Há 100 anos, a gripe espanhola assolava São Paulo

Em sua forma mais virulenta e contagiosa, a gripe invadiu o país e se alastrou rapidamente do litoral aos sertões, colocando em xeque as ações sanitárias e os saberes médicos do período.

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Anna C. R. de C. Ribeiro

A epidemia de gripe pneumônica, ou influenza, não possui sua origem geográfica definida, contudo acredita-se que ficou conhecida como gripe espanhola por, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a Espanha ter se mantido neutra, permitindo que sua imprensa noticiasse casos da nova peste na Europa, ocasionado assim a associação dos primeiros focos da epidemia a esse país.

Estudiosos estimam que a gripe espanhola, maior epidemia da história, tenha atingido entre 80% e 90% da população do planeta, alcançando 20 milhões de mortes entre os tempos finais da guerra e os meses iniciais de 1919.

Encontrando corpos castigados pelo conflito mundial e debilitados pela carestia, a gripe espanhola avançou continentes adentro em três surtos epidêmicos, aportando no Rio de Janeiro, então capital do Brasil, a bordo do navio Demerara, vindo de Liverpool, em 14 de setembro de 1918, depois de fazer escalas em Lisboa, Recife e Salvador.

Em sua forma mais virulenta e contagiosa, a gripe invadiu o país e se alastrou rapidamente do litoral aos sertões, colocando em xeque as ações sanitárias e os saberes médicos do período. “O número de mortos foi grande, o de atacados assombroso. Raríssimos os que se podem gabar de ter passado incólumes pelas chamas da fogueira”, escreveu Eduardo Imbassahy sobre a gripe espanhola no Rio de Janeiro. (1)

A alta e rápida letalidade do vírus – que atingiu principalmente adultos entre 20 e 35 anos de idade – desafiava as terapêuticas conhecidas e disponíveis à época, tensionando práticas científicas e populares de prevenção e cura em meio ao pandemônio instaurado no país.

Antitérmicos, analgésicos, antissépticos, sangrias e purgativos disputavam espaços de tratamento e profilaxia com vacinas, homeopatias, águas fluidificadas, rezas, passes, banhos quentes e tantas outras tentativas de burlar a enfermidade. Destes, a administração intensa de purgantes era o que provocava frequentes desmaios pelas ruas, confundindo-se com os próprios sintomas da gripe.

Em São Paulo, a marcha epidêmica iniciou seu flagelo nos primeiros dias do mês de outubro de 1918, espraiando-se pelas diversas localidades do estado. Em 15 de outubro, o Serviço Sanitário confirmou à população a existência da doença. Atingindo seu ápice entre os dias 23 de outubro e o transcorrer do mês de novembro de 1918, somente no dia 26 daquele mês as autoridades paulistas noticiaram um declínio epidêmico.

Medidas como a publicação de boletins do Serviço Sanitário, a instalação de aparelhos telefônicos para transmissão de orientações e de relatos do quadro epidêmico e a convocação do secretário de Estado de Negócios do Interior às municipalidades e aos mais diversos setores da sociedade para a formação de Comissões de Socorros destinadas para assistência médica, internações, distribuição de víveres e aviamentos de receitas, não foram o bastante para impedir a convulsão social, o medo e o sofrimento na capital e demais pontos do território paulista.

Se “cautela e canja de galinha não fazem a mal a ninguém”, na gripe espanhola este ditado popular foi tomado à risca. Espaços e contatos circunscritos, relações sociais esgarçadas e, junto ao repouso e aos medicamentos, o leite e a carne de frango tornaram-se essenciais à recuperação dos gripados elevando mais e mais seus preços, deixando-os inacessíveis à maioria da população.

Os corpos febris que mais rapidamente tombaram gélidos foram os já descarnados em vida, débeis pela fome, muitos já acometidos por moléstias decorrentes de inanição e de moradias insalubres.

A inexistência de leis trabalhistas que garantissem a convalescença remunerada, a jornada de até 16 horas no chão de fábrica e os parcos salários – mesmo após as reivindicações da grande greve de 1917 – fizeram de operários gripados a grande parcela de vítimas da epidemia na cidade de São Paulo: trabalhavam enfermos sob o risco de condenar suas famílias à absoluta miséria.

Os jornais paulistanos estampavam manchetes policiais de gripados que, sob o delírio da febre ou da fome, atentavam contra a própria vida. E, nas páginas de propaganda, medicamentos como a Grippina dividiam espaço com a oferta de compostos e acessórios para solucionar a alopecia que acometia sobreviventes da gripe.

Desabastecimento, saques e pilhas de cadáveres aguardando enterramentos passaram a compor a paisagem caótica paulistana durante os dias de combate à epidemia. Até o último dia de 1918 somaram-se oficialmente 5.331 mortes na cidade de São Paulo.

Segundo Arthur Neiva, diretor geral do Serviço Sanitário paulista durante a gripe espanhola, “o historiador que, no futuro, procurar descrever as principaes epidemias que assolaram o Brasil, com muita difficuldade poderá fazer idéa da formidavel calamidade que foi a grippe epidemica.” (2)

Não restam dúvidas de que há muito a se desvendar sobre a gripe espanhola e seus desdobramentos na assistência pública à saúde no país. Pensar o Brasil em sua complexidade e dar destaque às regionalidades, como as franjas do interior paulista que ainda carecem de estudos sistemáticos sobre suas práticas médicas e sanitárias, apresentam-se como convite instigante para futuros estudos sobre a epidemia que, há um século, abalou o mundo.

Referências

(1) Imbassahy, Eduardo. Da grippe – etiologia, epidemiologia e prophylaxia. Rio de Janeiro, 1919. Tese de doutoramento, Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, PP. 94-5.

(2) Meyer, Carlos Luiz.Teixeira, Joaquim Rabello. A Grippe Epidemica no Brasil e especialmente em São Paulo – Dados e informações. Casa Duprat, 1920. [Prefácio].

Anna C. R. de C. Ribeiro é historiadora (FFLCH- USP), pós-graduanda do Programa de Saúde Pública (FSP-USP), especialista em Educação Permanente em Saúde (UFRGS), pesquisadora do Centro de Memória da FSP-USP e membro dos Grupos de Pesquisa História e Memória da FSP-USP e Salus – História da Medicina e da Saúde (FM-USP).



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1 resposta

  1. Meus bisavós quando chegaram ao Brasil, vindos da Itália, cidade de Firmo, contraíram a febre, outros não puderam desembarcar e foram para a Argentina, Buenos Aires.

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