O cometa e a vacina

O cometa Halley é o único cometa de período curto visível a olho nu. Passa por aqui a cada 76 anos, mais ou menos. Já o movimento antivacina tem consequências talvez piores do que a do apocalipse que não ocorreu em 1910, com a passagem do cometa.

peter

Peter Schulz

Eu tinha uns sete ou oito anos e tentava não perder nenhum episódio de Túnel do tempo, seriado colorido, que no Brasil da época era em preto e branco. Eu adorava, o enredo era fantástico, começando com uma rampa que se abre no meio do deserto, levando um oficial de alta patente para um superlaboratório subterrâneo. Era um projeto secreto, uma máquina do tempo (1), que já consumira muito dinheiro e o visitante oficial vinha averiguar os indicadores de progresso da coisa, disposto a cancelar o financiamento (2).

No desespero, dois dos cientistas, “Doug” Phillips e “Tony” Newman, aventuram-se na máquina (o tal túnel) e vão ao passado e não conseguem voltar. Cada episódio é a ida a um momento histórico (poucos episódios se passavam no futuro) crítico e são resgatados na hora agá, transferidos, não de volta para casa, mas para outro momento histórico perigoso, seguido do anúncio: não percam no novo episódio na próxima semana (3).

Pois bem, o terceiro episódio chama-se “O fim do mundo” e eu me espantei com o enredo, cujo resumo copio da Wikipédia: os cientistas perdidos tentam livrar mineiros presos em 1910, mas não recebem ajuda de ninguém, pois todos na cidade pensam que o mundo vai acabar, quando o cometa Halley aparece no céu como uma enorme bola de fogo, numa crença do fim do mundo. Foi assim que tomei contato com o cometa do título acima.

Busquei em uma enciclopédia o que pode ser checado facilmente na web hoje (4). O cometa Halley é o único cometa de período curto visível a olho nu. Passa por aqui a cada 76 anos, mais ou menos. Depois de 1910, passou de novo em 1986, mas foi decepcionante, não vi nada.

Decepções à parte, a história é muito interessante. Halley foi o primeiro cometa a ser reconhecido como periódico. Em 1687, Isaac Newton publicou sua obra capital, Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, na qual delineava as leis da gravitação e do movimento, mas deixou seu trabalho sobre cometas incompleto.

Seu amigo, o astrônomo Edmond Halley foi quem publicou em 1705 um trabalho a respeito da perturbação dos planetas Júpiter e Saturno sobre as órbitas de cometas. Compilando órbitas de diferentes cometas, verificou que os parâmetros para um cometa registrado em 1531 eram iguais a de outros dois, observados em 1607 e em 1682.

Concluiu corretamente que se tratava do mesmo cometa, passando a cada 76 anos pelo quintal espacial da Terra (5). A próxima aparição ocorreria então em 1758, mas Halley faleceu em 1742. O cometa foi de fato observado e, logo após, batizado em homenagem ao seu identificador.

Essa descoberta, de que diferentes cometas eram na verdade um só, passando por aqui periodicamente é um dos primeiros testes bem-sucedidos da física newtoniana. Merece reverência, mas despertou pânico na penúltima vez que passou por aqui e, assim, volto a 1910 e ao episódio de “Túnel do tempo”.

A passagem do cometa em 1986, apesar de decepcionante, foi estudada pela sonda espacial Giotto, nome em homenagem ao pintor toscano, que observara o cometa em 1301 e o representara como a estrela de Belém (que pode ter sido mesmo o cometa Halley) na obra Adoração dos reis magos (abaixo).

Por outro lado, a passagem de 1910 foi a primeira em que a composição química da cauda do planeta pode ser analisada por meio de um espectroscópio acoplado a um telescópio. A composição continha um gás extremamente tóxico, o cianogênio. Além disso, calculou-se que o cometa não se chocaria com a Terra, mas nosso planeta atravessaria sua, na ocasião, longuíssima cauda, como de fato ocorreu.

Logo após a notícia sobre a composição química da cauda do planeta, o jornal New York Times noticiou, em fevereiro de 1910, a declaração do astrônomo francês Camille Flammarion de que o gás iria impregnar a atmosfera e possivelmente extinguir toda a vida no planeta. A reação foi imediata e a declaração foi replicada em jornais por todo o mundo.

Outros astrônomos, como o renomado Percival Lowell, tentaram tranquilizar os terráqueos, afirmando (com razão) de que a cauda era tão rarefeita, a concentração do gás tóxico tão diminuta, que nenhum efeito seria sentido. Mas era tarde demais, o pânico espalhou-se rapidamente: notícias de suicídios, anúncios de aluguel de submarinos para escapar do gás, venda de pílulas anticometa e, talvez, situações como a do episódio assistido na minha infância.

A melhor história é de uma orgia de fim de mundo na Islândia, que causou um pequeno baby boom por lá nove meses depois. Pelo menos é o que aparece em um romance policial de Arnaldur Indridason, O Silêncio do Túmulo. Como não encontrei outros registros desse caso, coloco-o na série Se non è vero, è ben trovato.

peter3

Evidentemente, como anunciou o Chicago Tribune no início de maio: “Ainda estamos aqui”. Nesse breve roteiro percebemos que a origem do pandemônio com vítimas fatais e charlatanismos (e piadas) de todo tipo está na declaração (irresponsável) de uma autoridade científica: o astrônomo Camille Flammarion.

Mas quem foi esse sujeito? Além de astrônomo premiado era um conhecido divulgador científico e…um pesquisador psíquico, interessado em fenômenos paranormais, portanto uma mistura de ciência e espiritualidade (6). Que não é tão raro assim, geralmente com consequências menos conhecidas, mas isso é outra questão de ciência.

peter4

A história tem o seu caráter pitoresco, longínquo, lá do início do século passado, mas merece atenção redobrada em tempos de negação da ciência, bem como de irresponsabilidade de cientistas fazendo má ciência (7). Com isso chegamos à vacina do título, pois o movimento antivacina tem consequências talvez piores do que a do apocalipse que não ocorreu em 1910.

O Flammarion da vez, não é astrônomo, mas um médico (licença caçada) chamado Andrew Wakefield, que publicou um artigo em uma revista científica de prestígio, The Lancet, que sugeria uma possível correlação entre a vacina tríplice oral e casos do espectro de autismo. O artigo de 1998, como se verificou, é totalmente errado, mas foi retratado completamente apenas em 2010.

Muito tarde, o estrago estava feito, o movimento antivacina ganhara espaço e voltamos a ter casos de sarampo em países onde a doença já estava erradicada. Na época da publicação do seu artigo científico, Wakefield declarou à imprensa que a vacina tríplice não seria segura; foi o fósforo aceso jogado no rastilho de pólvora já preparado: o movimento antivacina parece não parar de crescer, incentivado por isso que passou a ser chamado de ciência por coletiva de imprensa (8).

Cientistas e jornalistas precisam coçar a cabeça antes de dizer e publicar o que dizem e publicam. Essas e outras questões de ciência podemos acompanhar na revista Questões de Ciência (9).

Referências

[1] – Atenção: essa parte é ficção científica e não ciência!

[2] – Aos sete ou oito anos, antes de saber o que era pesquisa, aprendi que ela podia ser sigilosa e que seu financiamento pode cortado.

[3] – Na época não existia a possibilidade de maratona de séries pela Netflix, aprendíamos a domar as expectativas e ansiedades.

[4] – https://pt.wikipedia.org/wiki/Cometa_Halley

[5] – É um bom exemplo, talvez pioneiro, da importância da interdisciplinaridade, juntando Física, Astronomia e História.

[6] – https://www.smithsonianmag.com/history/ten-notable-apocalypses-that-obviously-didnt-happen-9126331/

[7] – Casos como esse fizeram com que a comunidade científica se mobilizasse a favor das boas práticas na ciência.

[8] – Cada caso mereceria um artigo: https://en.wikipedia.org/wiki/Science_by_press_conference

[9] – http://revistaquestaodeciencia.com.br/

Peter Schulz foi professor do Instituto de Física Gleb Wataghin (IFGW) da Unicamp durante 20 anos. Atualmente é professor titular da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, em Limeira. Além de artigos em periódicos especializados em física e cienciometria, dedica-se à divulgação científica e ao estudo de aspectos da interdisciplinaridade. Publicou o livro A encruzilhada da nanotecnologia – inovação, tecnologia e riscos (Vieira & Lent, 2009) e foi curador da exposição Tão longe, tão perto – as telecomunicações e a sociedade, no Museu de Arte Brasileira – FAAP, São Paulo (2010).



Categorias:Opinião

Tags:, ,

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: