Alimentação no início da vida: janela para o futuro

As gestantes e crianças menores de dois anos de idade estão entre os grupos populacionais de maior risco para deficiência de micronutrientes, que afeta também o desenvolvimento neurológico.

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Marly A. Cardoso

Os primeiros 1.000 dias de vida compreendem o intervalo entre a concepção de um bebê até os dois primeiros anos de vida (270 dias da gestação + 365 dias do primeiro ano de vida + 365 dias do segundo ano de vida). Análises das curvas de crescimento da Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmam a importância dos dois primeiros anos de vida como uma “janela de oportunidades” para promoção da saúde e do capital humano de uma população.

Embora mecanismos subjacentes não sejam ainda totalmente esclarecidos, especula-se que exposições adversas tanto na vida intrauterina como no início da vida pós-natal possam afetar a saúde tanto da mãe como do bebê ao longo do ciclo da vida e também para gerações futuras, por meio de alterações epigenéticas (alterações hereditárias que afetam expressão gênica sem alterar sequência dos pares de base do DNA). A promoção da nutrição adequada e do crescimento saudável no intervalo crucial dos 1.000 primeiros dias parece resultar em efeitos benéficos sobre a saúde do indivíduo durante sua vida.

A coexistência de deficiências e excessos nutricionais tem sido considerada o desafio atual da agenda de saúde pública global. Gestantes e crianças menores de dois anos de idade estão entre os grupos populacionais de maior risco para deficiência de micronutrientes, que afeta também o desenvolvimento neurológico. A alimentação com predomínio de alimentos ultraprocessados (refrigerantes, embutidos, salgadinhos, biscoitos, guloseimas, entre outros) apresenta alta densidade energética, aditivos químicos, alto teor de gordura, sódio e açúcar com baixa concentração de micronutrientes.

Por sua vez, a dieta com predomínio de alimentos minimamente processados, como frutas e hortaliças frescas, castanhas, cereais, feijões e preparações caseiras, por exemplo, oferece maior concentração e biodisponibilidade de micronutrientes e compostos bioativos naturalmente presentes nesses alimentos. Para o bebê, o leite materno é o melhor alimento, oferecendo também benefícios à saúde materna (controle de peso após o parto e proteção para câncer de mama). O leite materno deve ser oferecido exclusivamente até os seis meses de vida (sem oferta de água, chás ou qualquer outro líquido).

Após os seis meses de vida, a alimentação complementar deve ser introduzida de forma oportuna e adequada de acordo com as diretrizes da OMS, mantendo-se o aleitamento materno até pelo menos dois anos de idade da criança. Um grande número de compostos bioativos do leite humano podem induzir alterações na metilação do DNA e é possível que, sem a exposição a esses fatores, bebês alimentados com fórmulas infantis possam apresentar diferenças na regulação de processos epigenéticos, contribuindo para um pior perfil de saúde a longo prazo.

As causas responsáveis por recentes mudanças nutricionais observadas nos países em desenvolvimento são complexas, envolvendo o processo de urbanização, a globalização da economia, políticas agrícolas, novas formas de distribuição e marketing dos alimentos, variações na renda das famílias, tendências dos preços relativos dos diferentes alimentos e conhecimentos dos indivíduos sobre alimentação e saúde, entre outros fatores. Segundo a última edição do relatório anual sobre a fome Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015, publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad) e o Programa Alimentar Mundial (PAM), há 795 milhões de pessoas que passam fome no mundo.

Entre 1990 e 2014, a porcentagem de pessoas que passam fome na América Latina e Caribe diminuiu de 14,7% para 5,5% desde 1990, e a porcentagem de crianças desnutridas (abaixo dos cinco anos) também teve redução de 7,0% para 2,7%. Segundo o documento da ONU, o Brasil reduziu em 82,1% o número de pessoas subalimentadas no período de 2002 a 2014. A queda foi superior à média da América Latina nesse período, de 43,1%.

Avanços no perfil de saúde e nutrição de crianças brasileiras foram observados no período de 2002 a 2014. Um exemplo importante foi a promoção do aleitamento materno exclusivo (AME). Enquanto na década de 1980 apenas 3,1% das crianças menor de 6 meses estavam em AME, esse porcentual aumentou mais de dez vezes, passando a 38,6% em 2006. No entanto, assim como observado em outros indicadores de saúde infantil, esses avanços não ocorreram com mesma magnitude entre as regiões brasileiras e ainda estão aquém das recomendações da OMS.

Estimativas recentes apontam estabilização das taxas de aleitamento materno, pela primeira vez, após décadas de aumento, acompanhadas desde 2016 por aumento da mortalidade infantil e redução da cobertura vacinal decorrente da fragilização das políticas públicas sociais e do Sistema Único de Saúde (SUS), atingindo diretamente a população mais vulnerável, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do País.

A crise política e econômica atual pode piorar ainda mais esse cenário brasileiro, comprometendo o estado nutricional exibido desde os estágios iniciais da vida até a idade adulta, o desenvolvimento físico e metabólico, a capacidade cognitiva e indicadores de morbidade e mortalidade, além de ter impacto sobre a produtividade econômica e o desempenho reprodutivo futuros. As consequências do teto de gastos por 20 anos, conforme previsto na Emenda Constitucional 95, com cortes importantes em investimentos em saúde, educação e pesquisa, fecharão muitas janelas de oportunidades para as próximas gerações de brasileiros.

Marly A. Cardoso é professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP.



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