Exportações brasileiras: tendências e perspectivas

Os EUA se encontram em um bom nível de abertura comercial, pois o seu padrão de desenvolvimento permite. E qual seria o nível de abertura comercial apropriado para o atual nível de desenvolvimento brasileiro?

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Filipe Lage de Sousa

Há quem acredite que o Brasil não é uma economia fechada, pois o mercado doméstico brasileiro é grande o suficiente para que a participação das exportações e importações no produto interno bruto (PIB) seja diminuta. Em geral, essas pessoas argumentam que o Brasil tem a mesma participação que os Estados Unidos da América (EUA) no mercado externo, logo sua economia não pode ser considerada fechada.

No entanto, há uma relação entre coeficiente de abertura e renda per capita na literatura de comércio que desmistifica essa linha de raciocínio. Segundo a literatura, essa relação é crescente, porém a taxas decrescentes, o que significa que o coeficiente de abertura comercial (corrente de comércio sobre o PIB) e a renda per capita aumentam conjuntamente até um ponto em que maiores níveis de renda per capita estão associados a menores patamares de coeficiente de abertura.

Ao considerar essa linha de raciocínio, pode-se concluir que os EUA se encontram nesse nível de abertura comercial, pois o seu padrão de desenvolvimento permite. Então, qual seria o nível de abertura comercial apropriado para o atual nível de desenvolvimento brasileiro? O gráfico abaixo elucida essa questão ao mostrar a relação entre abertura comercial e renda per capita para 133 países no mundo entre os anos de 1994 a 2018.

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África do Sul (ZAF); Argentina (ARG); Brasil (BRA); Colômbia (COL); Estados Unidos (EUA); Índia (IND); Indonésia (IDN); México (MEX); e Turquia (TUR). Consideram-se apenas países com relação entre corrente de comércio e PIB abaixo de 100%, visando não incluir países cuja economia é baseada exclusivamente em commodities, tais como petróleo.

Como pode ser observado, a relação entre renda per capita e abertura comercial é côncava, como descrita anteriormente. Todos os países comparáveis ao Brasil (África do Sul, Argentina, Colômbia, Índia, Indonésia, México e Turquia) tiveram uma participação da corrente de comércio nos seus respectivos PIB muito acima da brasileira. Mesmo a Índia, que possui uma renda per capita inferior à brasileira e, portanto, poderia ter uma relação menor que a brasileira, apresenta uma média de participação de cerca de 40%, enquanto a brasileira situa-se um pouco acima dos 20%.

Em média, esses países similares ao Brasil em termos de exportação possuem uma abertura comercial superior a 45%, praticamente o dobro do número brasileiro. Cabe salientar que o Brasil até aumentou sua abertura comercial ao longo do tempo, porém esse crescimento foi da mesma magnitude dos outros países comparáveis e inferior à evolução do mundo em termos de pontos percentuais. De toda forma, o grau de abertura da economia brasileira deveria ao menos duplicar em relação ao nível atual dado o grau de abertura de países similares de renda per capita parecida.

Em função desse perfil, torna-se interessante investigar como as exportações brasileiras se comportaram nas últimas décadas em comparação às exportações de economias mais abertas. Em primeiro lugar, nota-se que a economia brasileira acabou se tornando mais competitiva em produtos oriundos da atividade agropecuária, a partir da análise da vantagem comparativa revelada. Nesses produtos, o Brasil é de 50% a 200% mais competitivo que os demais países comparáveis. Estes, por sua vez, destacam-se nos produtos têxteis e de vestuário, setores em que o Brasil permaneceu estagnado e não competitivo.

No tocante à diversificação, o Brasil passou a exportar mais produtos e/ou conseguiu levar seus produtos a mais mercados nas últimas décadas. Mesmo assim, tanto o Brasil quanto os países comparáveis concentraram sua pauta exportadora em termos de produtos ao longo do tempo, muito embora a brasileira permaneça menos concentrada que a dos países em questão.

Já com relação a mercados, o país sempre apresentou um nível de concentração inferior ao dos países comparáveis, conseguindo ainda o reduzir ao longo do tempo. Apesar de esses números serem favoráveis, o crescimento das exportações brasileiras foi muito mais na margem intensiva (exportar mais produtos para os mesmo destinos) do que na margem extensiva (exportar novos produtos e/ou para novos mercados).

No que tange à sofisticação, o Brasil conseguiu manter-se ligeiramente acima dos países comparáveis nos produtos de alta tecnologia, porém perdeu muito terreno nos produtos de média tecnologia. Entre 1994 a 2001, os produtos de média tecnologia correspondiam a quase 25% da pauta exportadora brasileira, mas caíram para 16% no período de 2010 a 2016.

Nos mesmos períodos, os percentuais para os países comparáveis foram de 17% e 20%, respectivamente. Ou seja, enquanto esses países avançaram 3 pontos percentuais (pp), o Brasil caiu 8 pp. Essa perda não é compensada pela permanência de 1 pp acima dos comparáveis nos produtos de alta tecnologia.

Olhando por esse ângulo, poderíamos chegar à conclusão de que houve uma deterioração branda da pauta exportadora brasileira em termos de grau de sofisticação dos produtos em comparação com outros países similares. Entretanto, em uma comparação do nível de sofisticação do destino das exportações, ou seja, na exportação para países de maior renda, o Brasil se comportou de forma muito semelhante aos demais países comparáveis.

Por último, as exportações brasileiras são muito mais resilientes ao longo do tempo. Enquanto o tempo de permanência das exportações brasileiras é de doze anos, a média dos países comparáveis é de apenas nove anos. Curiosamente, os produtos diferenciados brasileiros perduram mais no mercado internacional em comparação às commodities exportadas pelo Brasil. Em relação aos mercados, a União Europeia é o local de maior sobrevivência das exportações brasileiras.

O que fazer?

Em geral, portanto, a performance exportadora brasileira foi relativamente semelhante à dos países comparáveis em termos de sofisticação, crescimento e orientação, destacou-se em sobrevivência e poderia ter um desempenho melhor em diversificação. Diante desse cenário, percebe-se que ao se integrar mais na economia mundial, o Brasil teria mais a ganhar na diversificação de sua pauta exportadora, visto que os países com maior abertura comercial apresentaram desempenho superior nesse aspecto, especialmente na margem extensiva.

De acordo com Moreira e Lage de Sousa (2017), o número de acordos de livre comércio assinados pelo Brasil ainda está muito aquém do de outros países, inclusive de alguns considerados comparáveis, tais como México e Turquia. Muito embora o acordo assinado entre a União Europeia e o Mercosul ainda necessite da ratificação dos parlamentos dos diversos países envolvidos, essa iniciativa é um passo na direção de ampliar a integração do Brasil ao comércio internacional. Uma maior integração resulta, principalmente, em maior dinamismo das exportações, especialmente no acréscimo de novos produtos e/ou mercados na pauta exportadora brasileira.

Enquanto aguarda o desfecho do acordo já em pauta, há outras frentes possíveis de atuação para o Brasil, como a elaboração de reformas microeconômicas para que economia brasileira possa aproveitar os ganhos de comércio de maneira mais plena; e a busca por novos parceiros comerciais visando acordos de livre comércio. A maior integração do Brasil ao comércio mundial criará uma percepção de dinamismo econômico, além de permitir a busca por condições de elevar o nível de renda per capita do país.

Referência

MOREIRA, M. M., e LAGE DE SOUSA, F. Política comercial em 2019: retomando a abertura interrompida? In. GIAMBIAGI, F.; ALMEIDA JÚNIOR, M. F. (ed.). Retomada do crescimento: diagnóstico e propostas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017, p. 123-136.

Filipe Lage de Sousa é economista do Departamento de Pesquisa Econômica da Área de Planejamento do BNDES e professor no departamento de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF). PhD pela London School of Economics, com especialização em desenvolvimento do setor privado.



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