A importância do brincar na perspectiva dos direitos humanos

Em um sentido ampliado, para além de uma questão morfofuncional, na perspectiva dos direitos humanos, a saúde deve ser vista como um complexo e amplo estado ou percepção.

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André Reis

A Organização Mundial de Saúde (OMS) caracteriza saúde como estado de completo bem-estar físico, psíquico e social e não apenas como ausência de doença ou enfermidade. Desde os anos 1980/90, a OMS tem reiterado que o grau máximo de saúde é um dos direitos fundamentais do ser humano sem distinção de raça, religião, ideologia política, condição econômica ou social.

Essa visão de saúde, ampliada e aliada aos princípios do Artigo 3º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, expressa que todo ser humano tem direito à vida. Novos termos ressignificam e ampliam a noção conceitual de saúde: bem-estar e qualidade de vida são utilizados nesta dimensão.

Num sentido ampliado, para além de uma questão morfofuncional, na perspectiva dos direitos humanos a saúde deve ser vista como um complexo e amplo estado ou percepção. Podemos falar em fatores determinantes da qualidade de vida ou bem-estar, representados por fatores orgânicos – saúde e estado funcional; psicológicos – identidade, autoestima, aprendizado; sociais – relacionamento, privacidade, sexualidade; e estruturais – posição social, significado da própria vida; e os tidos como comportamentais – hábitos, vida profissional, cultura, esporte, lazer.

Na relação vivencial ou comportamental, desde épocas remotas, o ser humano demonstrou grande capacidade de utilização da criatividade e do desenvolvimento da inteligência para manter sua hegemonia e predominância sobre outros animais e o meio ambiente. É processo contínuo e inesgotável, dando origem a diversas formas e expressões artísticas, esportivas, inclusive nas formas de fruição do momento livre ou do lazer.

Algumas práticas corporais perderam a função de luta diária pela sobrevivência humana para consolidar-se em atividades culturais da performance humana: dança, esporte, teatro, artesanato. Elas têm a incrível magia de reconectar o homem consigo mesmo, sua origem, ancestralidade e essência – um ser que se movimenta, cria e recria. Isto porque media a realidade com a necessidade do exercício do criar como brincar.

Entendemos que tal estado de imersão humana – brincar – pode ser entendido como saúde ampliada, pois também envolve fatores orgânicos, psicológicos, comportamentais, estruturais. Acredita-se que o homem se sente completo quando brinca.

A inserção do brincar, na perspectiva dos direitos humanos, pode minimizar os impactos de uma atividade obrigatória do currículo nas escolas e universidades. O Artigo 24 da declaração expressa que todo homem tem direito a repouso e também ao lazer. Este último item está intimamente ligado ao tempo de não trabalho, à liberdade do ser e fazer, descompromissado ou voluntário.

A necessidade de liberdade vivencial, abstração, relaxamento, do desligamento necessário do homem laboral, precisa estar contemplada na elaboração das políticas e discussões acerca de um programa de atividades culturais, esportivas e de lazer comunitário, na perspectiva dos direitos humanos. Precisamos sair dos conceitos escritos no papel para intervenções práticas. Programas que envolvem atividades de esporte, cultura e lazer na perspectiva do bem-estar devem ter por objetivo principal criar um ambiente que possibilite às pessoas viver uma longa, saudável e criativa vida.

André Reis é decano de assuntos comunitários e professor da Faculdade de Educação Física da UnB.



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