Deus

Não tomarás o nome de Deus em vão.

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Yuval Noah Harari

Deus existe? Isso depende de que Deus se tem em mente. O mistério cósmico ou o legislador do mundo? Às vezes, quando as pessoas falam de Deus, elas estão falando de um enigma espantoso, sobre o qual não sabemos absolutamente nada.

Invocamos esse Deus misterioso para explicar as mais profundas charadas do cosmos. Por que existe algo, em vez de nada? O que moldou as leis fundamentais da física? O que é a consciência, e de onde ela vem? Não temos resposta para essas perguntas, e damos à nossa ignorância o grandioso nome de Deus.

E sua característica mais fundamental é que não somos capazes de dizer algo concreto sobre Ele. Esse é o Deus dos filósofos; o Deus que mencionamos quando estamos sentados em torno de uma fogueira tarde da noite tentando compreender o sentido da vida.

Em outras ocasiões as pessoas veem Deus como um legislador inflexível mundano, sobre quem sabemos até demais. Sabemos exatamente o que Ele pensa sobre moda, alimento, sexo e política, e invocamos esse Homem Bravo no Céu para justificar uma infinidade de regulamentos, decretos e conflitos.

Ele fica aborrecido quando mulheres usam blusas de mangas curtas, quando dois homens fazem sexo um com o outro ou quando adolescentes se masturbam. Algumas pessoas dizem que Ele não gosta que bebamos álcool, nunca, enquanto segundo outras Ele exige que tomemos vinho toda noite de sexta-feira ou toda manhã de domingo. Bibliotecas inteiras têm sido escritas para explicar com os mais minuciosos detalhes o que Ele quer e o que Ele abomina.

A característica mais fundamental desse legislador mundano é que somos capazes de dizer coisas extremamente concretas sobre Ele. Esse é o Deus dos cruzados e dos jihadistas, dos inquisidores, dos misóginos e dos homofóbicos. Esse é o Deus que mencionamos quando estamos em volta de uma pira ardente, atirando pedras e xingamentos nos hereges postos ali para queimar.

Quando se pergunta a crentes se Deus realmente existe, eles muitas vezes começam a falar dos mistérios enigmáticos do universo e dos limites da compreensão humana. A ciência não é capaz de explicar o Big Bang, exclamam, portanto isso deve ser obra de Deus. E, como um mágico que engana o público substituindo uma carta por outra, o crente rapidamente substitui o mistério cósmico por um legislador mundano. Após ter dado o nome de Deus aos segredos desconhecidos do cosmos, eles o usam para de algum modo condenar biquínis e divórcios.

Nós não compreendemos o Big Bang — portanto você tem de cobrir os cabelos em público e votar contra o casamento gay. Não só não existe conexão lógica entre as duas coisas como na verdade elas são contraditórias. Quanto mais profundos são os mistérios do universo, menos provável é que o que quer que seja responsável por eles dê qualquer importância aos códigos de vestimenta feminina ou ao comportamento sexual humano.

O elo que falta entre o mistério cósmico e o legislador mundano geralmente é fornecido por algum livro sagrado. O livro está cheio dos mais triviais regulamentos, mas assim mesmo é atribuído ao mistério cósmico. O criador do espaço e do tempo foi supostamente quem o compôs, mas se deu o trabalho de esclarecer sobretudo quanto a alguns rituais obscuros e tabus alimentares.

Na verdade, não temos nenhuma evidência de que a Bíblia, ou o Corão, ou o Livro dos Mórmons ou os Vedas ou qualquer outro livro sagrado foram compostos pela força que determinou que energia é igual a massa multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado, e que prótons têm 1837 vezes mais massa que elétrons. Até onde vai nosso conhecimento científico, todos esses textos sagrados foram escritos por imaginativos Homo sapiens.

São apenas histórias inventadas por nossos antepassados para legitimar normas sociais e estruturas políticas. Eu nunca deixei de me perguntar sobre o mistério da existência. Mas nunca compreendi o que isso tem a ver com as minuciosas leis do judaísmo, cristianismo ou hinduísmo. Essas leis decerto foram muito úteis no estabelecimento e na preservação da ordem social durante milhares de anos.

Porém não são, nisso, fundamentalmente diferentes das leis de Estados e instituições seculares. O terceiro dos Dez Mandamentos bíblicos instrui os humanos a nunca fazer uso indevido do nome de Deus. Muitos entendem isso como uma proibição de pronunciar o nome explícito de Deus (como na famosa cena do Monty Python: se você disser Iahweh…), mas talvez o sentido mais profundo desse mandamento seja que nunca devemos usar o nome de Deus para justificar nossos interesses políticos, nossas ambições econômicas ou nossos ódios pessoais.

Quando uma pessoa odeia alguém, diz: Deus odeia ele; quando cobiça um pedaço de terra: Deus quer isso. O mundo seria um lugar melhor se cumpríssemos o terceiro mandamento com mais devoção. Você quer travar uma guerra com seus vizinhos e roubar suas terras? Deixe Deus fora disso, e arranje outra desculpa.

No fundo, é uma questão de semântica. Quando uso a palavra Deus penso no Deus do Estado Islâmico, das Cruzadas, da Inquisição e nas faixas Deus odeia bichas. Quando penso no mistério da existência, prefiro usar outras palavras, para evitar confusão. E diferentemente do Deus do Estado Islâmico e das Cruzadas — que se importa muito com nomes e acima de tudo com Seu santíssimo nome — o mistério da existência não dá a mínima para os nomes que nós, macacos, lhe damos.

Ética sem Deus

É claro que o mistério cósmico não nos ajuda em nada na preservação da ordem social. As pessoas muitas vezes alegam que temos de acreditar num deus que dê aos humanos algumas leis muito concretas, se não a moralidade vai desaparecer e a sociedade desmoronar num caos primevo. Certamente é verdade que a crença em deuses foi vital para várias ordens sociais, e que às vezes teve consequências positivas.

De fato, a mesma religião que inspira ódio e intolerância em algumas pessoas inspira amor e compaixão em outras. Por exemplo, no início da década de 1960 o reverendo metodista Ted McIlvenna tomou consciência da difícil situação da população LGBT em sua comunidade. Começou a investigar a situação de gays e lésbicas na sociedade em geral e, em maio de 1964, convocou um pioneiro diálogo de três dias entre clérigos e ativistas no White Memorial Retreat Center, na Califórnia.

Os participantes subsequentemente estabeleceram o Conselho sobre Religião e o Homossexual que, além dos ativistas, incluía ministros metodistas, episcopais, luteranos e da Igreja Unida de Cristo. Foi a primeira organização americana que ousou empregar a palavra homossexual em seu título oficial. Nos anos seguintes, as atividades da instituição iam desde organizar festas a fantasia até entrar com ações legais contra discriminação e perseguição injustas.

Ela se tornou a semente dos movimentos pelos direitos dos gays na Califórnia. O reverendo McIlvenna e outros homens de Deus que se juntaram a ele estavam bem conscientes das injunções bíblicas contra a homossexualidade. Mas pensaram que era mais importante ser fiel ao espírito misericordioso de Cristo do que à palavra estrita da Bíblia.

Embora deuses possam nos inspirar a agir com compaixão, a fé religiosa não é condição necessária para o comportamento moral. A ideia de que precisamos de um ser sobrenatural que nos faça agir moralmente pressupõe que existe algo sobrenatural na moralidade. Mas por quê? A moralidade, de qualquer tipo, é natural. Todos os mamíferos sociais, de chimpanzés a ratos, têm códigos éticos que limitam coisas como roubo e assassinato.

Entre humanos, a moralidade está presente em todas as sociedades, apesar de nem todas acreditarem no mesmo deus, ou em qualquer deus. Os cristãos agem com caridade mesmo sem acreditar no panteão hindu. Os muçulmanos dão valor à honestidade apesar de rejeitar a divindade de Cristo, e países seculares como a Dinamarca e a República Tcheca não são mais violentas do que países devotos como o Irã e o Paquistão.

Moralidade não quer dizer cumprir os mandamentos divinos. Quer dizer diminuir o sofrimento. Daí que, para agir moralmente, não é preciso acreditar em nenhum mito ou narrativa. Só é necessário desenvolver uma profunda noção do que é sofrimento. Se você souber que uma ação causa um sofrimento desnecessário a você e a outros, você naturalmente se absterá de empreendê-la. Assim mesmo, pessoas assassinam, estupram e roubam porque só têm uma noção superficial da infelicidade que isso causa. Estão obcecadas em satisfazer sua paixão ou ganância imediatas, sem se preocupar com o impacto sobre os outros — ou mesmo o impacto sobre elas mesmas a longo prazo.

Até mesmo inquisidores, que deliberadamente infligem o máximo de sofrimento possível em sua vítima, usam técnicas variadas de dessensibilização e desumanização para se distanciarem daquilo que estão fazendo. Poder-se-ia objetar que todo humano naturalmente busca evitar sentir-se um miserável, mas por que deveria um humano importar-se com a miséria dos outros, a menos que algum deus exija isso?

Uma resposta óbvia é que os humanos são animais sociais, e daí que sua felicidade depende em grande medida de seus relacionamentos com outros. Sem amor, amizade e comunidade, quem poderia ser feliz? Se você vive uma vida solitária e centrada em você mesmo, é quase certo que se sentirá um miserável. Assim, no mínimo, para ser feliz você precisa se importar com sua família, seus amigos e os membros de sua comunidade.

E quanto, então, a quem é totalmente estranho? Por que não os assassinar e tomar suas posses para enriquecer a mim e a minha tribo? Muitos pensadores construíram complexas teorias sociais, explicando por que no longo prazo esse comportamento é contraproducente. Você não gostaria de viver numa sociedade onde estranhos são rotineiramente roubados e assassinados. Não só porque você estaria em perigo como porque perderia o benefício de coisas como comércio, que depende de haver confiança entre estranhos.

Os comerciantes normalmente não frequentam antros de ladrões. É por isso que teóricos seculares da antiga China à moderna Europa têm justificado a regra de ouro que diz não faça aos outros o que não quer que façam a você. Mas na verdade não precisamos dessas teorias todas para encontrar um fundamento natural para a compaixão. Esqueça o comércio por um momento.

Num nível muito mais imediato, ferir os outros fere a mim também. Todo ato violento no mundo começa com um desejo violento de alguém, o que perturba a paz e a felicidade da própria pessoa antes de perturbar a paz e a felicidade de qualquer outra. Assim, raramente alguém rouba a menos que tenha primeiro desenvolvido muita ganância e inveja. Pessoas normalmente não assassinam, a menos que primeiro tenham alimentado raiva e ódio.

Emoções como ganância, inveja, raiva e ódio são muito desagradáveis. Não se pode ter alegria e harmonia quando se está espumando de raiva ou inveja. Daí que antes que você assassine alguém, sua raiva já matou sua própria paz de espírito. Na verdade, você pode ficar espumando de raiva durante anos, sem nunca assassinar o objeto de seu ódio. Nesse caso você não terá ferido nenhuma outra pessoa, mas terá ferido a si mesmo.

Portanto, o seu próprio interesse — e não a ordem de algum deus — é que deveria induzir você a fazer alguma coisa quanto a sua raiva. Se você se livrar totalmente dela, vai se sentir muito melhor do que se assassinar um inimigo. Para algumas pessoas, uma forte crença num deus misericordioso que nos manda oferecer a outra face pode ajudar a dominar a raiva. Essa tem sido uma enorme contribuição da crença religiosa à paz e à harmonia do mundo.

Infelizmente, para outras pessoas a crença religiosa na verdade incita e justifica sua raiva, em especial se alguém ousa insultar seu deus ou ignorar suas vontades. Assim, o valor do deus legislador depende em última análise do comportamento de seus devotos. Se agirem bem, podem acreditar em tudo o que queiram. Da mesma forma, o valor dos ritos religiosos e dos lugares sagrados depende do tipo de sentimentos e comportamentos que eles inspiram.

Se frequentar um templo faz a pessoa experimentar paz e harmonia, isso é maravilhoso. Mas, se um determinado templo causa violência e conflitos, para que precisamos dele? É claramente um templo disfuncional. Assim como não faz sentido tentar salvar uma árvore doente que produz espinhos em vez de frutos, tampouco faz sentido lutar por um templo defeituoso que produz inimizade e não harmonia.

Não frequentar templos e não acreditar em nenhum deus também é uma opção viável. Como provaram os séculos recentes, não precisamos invocar o nome de Deus para viver uma vida de moralidade. O secularismo pode nos prover de todos os valores dos quais precisamos.

Yuval Noah Harari é professor na Universidade Hebraica de Jerusalém e é autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade e Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã – https://www.ynharari.com/contact/



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