A saúde do trabalhador é realmente a prioridade?

Dezenas de empresas do setor de cimento aceitaram reduzir o peso do saco do material de 50kg para 25kg, afirmando defender a saúde do trabalhador no setor. É este mesmo o interesse do empresariado?

cimento

Guilherme Papa –

Após vários séculos de luta, os direitos do trabalhador foram ganhando forma e finalmente devidamente instaurados. A norma internacional ISO 45001, por exemplo, lançada em 2018, aborda questões de segurança e saúde dentro dos ambientes de trabalho. Jornadas de 14 horas diárias são ilegais em boa parte do planeta, assim como condições precárias de trabalho, trabalho infantil, falta de recesso e afins. Entretanto, mesmo com todo um protocolo da área tendo o respaldo da lei, muitas pessoas ao redor do globo ainda vivem realidades análogas à escravidão.

Falar sobre condições insalubres de trabalho pode trazer a muitos a lembrança do clássico filme Tempos Modernos, de 1936, protagonizado por Charles Chaplin. O ator interpretou um operário norte-americano na década de 30, que vivia longas jornadas de trabalho em uma grande indústria fazendo sempre a mesma função de apertar parafusos. O filme critica o ambiente de trabalho danoso à saúde, os maus tratos que os proletários sofriam e a mecanização das tarefas impostas, que causaram a milhões uma série de problemas físicos devido aos movimentos repetitivos.

Em junho deste ano, após quatro anos de negociação, 33 empresas produtoras de cimento assinaram um acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT), acatando a redução de 50kg para 25kg o peso da embalagem de cimento até o final de 2028. A partir dessa data, as embalagens mais pesadas poderão ser utilizadas somente para exportação.

A Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), aprovada em 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas, define no artigo 198 que “é de 60 kg (sessenta quilogramas) o peso máximo que um empregado pode remover individualmente, ressalvadas as disposições especiais relativas ao trabalho do menor e da mulher”. Porém, esta quantia está longe de ser aplicada devido as décadas de diferença entre a primeira versão da CLT e o cenário atual da sociedade.

Em dezembro de 1948 veio a Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela ONU. Entre outras garantias básicas, o documento aborda questões trabalhistas nos artigos 23.3 e 24, estabelecendo que “todo ser humano que trabalha tem direito a uma remuneração justa e satisfatória que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social” e “todo ser humano tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e a férias remuneradas periódicas”, respectivamente.

Evidente que a tecnologia também “dividiu” o trabalho com os humanos, carregando consigo quantias que necessitariam a força de muitas pessoas para move-las. Contudo, algumas atividades ainda dependem do trabalho manual. O cenário do cimento é este, que exige do trabalhador carregar e descarregar caminhões com sacos, levá-los pela obra, etc..

O esforço ergométrico de manusear manualmente 50kg é imenso, ainda mais se levar em conta que, neste caso específico, o trabalhador precisar abaixar-se, levantar-se e se locomover de forma geral com a carga. A coluna e as pernas são as principais partes do corpo afetadas pelo esforço, somando-se a isso o fato de o trabalhador muitas vezes não ter a devida orientação de um movimento que possa amenizar os danos à saúde. O dano causado em articulações, juntas e ligamentos é alto, podendo resultar em afastamentos por longos períodos de tempo ou até mesmo aposentadorias precoces, classificadas como por invalidez.

A maior bandeira hasteada quanto à medida de diminuir o peso do saco de cimento foi a de melhorar a saúde dos trabalhadores da área, estes que há décadas que sofrem recorrentes lombalgias, hérnias discais, lesões em articulações do joelho e cotovelo e outras patologias osteomusculares. Entretanto, fica fácil perceber a verdadeira causa da redução quando se observa dados previdenciários.

O procurador-geral do MPT, Ronaldo Fleury, afirmou que “nos últimos seis anos, o gasto da Previdência Social, somente com afastamentos de trabalhadores por motivo de acidentes de trabalho, foi de mais de R$ 28 bilhões”. Fleury também fez questão de frisar que “as empresas também perdem com o absenteísmo de seus empregados”.

Para o fisioterapeuta ergonomista Geison Tompsen Monteiro, a medida vai trazer certos benefícios ao trabalhador, porém existem outros lados a serem observados. “Falando em termos específicos de biomecânica, sem dúvida existe uma melhora para o trabalhador. Entretanto, não só o peso individual afeta a saúde do proletário, mas sim a frequência, o tempo e a quantidade que levantou. Este caso engloba uma série de fatores”.

Monteiro também ressalta que, ao reduzir a quantidade do saco de cimento, o trabalho total terá de ser feito de forma mais rápida dentro de uma jornada diária, fato que não é saudável ao proletário. “Vamos supor que o trabalhador tem uma demanda de uma tonelada por jornada de trabalho. Se ele gasta o dia inteiro para fazer uma tonelada com 50kg de cimento em cada saco, ele vai precisar do dobro do tempo para carregar a mesma quantidade com um saco de 25kg. Ele vai precisar acelerar este ciclo de trabalho, o que pode causar lesões na estrutura óssea da coluna, por exemplo”, explicou.



Categorias:Editorial, Opinião

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