Mudar o mundo, mudar as coisas: sobre caos e angústias

Há uma série de demandas que sugerem que todas as decisões, seja na questão ambiental, seja nos impasses da política tradicional ou nas escolhas em torno do ensino, estão defasadas em relação às reais necessidades que temos.

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José Alves de Freitas Neto

Os sentidos de urgência e transformação são um dos sintomas mais visíveis dos incômodos que experimentamos na atualidade. Paira no ar uma espécie de dever moral de encontrar respostas e que se impõe às pessoas, independentemente de sua idade, cultura ou grupo social.  O quadro de crise se amplifica pois parece que não temos respostas mínimas ou, quando as temos, parecem ser impraticáveis ou sem o respaldo das demais pessoas.

Há uma série de demandas que sugerem que todas as decisões, seja na questão ambiental, seja nos impasses da política tradicional ou nas escolhas em torno do ensino, estão defasadas em relação às reais necessidades que temos. Se este descompasso não fosse suficiente, há também a sensação de irreversibilidade nas escolhas que devem ser feitas. A defasagem e o caráter irreversível remetem à anulação da condição histórica das pessoas e das supostas escolhas que, na cultura ocidental, povoam os imaginários em torno de uma pretensa autonomia de sujeitos ou grupos sociais.

A combinação entre o dever de mudar e a impotência das respostas às questões nos conduz à percepção de estarmos dominados pelo caos. O caos, com frequência, é apresentado de forma positiva, pois tal como nas teogonias antigas, ele precederia a existência de um mundo ordenado.  Nas primeiras décadas do século XXI, entretanto, podemos traduzi-lo como uma estafa interpretativa diante de um mundo que parece não ser construído ou constituído por nós. Não há respostas que indiquem a existência de forças que possam aglutinar soluções diante de tantos impasses. As grandes chaves explicativas parecem reduzidas diante de um mundo que se agigantou: o estado, as classes sociais, as utopias, as políticas, as culturas, por exemplo, continuam a ser importantes, mas sem a mesma significação e aglutinação de outrora.

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A obra de Goya (1746-1828), “Saturno devorando a um filho” (1820-1823) remete a questões como mortalidade, sofrimento e finitude Na mitologia romana, Saturno era o deus grego do tempo, Cronos. Temendo a profecia de que um de seus filhos o destruiria, Cronos decide comer os seus filhos.   A narrativa se desenvolve com a titanomaquia, a guerra travada por Zeus e seus irmãos contra Cronos e outros titãs | Imagem: museodelprado.es

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se a confiança

Camões registrou, com maestria, a transformação impulsionada pela modernidade. Séculos depois, experimentamos a descentralização de categorias universalizantes e a pulverização de vozes, sujeitos e experiências. A dificuldade para encontrar as respostas que buscamos não está relacionada a uma interdição reflexiva ou criativa, mas a uma brusca alteração e aceleração de eventos. O conservadorismo, que nunca deixou de existir, está fortalecido, na atualidade, por ser a resposta conhecida à insegurança diante do futuro.

A reconfiguração das vidas cotidianas, mediada pelas tecnologias, produziu uma sensação de autonomia que, paradoxalmente, pode anular a condição de sujeitos. Quando cada pessoa estabelece o que quer ver, quer acreditar e constrói uma lógica e mundos próprios, o resultado é o esvaziamento e a insignificância deste mundo. A hesitação e o medo passam a ser companheiros que, para disfarçar as inseguranças, transmutam-se em discursos inflamados, virulentos e inoperantes. A confiança, nesse caso, é apenas aparente. Quando em um mundo não cabem outras visões e expectativas é sinal de reducionismo e simplificação que apaga diferenças e torna inviável a construção de alternativas, como demonstram os fundamentalismos de diferentes ordens.

O apelo por mudanças não significa, como a modernidade projetou, um caminho progressivo, nem linear. A rejeição às condições concretas e objetivas do mundo atual convive, com tranquilidade, com noções como resgate e retorno. Reviver o tempo passado, como sabemos, não é possível. Mas a nostalgia pode ser a conselheira dos que, ignorando ou temendo o futuro, só conhecem o que já foi experimentado e, sem ousadia e imaginação, recorrem ao peso das tradições.

Devemos mudar?

Mesmo com a incerteza dos rumos a serem seguidos, as mudanças nos rondam e acontecem. Mudanças não equivalem a uma aposta no futuro, nem precisam ser vistas como irremediáveis. Evidentemente, há questões mais urgentes que outras, mas encarar todas elas como sendo um exercício contínuo e repetitivo não leva a lugar algum. Sem saber porque, nem para onde, as mudanças significam apenas um acúmulo de incertezas estressantes.

Porém, as mudanças ocorrem mesmo em um ambiente de calmaria. A contradição entre permanência e mudança está na gênese do pensamento filosófico. Há coisas que cobramos e esperamos que sejam permanentes e há outras que são incontroláveis, pois sabemos, ecoando Heráclito, que não entramos duas vezes no mesmo rio.

Resistir às mudanças é inócuo, pois muda-se, inclusive, por conta de nosso olhar. Muito tempo na mesma situação gera alguma forma de acomodamento que por esgotamento pode produzir novas rupturas. Mas, jogar-se num ciclo de rupturas incessantes pode ser inútil.

A educação, a política, a economia e as diversas configurações sociais e culturais podem se beneficiar de qualquer movimento que signifique transformação. As mudanças significam a articulação de forças e interesses contraditórios entre o que se busca alcançar e o que permanece. Os historiadores gostam de narrar rupturas, mas as mudanças geralmente são mais lentas do que os registros das narrativas em torno de processos históricos e sociais.

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O sentido de urgência na tomada de decisões pode ser imobilizador e anular a condição de sujeitos | Imagem: br.kantar.com

Mesmo em tempos acelerados há um tempo necessário para que novas configurações e contextos emerjam. Os aparatos políticos, tecnológicos, comportamentais, econômicos e morais interferem nas reelaborações que, sistematicamente, as pessoas parecem querer ignorar ao jogarem sobre si e suas atividades o peso – com as angústias e as glórias potenciais – de liderar um processo de mudança, sobretudo em relação ao desconhecido.

Ter um tempo para decantar e assimilar decisões é fundamental para não agirmos como Cronos que, de forma desesperada e inócua, tomou decisões que não lhe asseguraram o poder que imaginava preservar em seu ato de destruir os próprios filhos

José Alves de Freitas Neto é professor livre-docente do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e coordenador executivo da Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest). Autor de “Bartolomé de Las Casas: a memória trágica, o amor cristão e a memória americana” (Annablume) e coautor de “A Escrita da Memória” (ICBS) e “História Geral e do Brasil” (Harbra). É autor de diversos artigos e capítulos sobre cultura e política na América Latina (séculos XIX e XX).

Publicado originalmente no Jornal da Unicamp



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