Aquíferos, o declínio invisível

Foto: teraambiental.com.brLuís Marques

Os aquíferos estocam 10,5 milhões de km³ de água doce em estado líquido, o que representa 30,1% dessa fonte fundamental de vida terrestre no planeta (I). O declínio e a poluição de grande parte deles é um dos aspectos mais preocupantes, a curto prazo, da crescente escassez hídrica, agravada pelo controle corporativo da água, tema abordado no artigo aqui publicado em 22 de maio último.

Trata-se do aspecto talvez o mais preocupante não apenas por causa da rapidez desse declínio, mas também porque aquíferos alimentam rios e lagos, reciclam a água, além de funcionarem como uma reserva estratégica, crucial durante períodos de pouca ou nenhuma precipitação de chuva, tais como os que assolam hoje muitas regiões do planeta. E as mudanças climáticas, ao agravarem as secas nas latitudes áridas e semiáridas, impulsionam ainda mais a extração de água dos aquíferos, num típico círculo vicioso.

Mas, sobretudo, preocupa o fato de que, ao contrário do que ocorre nas águas superficiais, o declínio e a poluição dos aquíferos são processos silenciosos e de difícil monitoramento, o que favorece o descontrole de seu consumo e de sua poluição, sobretudo pela indústria e pelo agronegócio, e pega de surpresa as populações que deles se servem.

Segundo uma estimativa proposta em 2010, os reservatórios subterrâneos de água no mundo todo – muitos deles fósseis, isto é, com baixa ou nenhuma recarga – fornecem cerca de 43% da água anualmente usada para irrigação agrícola. Os países com uso mais intensivo de aquíferos para a agricultura são a Índia, a China e os EUA, mas seu uso está crescendo em geral, seja em termos absolutos, seja em porcentagem da irrigação total, muitas vezes com usos que excedem a capacidade de recarga (II).

A figura abaixo, extraída do Relatório da ONU de 2015 (World Water Development Report) sobre o uso de aquíferos em sete países, com uma população de quase metade da população global, mostra a intensificação do uso dos aquíferos entre 1940 e 2010, em bilhões de m³ por ano:

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De forma geral, os aquíferos fornecem 33% do consumo humano de água e dois bilhões de pessoas têm neles sua fonte primária de água (III). Essas estimativas foram reiteradas em 2014 num trabalho de grande impacto sobre a crise global desses grandes reservatórios subterrâneos de água, de autoria de Jay S. Famiglietti, cientista Senior do Jet Propulsion Laboratory da NASA e professor da cadeira de Earth System Science da University of California, Irvine. Nesse trabalho,Famiglietti afirma(IV): “Bombeia-se água de aquíferos a taxas muito maiores que sua capacidade de recarga, de tal modo que muitos dos maiores aquíferos em vários continentes estão sendo esvaziados de modo irreversível. Entre estes se contam os aquíferos da Planície do Norte da China, o Bacia Canning da Austrália, o Sistema Aquífero do Noroeste do Saara, o Aquífero Guarani da América do Sul, os aquíferos norte-americanos chamados High Plains e Central Valley, bem como os aquíferos sob o NO da Índia e sobre o Oriente Médio. Praticamente todos eles se encontram sob regiões fortemente agrícolas e são primariamente responsáveis por sua alta produtividade”.

As mensurações do satélite Gravity Recovery and Climate Experiment (GRACE) da NASA dão uma ideia precisa do declínio desses sete aquíferos, entre os maiores do mundo, durante o período 2002-2013:

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Imagem: J. T. Reager, NASA Jet Propulsion Laboratory, California Institute of Technology, USA.

As mensurações do satélite GRACE não são isentas de incertezas e podem ter eventualmente superestimado as perdas do aquífero do NO da Índia (V). Mas é indubitável que esses seis aquíferos estão sendo superexplorados. E não apenas eles. Segundo o Water Resources Research, mais da metade dos 37 maiores aquíferos do mundo ultrapassaram seus pontos críticos (tipping points), o que significa que deles se extraiu mais água do que neles foi reposta durante a década de observação (2003-2013). E isso ocorreu justamente, e não por acaso, nas áreas com maior densidade demográfica do planeta, conforme mostram as zonas em amarelo, laranja e vermelho no mapa abaixo (VI).

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A advertência de James Famiglietti, no artigo citado, é inapelável: “dado que o déficit entre suprimento e demanda é rotineiramente coberto por água subterrânea não renovável, e tanto mais durante períodos de secas, os suprimentos de água subterrânea em alguns aquíferos maiores esgotar-se-ão em questão de décadas”.

O autor propõe medidas de mitigação dessas perdas e conclui: “Os aquíferos em vias de esgotamento implicarão declínios maiores na produtividade agrícola e na geração de energia, com potencial para disparadas nos preços dos alimentos, com seus profundos desdobramentos econômicos e políticos”. E tanto mais num mundo ainda em grande expansão demográfica, com 7,5 bilhões de pessoas em abril de 2017, 8 bilhões em 2024, 8,5 em 2030, 9 em 2042 e 9,7 em 2050, segundo as últimas estimativas da ONU.

Como todos sabem, o Brasil é o país com as maiores reservas de água subterrânea do mundo. Mas é ilusório acreditar que a questão do declínio dos aquíferos passa longe de nós. Em primeiro lugar porque o Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), que congrega o Alter do Chão, situa-se a muitos milhares de quilômetros das regiões mais próximas da costa leste do país, onde se concentra nossa população.

Em segundo lugar porque o Aquífero Guarani, que se estende pelo sudeste e sul da América do Sul, embora gigantesco, não é todo aproveitável, seja porque parte de suas águas é salina, seja porque muito profundas. E em terceiro lugar porque ele não apenas está em declínio quantitativo como em degradação qualitativa por causa da poluição por agrotóxicos como diurom e haxazina (VII) e por contaminação em geral das águas superficiais.

Referências

[I] Dos 23,4 milhões de km³ de água em estado líquido estocada em aquíferos, 12,87 milhões de km³ são água salina. Cf. “The World’s Water”, USGS <https://water.usgs.gov/edu/earthwherewater.html>.

[II] Cf. Siebert, S., Burke, J., Faures, J. M., Frenken, K., Hoogeveen, J., Döll, P., and Portmann, F. T.: “Groundwater use for irrigation – a global inventory”, Hidrology and Earth System Sciences, 14, 1863-1880, 12/X/2010: “Avalia-se o uso total de água subterrãnea para irrigação em 545 km³/ano ou 43% do total de 1.277 km³ / ano” Seguem-se aqui os critérios adotados por esse inventário para a definição do que se entende por água subterrânea (groundwater): “Distinguimos três possíveis tipos de água: água subterrânea, água superficial e fontes não convencionais de água. Considera-se água subterrânea a água extraída de aquíferos por meio de poços e de fontes (springs). Define-se água superficial, a água extraída diretamente de rios, lagos e reservatórios ou alagados (wetlands), enquanto as fontes não convencionais de água são água de reuso (treated wastewater) e a obtida por dessalinização”.

[III] Cf. Payal Sampat, “Deep Trouble: The Hidden Threat of Groundwater Pollution”. World Watch Paper 154, XII/2000.

[IV] Cf. J. S. Famiglietti, “The global underwater crisis”, Nature Climate Change, 4, 945-948, 29/X/2014.

[V] Cf. Di Long et al., “Have GRACE satellites overestimated groundwater depletion in the Northwest India Aquifer?” Scientific Reports, 6, 14/IV/2016.

[VI] Cf. Todd C. Frankel, “Nasa data shows the world is running out of water”. The Independent, 17/VI/2015.

[VII] Cf. “Estudo mostra que o Aquífero Guarani está contaminado por agrotóxicos”. Ecodebate, 19/V/2011. Diurom e haxazina são ingredientes de agrotóxicos utilizados na cultura da cana-de-açúcar. O artigo adverte que “se o mesmo ritmo de extração for mantido, o uso da água do Aquífero Guarani pode se tornar inviável nos próximos 50 anos em Ribeirão Preto”.

Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 2a edição, 2016. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises Socioambientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br) – Publicado originalmente no Jornal da Unicamp.



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1 resposta

  1. Bom artigo.

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