Fones de ouvido: objetos simples e que podem causar danos irreparáveis

Deve-se usar esses equipamentos de forma adequada, pois o seu uso prolongado e com potência elevada pode causar danos irreversíveis à audição das pessoas.

fones de ouvidoGuilherme Papa –

O uso indevido de praticamente qualquer objeto ou aparelho pode causar dano ao usuário. O grau de mal utilização geralmente é proporcional aos malefícios gerados. Tendo isto em mente, a devida instrução e a qualidade do utensílio devem andar lado a lado. Um destes casos é o fone de ouvido.

Muito presente no cotidiano de uma boa parcela da população, principalmente os jovens, os fones são utilizados de forma geral para ouvir música, rádio e filmes no celular, com o intuito de o som não incomodar as demais pessoas ao redor. Outros também os utilizam para trabalhar, substituindo os telefones ou mesmo servindo de proteção em ambientes que apresentam ruídos muito altos.

O engenheiro norte-americano Nathaniel Baldwin criou a primeira versão em 1919. Originalmente, seu uso era no setor de comunicação, em amplificadores de telefone e transmissões de rádio.

A partir de 1930, os fones de ouvido passaram a ser comercializados pela empresa alemã Beyerdynamic que modernizou o modelo primitivo e desenvolveu um dispositivo com mais qualidade e portabilidade. Porém, o fone se popularizou apenas em 1958, quando os norte-americanos John C. Koss e Martin Lange inventaram o primeiro fone de ouvido estéreo, mais parecido com o sistema dos atuais.

O boom mundial foi no início da década de 1980, com o lançamento dos walkmans. Neste período, a Sony teve grande destaque ao comercializar o aparelho com o fone junto. Quase 100 anos depois do primeiro fone de ouvido produzido, a evolução em qualidade do som, tamanho, peso e conforto foi enorme.

Entretanto, o aprimoramento de desempenho do fone de ouvido não impede (ao menos até o momento) que ele possa causar danos auditivos. Utilizá-lo por muito tempo continuo e/ou com o volume muito elevado pode danificar a audição do usuário de forma irreversível, com a sua gradativa perda.

Outro sintoma de duração mais curta e imediata é o zumbido que pode lembrar uma abelha ou um apito. O ruído, basicamente, só é inofensivo a saúde quando é de até 50 dB e exposto por até oito horas ao dia, tempo comumente ultrapassado. Se o volume passa de 80 dB, tarefa fácil para muitos fones, que podem chegar a casa de 120 dB, e/ou do período citado, a audição do usuário sofrerá danos irreparáveis.

Abaixo, uma tabela da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF) mostra a potência aproximada de alguns sons.

Fonte sonora Intensidade sonora em dB
Avião a jato (decolagem a 20m)/arma de fogo 130-140
Show 110
Serra elétrica/furadeira pneumática 100-105
Tráfego pesado 80
Automóvel passando a 20m 70
Falar sussurrando 20

Abaixo, outra tabela, disponível na Norma Regulamentadora 15 (NR 15) – Atividades e operações insalubres, mostrando os limites de tolerância para ruído contínuo ou intermitente. Não é permitida exposição a níveis de ruído acima de 115 dB para indivíduos que não estejam adequadamente protegidos.

Nível de ruído em dB Máxima exposição diária permissível
85 8 horas
86 7 horas
87 6 horas
88 5 horas
89 4 horas e 30 minutos
90 4 horas
91 3 horas e 30 minutos
92 3 horas
93 2 horas e 40 minutos
94 2 horas e 15 minutos
95 2 horas
96 1 hora e 45 minutos
98 1 hora e 15 minutos
100 1 hora
102 45 minutos
104 35 minutos
105 30 minutos
106 25 minutos
108 20 minutos
110 15 minutos
112 10 minutos
114 8 minutos
115 7 minutos

Antes de entender como o dano é causado, torna-se necessário distinguir os fones em formato de plugue (os menores e que são inseridos mais para dentro da orelha) e os de formato em concha (os headphones). O primeiro mostra-se potencialmente mais perigoso, pois, além do som ser emitido diretamente no conduto, este modelo está mais propício a transportar sujeira para dentro do ouvido, devido ao fato de a maioria das pessoas guardar os fones no bolso, por exemplo, o que pode trazer bactérias ao objeto.

Italo Medeiros_fones

Ítalo Roberto Torres de Medeiros, otorrinolaringologista, doutor em medicina e otoneurologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que os danos estão relacionados à estimulação sonora que é capaz de entrar pelo ouvido e na orelha interna e lesionar as células ciliadas, responsáveis pela audição. “Existem as células ciliadas internas e as externas. As internas são as mais importantes, e são mais preservadas. Tudo começa com a lesão das externas, e posteriormente as internas. O que acontece é que, dependendo do tempo de exposição e intensidade, o estímulo sonoro é capaz de lesar as células ciliadas porque não dá tempo de uma recuperação destas células.

O médico ainda enfatiza que os fones de ouvido são capazes de lesar a audição com caráter irreversível. “Dependendo da intensidade pode ser uma lesão transitória, mas o uso crônico ou mesmo a intensidade muito alta, com pouca utilização, ou a intensidade relativa com tempo de exposição alto é capaz de lesar a audição de forma irreversível”, assegura ele.

Em casos de lesões agudas, com pouco tempo de evolução, existem tratamentos e medicações com ação anti-inflamatória que podem diminuir o dano gerado na cóclea (região da orelha interna responsável pela audição). De acordo com Medeiros, os fatores mais importantes da lesão auditiva são basicamente três: a intensidade sonora, o tempo de exposição e, em menor proporção que os primeiros, características individuais (metabolismo, genética, etc.). “Diabetes (disfunções do metabolismo do açúcar propriamente dito), problemas de tireoide, colesterol, vitaminas (B12 em especial) podem suscetibilizar a orelha à problemas de audição”, acrescenta.

Além de danos permanentes, também existem os temporários. Isso se chama TTS (Temporary Threshold Shift), uma lesão transitória do sistema auditivo por uma excitação das vias decorrente do ruído. Isso indica uma suscetibilidade individual à uma provável lesão por ruído. São pessoas que precisam ter um cuidado maior de proteção. Geralmente ocorre quando se frequenta lugares com alta intensidade sonora, como festas ou baladas, e ao final fica com a sensação de apito no ouvido.

Além do uso moderado do fone de ouvido, tanto em termos de intensidade quanto tempo, o que se orienta é de tempos em tempos trocá-los e ter um cuidado especial de limpeza, não colocando-os em todos os lugares e, na medida do possível, não manipular o ouvido, não tirar o cerúmen que é produzido, pois ele, além de ser um amortecedor do ruído que entra, tem ação bacteriostática dentro do conduto, protegendo a audição. Outra boa prática é evitar o uso na rua, devido aos ruídos externos que fazem com que a pessoa precise aumentar o volume do som.



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3 respostas

  1. Muito apropriado e interessante. Parabéns.

  2. Eu uso equipamentos auditivos em ambos ouvidos pra minha deficiencia auditiva severa a moderada.
    Assim, gostaria de saber se esses podem tambem prejudicar o ouvido interno à semelhança dos fones de ouvido pra ouvir música.
    Obrigado
    Feliciano de Abreu

    • Sinceramente, acho que o senhor deveria consultar um especialista no assunto. Não temos conhecimento suficiente para responder ao seu questionamento. Sinto muito. Saudações.
      Hayrton

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