A qualidade de vida e os índices de avaliação

A questão fundamental que se pode formular é a seguinte: até que ponto os índices, coeficientes, indicadores e métricas utilizados para avaliar as condições econômicas e sociais de uma população, que retratam a desigualdade de renda, o nível da pobreza e a exclusão social, conseguem expressar também a complexidade das necessidade das pessoas?

vida2Vivaldo Antonio Fernandes Russo e Ettore Bresciani Filho

Comecemos com as ideias que inspiraram as reflexões contidas neste texto externadas em livro recente de Steven Pinker, importante pesquisador da área da ciência cognitiva e neurociências: “Só mesmo alguém insensível negaria que as vitórias contra doença, fome e analfabetismo são façanhas estupendas, mas ainda assim poderíamos questionar se as melhoras contínuas nos tipos de coisas que os economistas medem devem ser vistas como um progresso genuíno. Depois que as necessidades básicas foram satisfeitas, será que a afluência adicional não serviria apenas para incentivar as pessoas a se entregarem a um consumismo frívolo?…As pessoas podem ser sadias, estáveis financeiramente e alfabetizadas e mesmo assim não ter uma vida fecunda e significativa.” (Pinker, 2018, p.297).

A questão fundamental que se pode formular é a seguinte: até que ponto os índices, coeficientes, indicadores e métricas utilizados para avaliar as condições econômicas e sociais de uma população, que retratam a desigualdade de renda, o nível da pobreza e a exclusão social, conseguem expressar também a complexidade das necessidade das pessoas, que poderiam caracterizar a qualidade de vida, que não se restringem somente a obtenção de riqueza e longevidade?

Entendemos que muitas facilidades para atender outras necessidades básicas, em grande parte proporcionadas, no mundo moderno caracterizado pelo desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e que muitas vezes estão entre si relacionadas, podem ser também apontadas para caracterizar o que se pode denominar de qualidade de vida: os serviços de alimentação, moradia, saúde, educação, segurança, transporte, saneamento básico, energia elétrica.

Além disso, verifica-se que a redução do tempo dedicado ao trabalho em decorrência das leis trabalhistas e do aumento de produtividade, redução bem aceita por mais gratificante que o trabalho possa ser, propicia maior tempo para o lazer, com os acessos às atividades esportivas, culturais e de turismo. Não menos importante é o desenvolvimento da consciência ecológica para a preservação do meio-ambiente, e também o desfrute de um ambiente social e político democrático com liberdade de pensamento, ação e manifestação. Sem dúvida algumas dessas necessidades podem ser melhor atendidas com o aumento de renda, mas dependem também de outros fatores de influência decorrentes das políticas econômicas e sociais implementadas e implantadas.

Acreditamos também que não há dúvida do progresso obtido no mundo moderno, para grande parte da população mundial, na obtenção de melhor qualidade de vida, em grande parte devido a denominada globalização da economia.

E grande parte desse progresso atingido decorreu do desenvolvimento da denominada sociedade da informação, com apoio essencial na tecnologia da informação e da comunicação (Castells, 1999). Mas, convém lembrar também a existência das desigualdades econômicas, políticas e sociais da população nos diferentes países, e também de desigualdades entre os países, que não foram beneficiados, e em alguns casos até prejudicados pela globalização (Milanovic, 2016).

Após essas breves considerações vamos tentar responder à questão fundamental formulada com base em estudos preliminares, conduzidos pelos autores deste trabalho de reflexão, sobre os conceitos de desigualdade, exclusão social, pobreza e seus relacionamentos com a renda da população (Bresciani & Russo, 2017; Russo & Bresciani 2018a,b).

Foi apontado nos estudos que esses conceitos são de natureza multifacetada, multidisciplinar e complexa, e assim sendo diferentes significados podem ser construídos, e essa diversidade de significados dificulta muitas vezes a implantação ou implementação de medidas práticas de formulação de políticas públicas de intervenção no ambiente econômico e social.

Desse modo, é necessário, primeiramente, entender os critérios para medir os requisitos relacionados à pobreza e à distribuição de renda que contribuem para a exclusão social. Podemos considerar, para esse estudo, que o processo de inclusão social, como o oposto ao de exclusão social, é um processo de combate à pobreza e à desigualdade na distribuição de renda.

Cabe explicar que dessa medição resultam os índices, às vezes também denominados coeficientes, que são compostos por indicadores. As métricas têm um significado mais geral e se referem às variáveis que são medidas na observação e que se expressam na forma de índices e indicadores.

As métricas da desigualdade de renda derivam de estudos estatísticos de levantamentos das distribuições de renda das populações, e suas avaliações se apoiam principalmente em teorias financeiras e do bem-estar social e, também, na teoria da informação. Embora, a pobreza tenha dimensão diferente da renda, aquela é medida a partir da distribuição de renda da população analisada.

Comumente são consideradas pobres as pessoas cuja renda é menor ou igual a um valor pré-estabelecido denominado linha da pobreza. Contudo já é de conhecimento geral que a renda é uma medida bastante imprecisa das condições de vida, e além do mais o estabelecimento do que se denomina linha da pobreza apresenta um certo grau de arbitrariedade.

De qualquer modo pode-se estabelecer, uma vez definida a linha de pobreza, segundo algum critério, a relação porcentual do número de indivíduos pobres em uma população. Uma métrica de desigualdade de renda – importante dimensão da desigualdade social – muito utilizada no mundo é o denominado índice de Gini em homenagem ao seu criador Corrado Gini.

Quando a distribuição da renda é igualitária, isto é, todos indivíduos da população recebem a mesma renda num dado período, o valor do índice de Gini é zero (ou 0%). Por sua vez, quando apenas um indivíduo recebe toda a renda da população num dado período, o índice de Gini é igual a 1 (ou 100%), isto é, desigualdade máxima.

Assim, os países com distribuição de renda mais igualitária apresentam índice de Gini baixo, menor que 25%. De acordo com The World Bank (2019), em 2015 o Índice Gini para o Brasil foi de 51,30% e para a Alemanha 31,70%. Ao analisar a distribuição de renda de um país, é comum dividi-lo em regiões.

Neste caso, espera-se que as métricas de cada região tenham uma relação coerente com a métrica do país, mas isso não ocorre com o índice de Gini, além do que, ele mede apenas a desigualdade da renda. Neste ponto, trazemos uma polêmica que envolve aqueles responsáveis pelas políticas públicas.

Os governos devem dar prioridade à redução da pobreza ao invés de se preocupar com a redução da desigualdade de renda? Podemos pensar que, se temos uma renda que nos garanta uma condição de vida digna, pouco importa se há indivíduos detentores de muita riqueza.

Parece ser de senso comum que a redução da pobreza depende do crescimento econômico, mas a diminuição da desigualdade na distribuição da renda, quando combinada com o crescimento econômico, contribui sensivelmente para diminuição da pobreza, como inúmeros casos reais de sucesso no mundo demonstram.

Em uma visão mais ampla da melhoria da qualidade de vida, a Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou em 1990 o importante conceito de Desenvolvimento Humano. Em essência, desenvolvimento humano é o processo de ampliação das liberdades das pessoas, com relação às suas capacidades e as oportunidades a seu dispor, para que elas possam escolher a vida que desejam ter.

Nesse sentido, os economistas trabalhando para a organização propuseram o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) como medida do grau de desenvolvimento humano de um país. Para tanto consideraram o IDH composto por três dimensões: vida longa e saudável (saúde); acesso ao conhecimento (educação); padrão de vida decente (renda). O índice varia de 0 a 1, sendo 1 o valor a ser alcançado (PNUD – Brasil, 2013).

Apesar de o IDH ter se tornado um índice muito utilizado internacionalmente, sofre a crítica de não considerar todos os aspectos da qualidade de vida, e também não identificar a desigualdade na distribuição de cada dimensão para o universo da população. Assim sendo, foi criado um novo índice denominado Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à Desigualdade (IDHAD).

Quando a igualdade da população for total, isto é, para cada dimensão e entre elas, os valores do IDH e do IDHAD são iguais. Porém, havendo alguma desigualdade, o valor do IDHAD torna-se menor do que o valor do IDH. Por exemplo, em 2015, o valor do IDH para o Brasil foi de 0,754, mas seu valor para o IDHAD foi de 0,561. Enquanto isso, a Alemanha apresentou o IDH de 0,926 e o IDHAD de 0,859. (UNDP, 2016)

Considerando o senso comum, qualquer pessoa pode pensar que felicidade seria sinônimo de qualidade de vida, ou pelo menos um atributo principal desta, havendo conexão com saúde, meio ambiente, etc. Mas não é tão simples assim. Diversos países vêm desenvolvendo diferentes propostas para o denominado índice Felicidade Nacional Bruta (FNB) depois que, em 1972, no Butão, estabeleceu-se o FNB para avaliar a felicidade de seu povo. Uma das propostas para esse índice abrange sete dimensões de bem-estar: econômico, ambiental, físico, mental, de trabalho, social e político. (Kotler, 2015)

De qualquer modo, se comparado com a situação das primeiras décadas do século anterior, deveríamos atualmente ser mais felizes, pois a renda é maior e os gastos são menores para desfrutar de educação, saúde, habitação, transporte, lazer e outros serviços e produtos básicos. E, além disso, que é fundamental para maior nível de felicidade, associado a essas condições econômicas, em muitos países desenvolvidos, e outros em desenvolvimento, dominam os regimes políticos democráticos e liberais nos quais os cidadão podem desfrutar de maior liberdade política e econômica.

Mas, parece que as pessoas se acomodam com os benefícios e se ocupam de encontrar preocupações para se aborrecer e assim não parecem mais felizes quando ficam mais ricas no longo prazo. Daí nascem teorias da psicologia para explicar os fenômenos da depressão, ansiedade, superatividade, solidão e o suicídio presentes particularmente nas nações mais desenvolvidas e ricas; e também se apresentam as teorias da filosofia com crítica ao individualismo, materialismo e consumismo, posturas filosóficas que podem levar à ostentação de riqueza e à degradação dos vínculos sociais e, particularmente, dos vínculos familiares e religiosos.

A todos esses fatores de influência na criação de condições de qualidade de vida que possam propiciar maior felicidades às pessoas, pode-se acrescentar ainda o caráter subjetivo de definição de felicidade. Assunto complexo para ser melhor analisado em outros trabalhos (Pinker, 2018, p.314-344).

Referências

BRESCIANI Filho, E – RUSSO, V.A.F, Considerações sobre a desigualdade, inclusão e exclusão social: Estudo preliminar sobre desigualdade, inclusão e exclusão social (Relatório de Pesquisa), Academia Brasileira da Qualidade – Estudos e Relatório Técnicos, São Paulo, 06 de dezembro de 2017. [www.abqualidade.org.br]

CASTELLS, M., A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura (Volume I: Sociedade em Rede). São Paulo: Paz e Terra, 1999(2a.ed.).

KOTLER, P., Capitalismo em Confronto, Rio de Janeiro: Best Business, 2015.

MILANOVIC, B., Global inequality: a new approach for the age of globalization. Cambridge (MA): The Belknap Press of Harvard University Press, 2016, 299 p.

NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL, Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Brasil (PNUD Brasil), Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e Fundação João Pinheiro, Brasília, 2013.

PINKER,S., O novo iluminismo em defesa da razão, da ciência e do humanismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018, 686p.

RUSSO, V.A.F – BRESCIANI FLHO, E., Aspectos analíticos e estatísticos da desigualdade social e pobreza (Relatório de Pesquisa), Academia Brasileira da Qualidade – Estudos e Relatórios Técnicos, São Paulo, 26 de marco de 2018a. [www.abqualidade.org.br]

RUSSO, V.A.F – BRESCIANI FLHO, E., Desigualdade de renda e pobreza (Relatório de Pesquisa), Academia Brasileira da Qualidade – Estudos  e Relatório Técnicos, São Paulo, 04 de dezembro de 2018b. [www.abqualidade.org.br]

THE WORLD BANK, Gini Index, Washington, DC – USA, 2019

[ https://data.worldbank.org/indicator/SI.POV.GINI ] consulta em 28/01/2019

UNITED NATIONS DEVELOPMENT PROGRAMME (UNDP), Human Development Report, 2016.

Vivaldo Antonio Fernandes Russo é engenheiro mecânico (FEM-Unicamp); diretor presidente aposentado da Eaton – Hydraulics da América do Sul; professor do curso de extensão (FEM-Unicamp); e membro da Academia Brasileira da Qualidade (ABQ) –  varusso@uol.com.br; e Ettore Bresciani Filho é engenheiro aeronáutico (ITA); doutor em engenharia e professor livre docente (EPUSP); professor titular aposentado (FEM-Unicamp); membro do CLE-Unicamp; e membro da ABQ – brescia@lexxa.com.br 



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2 respostas

  1. Bolsonaro presidente = Brasil primeiro mundo.

    • Após a leitura do artigo, de excelente elaboração, fico com o sentimento de que elevar o Brasil as primeiras colocações em níveis mundiais, não é atribuição de apenas uma pessoa. O presidente tem sim papel fundamental, contudo os heróis são eficientes apenas nas ficções, acredito que cada ação positiva, praticada por cada cidadão consciente de seu direitos e deveres, irão gerar a energia necessária para que o Brasil chegue as posições de países considerados como primeiro mundo.

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