Mude a sua atuação profissional e faça a diferença

A falta de qualidade na mão de obra trouxe um problema ainda maior para o desenvolvimento brasileiro: a falta de líderes capazes de levar o Brasil a patamares mais elevados de desenvolvimento humano e econômico.

silvia

Silvia De Tommaso

Ao longo das últimas duas décadas, testemunhamos uma economia acelerada seguida de uma das maiores crises econômicas de nosso país. O aumento de desigualdade social foi sentido em vários setores da economia, mas também houve uma maior oferta de novos tipos de vagas de trabalho e uma enorme oferta de cursos de pós-graduação e especialização voltados para capacitação profissional e as necessidades do mercado atual.

O ingresso de profissionais em cursos de capacitação superior foi volumoso, mas por que então, as empresas não conseguem completar as vagas abertas de trabalho e as pessoas não conseguem se recolocar rapidamente? A contribuição do aumento de cursos de ensino superior não se traduz em formação de mão de obra qualificada às necessidades do mercado de trabalho.

Há muito se fala nos benefícios e necessidades de educação para o brasileiro, mas pouco se faz para mudar o olhar sobre a proposta educacional mais adequada para esses brasileiros. Mesmo com tanto investimento privado na educação superior, a crise educacional se agravou quando os empresários e líderes brasileiros se depararam com a falta de qualidade da mão de obra formada nesta educação superior.

A conclusão é que apesar do aumento de escolaridade da mão de obra adulta e, mesmo ocorrendo um aumento de renda per capta, isso não significou a diminuição de desigualdade social e muito menos aumento de qualidade da mão de obra. A falta de qualidade na mão de obra trouxe um problema ainda maior para o desenvolvimento brasileiro: a falta de líderes capazes de levar o Brasil a patamares mais elevados de desenvolvimento humano e econômico.

Há, então, uma discussão de mudança do projeto educacional, focando o investimento nos anos iniciais, isto é, nas crianças e  na educação infantil, para que a formação das novas lideranças comece no início. Assim, como política pública, houve um investimento na educação infantil, de zero a cinco anos e o início de modificação e formatação do investimento público na educação básica: aumento de anos de escolaridade para nove anos de ensino fundamental, em 2017, a aprovação da Base Nacional Comum Curricular através de participação da sociedade como um todo e a reforma do ensino médio.

Pois bem, o movimento para acertar o passo para um desenvolvimento econômico sustentável foi iniciado. E por que ainda não conseguimos alocar a mão de obra que procura posição no mercado de trabalho e ainda continuamos com tantas vagas em aberto nas empresas sem preenchimento por falta de qualificação da mão de obra disponível?

Na busca de respostas, nos aprofundamos na pesquisa do sociólogo, antropólogo e filósofo francês, Edgar Morin. Hoje, com quase 98 anos, nos diz, há mais de duas décadas, que a maior urgência no campo das ideias não é elaborar novos métodos ou doutrinas, mas sim uma nova concepção do próprio conhecimento. No lugar da especialização, da simplificação e da fragmentação de saberes, Morin propõe a multidisciplinaridade, a diversidade e a integração dos saberes. Ele nos convida a um mergulho no universo da complexidade.

A complexidade nasce na filosofia e a partir do final do século XX entra para a ciência através das ciências exatas e naturais, como as teorias da informação e dos sistemas e a cibernética. Os princípios-guia da complexidade são interdependentes e complementares. São eles os princípios sistêmico (o todo é mais do que a soma das partes), hologramático (o todo está em cada parte), do ciclo retroativo (a causa age sobre o efeito e vice-versa), do ciclo recorrente (produtos também originam aquilo que os produz), da auto-eco-organização (o homem se recria em trocas com o ambiente), dialógico (associação de noções contraditórias) e de reintrodução do conhecido em todo conhecimento.

Estar conectados em sistemas abertos pressupõe a interação dialógica, incerta de inúmeros elementos e inúmeras interações de forma aleatória. Estas interações nos confrontam a não julgar e aprender a escutar e entender as diferenças e por tanto as incertezas e contradições. E nas palavras de Morin, trata-se ao menos de reconhecer o que é sempre silenciado nas teorias da evolução: a inventividade e a criatividade. (2000)

Morin fala de auto-organização e ser eu, ser sujeito, isto é, protagonista da minha ação, é ocupar um espaço único no mundo, onde o eu é o centro deste mundo para poder lidar com ele, lidar consigo mesmo e interagir com ele- o sujeito auto-eco-organizado. Ser sujeito é, então, ser autônomo, mas ao mesmo tempo dependente. Ter certezas e ser incerto.

O conceito de autonomia humana é complexo à medida que é dependente da condição de formação cultural e social do indivíduo. Para sermos nós mesmos precisamos aprender uma linguagem, uma cultura, um saber, e é preciso que esta própria cultura seja bastante variada para que possamos escolher no estoque das ideias existentes e refletir de maneira autônoma.

Portanto, essa autonomia se alimenta de dependência, nós dependemos de uma educação, de uma linguagem, de uma cultura, de uma sociedade, dependemos claro de um cérebro, ele mesmo produto de um programa genético, e dependemos também de nossos genes. A partir da formação deste ser, para que este ser seja autônomo, é necessário que ele aja. A ação é uma estratégia.

A palavra estratégia pressupõe um conjunto de planos não determinados anteriormente. A partir de uma decisão inicial, pode-se prever um certo número de cenários para a ação – cenários que poderão ser modificados segundo as informações que vão chegar no curso da ação e segundo os acasos que vão se suceder e perturbar a ação. A estratégia busca corrigir o rumo das interferências do acaso através da aquisição de informação.

A complexidade não é uma receita para conhecer o inesperado, mas uma ferramenta para nos tornar prudentes e atentos, superando a fragilidade de ficarmos na condição de determinismos, isto é, de acharmos que fatos que ocorreram no passado serão necessariamente repetidos da mesma forma no futuro e que o que acontece hoje vai continuar indefinidamente. Por mais que saibamos que tudo o que aconteceu de importante na história mundial ou em nossa vida era totalmente inesperado, continuamos a agir como se nada de inesperado devesse acontecer daqui para frente. Sacudir esta preguiça mental é uma lição que nos oferece o pensamento complexo.

Esse tipo de pensamento não recusa de modo algum a clareza, a ordem, o determinismo. Ele os considera insuficientes, sabe que não se pode programar a descoberta, o conhecimento, nem a ação. E Morin coloca que o pensamento complexo não resolve por si só os problemas, mas pode nos avisar. Não se esqueça de que a realidade é mutante, não esqueça que o novo pode surgir e, de todo modo, vai surgir.

Neste sentido, encontramos semelhanças no discurso de Morin e de Michael Porter, estrategista empresarial e professor da Havard Business School, quando se discute maneiras de se pensar o hoje e o planejar o amanhã em ecossistemas vivos. A empresa e a escola são organismos vivos que se assemelham por serem constituídas de membros vivos, as pessoas.

A empresa ou a escola são codificadas pelos seus CNPJ, entretanto elas são conjuntos de CPF. Todos os CPF têm seu DNA próprio e singular e interagem com seus genes e com o ambiente onde habitam. Entender a ordem na desordem destes sistemas abertos e auto-organizados é fundamental na formação do profissional que preencherá as vagas das empresas de hoje.

Muitos dos profissionais desta nova geração de negócios entendem ser habitantes de um mesmo planeta onde a ação de cada um impacta e impactará diretamente a vida do outro. Neste sentido, milhares de atores pelo mundo participam ativamente da execução da Agenda 2030, da ONU, para um desenvolvimento sustentável mundial. A Agenda 2030 e seus 17 objetivos colocam grandes desafios para estes atores para que desenvolvam soluções capazes de responder de maneira integrada às demandas sociais, econômicas e ambientais hodiernas e futuras.

São valores e preceitos fundamentais da Agenda 2030: a universalidade, contempladora dos desafios globais que devem ser enfrentados por todos os países, independentemente de sua situação de desenvolvimento; a integração, que atesta a relevância de se buscar abordagens que consigam mesclar, de forma equilibrada, as três dimensões do desenvolvimento sustentável: a econômica, a social e a ambiental. Tudo isso deve ser realizado mediante a observância da máxima de não deixar ninguém para trás, ao pretender dar visibilidade aos grupos mais desfavorecidos e em situação de dramática vulnerabilidade.

A base filosófica da Agenda 2030 começa em 1999, quando Morin foi convidado pela Unesco a sistematizar um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para se repensar a educação no então nascente século XXI. Com a participação de pensadores do mundo todo, Morin sistematizou seus pensamentos através do texto, que virou livro: Os sete saberes necessários à educação do futuro, editado pela Unesco em 2000.

A mudança começa com o estudo do próprio conhecimento, entendendo a importância de explorar constantemente o saber e não apenas as informações ou as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão. O segundo ponto é apreender os problemas globais e fundamentais.

É o entendimento de que cada indivíduo é coabitante de um mesmo planeta e, portanto, precisa conhecer o ambiente onde vive e os princípios do conhecimento pertinente. Em seguida vem o estudo da condição humana, entendida como unidade complexa da natureza dos indivíduos.

Já ensinar a condição humana é mostrar a identidade terrena que seria o quarto ponto e se refere a abordar as relações humanas de um ponto de vista global. O tópico seguinte é enfrentar as incertezas com base nos aportes recentes das ciências e da revolução digital onde a contradição e a incerteza são situações cotidianas.

O sexto item é ensinar a compreensão, em que se pede uma reforma de mentalidades e o entendimento da importância da singularidade como condição essencial humana e, portanto, a diversidade como característica fundamental de formação do coletivo. Finalmente, uma ética global, baseada na consciência do ser humano como indivíduo e parte da sociedade e da espécie – a ética do gênero humano.

Enfrentar as incertezas tem sido uma das maiores barreiras para a solução da equação vagas de emprego x pessoas desempregadas. Morin nos propõe a incerteza e as contradições como parte da vida e da condição humana e, ao mesmo tempo, sugere a solidariedade e a ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes.

A transdisciplinaridade propõe a quebra do paradigma do estudo das disciplinas de forma isolada e nos convida à ação coletiva. Pensar fora da caixa, uma expressão tão comum nos dias de hoje, reflete o que Morin nos coloca. Buscar o conhecimento para a evolução e perpetuação da espécie humana é responsabilidade de todos nós.

Porter e Kramer (2011) sugerem às empresas a criação de valor compartilhado, isto é, buscar lucratividade ao mesmo tempo em que se resolve problemas sociais. É inegável a condição favorável das empresas enquanto financiadores e fomentadores da mudança de paradigma social e econômico que o mundo necessita.

As empresas podem agregar à sua expertise de governança os processos aos conhecimentos das necessidades das comunidades onde atuam se trouxerem para dentro de sua estratégia empresarial as demandas sociais. Inúmeras empresas têm tido excelentes resultados econômicos e sociais a partir desta mudança de estratégia, tais como, Danone, Nestlé, Natura, Votorantim e outras.

Este novo posicionamento de líderes empresarias atende aos conceitos propostos por Morin e impulsiona a mudança de olhar do profissional de hoje assim como do professor, do educador e do gestor. O que então você pode fazer para atuar de forma diferente e impactar sua vida como cidadão deste planeta e fazer parte desta nova sociedade?

Você pode começar por aplicar estes princípios de conhecimento a partir de você. O que você conhece sobre sua história? Que valores não negocia e o que te move a cada dia?

A partir destas respostas, você pode conhecer melhor o ambiente onde vive e trabalha e se interessar por conhecer melhor as pessoas com quem vive e trabalha. Escutar opiniões diferentes e respeitá-las pode levá-lo a um caminho diferente de crescimento humano e profissional.

Agora estará pronto para se perguntar: como posso contribuir para diminuir a desigualdade social no mundo em que vivo? Começando por olhar as pessoas ao seu redor e perguntar a elas do que elas precisam e como pode ajudá-las a solucionar seu problema. A inovação e a criatividade não caem do céu como mágica, elas acontecem na percepção do outro e sua necessidade e na solução de forma diferente e útil para aquele problema.

Referências bibliográficas

Morin, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina. 2011

__________. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,2017.

__________. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São  Paulo: Cortez Brasília, DF:Unesco,2011.

Porter, M. E. and Kramer, M. R. Creating shared value: how to reinvent capitalism and unleash a wave of innovation and growth. Harvard Business Review 89(1/2), 2011, pp. 62-77.

__________. Strategy and Society: The Link between Competitive Advantage and Corporate Social Responsibility. Harvard Business Review, 84/12, 2006,  pp. 78-92.

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável-Unesco, agenda 2030. http://www.un.org/ga/search/view_doc.asp?symbol=A/RES/70/1&Lang=E

Silvia De Tommaso é consultora de estratégia, gestão e negócios sociais, professora no I GESC, é consultora da empresa Facilit Tecnologia, empreendedora social e mestranda em gestão de negócios pela FIA – silviafntommaso@gmail.com



Categorias:Opinião, Qualidade

Tags:, , , ,

4 respostas

  1. Excelente artigo, fiz o curso ESSEC com Edgar Morin.

    • João, obrigada pelo comentário. O meu contato está no final do artigo para conversarmos mais sobre Morin. Um abraço. Silvia

  2. ótimo Silvia Parabéns! Cris Sigolo

  3. Obrigada pelo comentário! Bjs

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: