entre superpotências podem ser resolvidos pacificamente.

Além disso, é perigosíssimo supor que uma nova guerra mundial é inevitável. Isso seria uma profecia que se autorrealizaria. Ao supor que a guerra é inevitável, os países reforçam seus exércitos, embarcam em vertiginosas corridas armamentistas, recusam fazer acordos e concessões em qualquer conflito e suspeitam que gestos de boa vontade são na verdade armadilhas. Isso garante que acabe irrompendo uma guerra.

Por outro lado, seria ingênuo supor que a guerra é impossível. Apesar de ser catastrófica para todos, nenhum deus e nenhuma lei da natureza nos protegem da estupidez humana. Um remédio potencial para a estupidez é uma dose de humildade. Tensões nacionais, religiosas e culturais são agravadas pelo sentimento grandioso de que minha nação, minha religião e minha cultura são as mais importantes no mundo — por isso meus interesses vêm antes dos interesses de qualquer outra pessoa, ou da humanidade como um todo. O que poderemos fazer para que nações, religiões e culturas sejam um pouco mais realistas e modestas quanto a seu verdadeiro lugar no mundo?

(Capítulo do livro 21 lições para o século 21)

Yuval Noah Harari é professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e é autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã – https://www.ynharari.com/contact/



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