Os perigos dos contêineres para a acomodação das pessoas

Depois do incêndio dos contêineres no Centro de Treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro, com a trágica morte de dez jogadores da divisão de base, será que se pode discutir o uso desse tipo de equipamento na construção civil? Uma vez esvaziados de sua carga original, alguns contêineres estão encontrando segundas vidas como escritórios, galpões de armazenamento ou espaços de trabalho ou moradia. À primeira vista, isso parece uma ótima ideia – eles são relativamente baratos e resistentes a intempéries. Mas, esses novos usos incluem muitas coisas para as quais eles não foram projetados e podem trazer sérios riscos com eles.

contêiner2Hayrton Rodrigues do Prado Filho –

Projetados para proteger as cargas transportadas nos oceanos, os contêineres são resistentes à água e ao clima, com ventilação limitada. As duas primeiras qualidades as tornam atraentes para armazenamento, mas a última qualidade é o que pode torná-los perigosos, quando usados como moradia ou como escritórios.

Deve-se pensar qual a carga que foi transportada dentro deles ou quais os produtos químicos usados para proteger essa carga, como pesticidas ou fumigantes? Qualquer resíduo do conteúdo, incluindo vazamentos que caiam nas tábuas do piso de madeira, pode criar um acúmulo de vapores prejudiciais aos trabalhadores ou moradores que entram no contêiner, desavisados e desprotegidos.

Assim, antes de usar o contêiner em seu local de trabalho ou para moradia, limpe-o completamente e considere a substituição do piso. Deve-se tomar precauções contra contaminação durante este processo.

A falta de ventilação também afeta o que deve ser armazenado posteriormente e quais as atividades que serão realizadas dentro ou ao redor dos contêineres. Alguns especialistas acham que eles têm o potencial de se tornar uma bomba pressurizada se contiverem o suficiente dos três elementos do triângulo do fogo: oxigênio, combustível e uma fonte de calor.

Equipamentos comumente armazenados em locais de trabalho, como ferramentas de tinta, combustível e gás, liberam vapores inflamáveis que podem se acumular em níveis perigosos em uma instalação de armazenamento mal fechada e mal ventilada. Ao usar contêineres, há uma série de precauções que se pode tomar para reduzir os riscos para os trabalhadores, para a propriedade da empresa ou mesmo para eventuais moradores.

Se o contêiner é novo, sem uso no transporte de cargas, pode-se atentar para as especificações do fabricantes, verificar como foi tratado os pisos e se foi usado no revestimento alguma tinta perigosa. Já os reaproveitados, deve-se melhorar os sistema de ventilação. Ele deve estar localizado longe de possíveis fontes de calor e onde, em caso de incêndio ou explosão, os danos à área circundante e a qualquer pessoa que trabalhe dentro dele sejam limitados.

A reutilização de um contêiner de carga pode parecer uma solução pronta e de baixo custo para armazenamento, espaço de escritório ou mesmo moradia, mas é preciso se informar sobre os perigos e como minimizá-los. Como eles vêm ganhando espaço no setor da construção civil no Brasil, deve-se atentar para a forma de como eles são produzidos, o que torna o processo de adaptação de um contêiner para um lugar habitável algo extremamente dispendioso.

Na reutilização de um contêiner, é preciso fazer aberturas com ferramentas específicas no aço, o piso precisa ser substituído e toda a estrutura jateada. As tintas utilizadas na sua fabricação possuem componentes químicos pesados, como o cromato e o fósforo, que aumentam o tempo de vida de um contêiner no transporte marítimo.

Além das tintas, as superfícies internas são expostas a inseticidas altamente tóxicos, que precisam ser retirados para que a caixa se torne habitável. Seu espaço é limitado, por isso existe uma dificuldade de projeto e modulação. Além disso, com esse pouco espaço nem sempre muito confortável a sua utilização para determinados fins.

A área do terreno deve ser capaz de comportar os contêineres, com espaço para as manobras dos guindastes que fazem a movimentação dos módulos. Necessita-se de mão-de-obra especializada, principalmente nos cortes das esquadrias. Há que se ter cuidados especiais de isolamento térmico e acústico, pois ele é feito de aço que é um ótimo condutor de calor e péssimo isolante acústico.

Como se trata de um tipo novo de construção, carece de conhecimento da legislação adequada e dificuldade de obtenção de financiamento. Os alvarás e licenças para uma construção de contêiner são os mesmos de alvenaria, obtidos junto à prefeitura.

Contudo, pode-se enfrentar problemas em algumas cidades, já que se trata de uma construção pouco usual. Planos, elevações, topografia, rede de esgoto, energia e desenhos estruturais são os documentos básicos para iniciar a obra.

Deve-se repetir que, dependendo do que o contêiner transportava no passado, podem haver vestígios contaminantes. Além disso, os solventes liberados da pintura e selantes utilizados na fabricação do contêiner podem ser prejudiciais à saúde. Quanto à manutenção, por ser um material que estava a maior parte do tempo ao lado do mar, é necessário fazer uma manutenção preventiva e, para o caso de haver ferrugem, é preciso tratamento adequado antes de sua aplicação na construção.

Seria importante conhecer uma norma técnica que trata desse tipo de equipamento. A NBR ISO 6346 de 02/2002 – Contêineres de carga – Códigos, identificação e marcação proporciona um sistema para identificação e apresentação de informações sobre contêineres de carga. O sistema de identificação é previsto para aplicação geral, por exemplo, para documentação, controle e comunicações (incluindo sistema automático de processamento de dados), assim como para inscrição para os próprios contêineres. Incluem-se os métodos de identificação e de algumas outras informações (incluindo dados operacionais) sobre os contêineres, por intermédio de marcas permanentes.

Especifica um sistema de identificação dos contêineres, com um sistema associado para verificar a exatidão de seu uso, tendo: marcas obrigatórias para apresentação do sistema de identificação para interpretação visual, e – marcas opcionais para uso da Automatic Equipment Identification (AEI) e o intercâmbio eletrônico de dados (EDI); um sistema de codificação de dados das dimensões e tipo do contêiner com as marcas correspondentes; marcas operacionais, obrigatórias e opcionais; apresentação física destas marcas sobre o contêiner.

Os termos obrigatório e opcional são usados para diferenciação entre as marcas ISO que obrigatoriamente devem estar em todos os contêineres daquelas não necessariamente exigidas. As identificações opcionais são incluídas para melhor compreensão e para promover uma aplicação uniforme destas. Se a escolha for feita para mostrar uma marca opcional, os dados inseridos devem ser os prescritos nesta norma relativos à marca em questão. Os termos obrigatório e opcional não fazem referência a requisitos a qualquer norma regulamentadora ou legislação pertinente.

Esta norma se aplica a todos os contêineres de carga abrangidos pelas ISO 668, ISO 1496 partes 1 a 5 e ISO 8323, e convém, onde apropriado e praticável, que sejam aplicados: para contêineres de outra maneira cobertos pelas normas mencionadas na seção 2; para contêineres relacionados e/ou equipamentos destacáveis. Os contêineres marcados de acordo com as edições prévias da ISO 6346 não necessitam ser remarcados. Esta norma não dá cobertura sobre inscrições de dados técnicos em contêineres-tanques (ver ISO 1496-3), e de maneira nenhuma inclui marcas de identificação da sinalização de segurança para itens de carga que podem ser transportados por contêineres.

O sistema de identificação deve consistir somente nos seguintes elementos, todos obrigatoriamente incluídos: código do proprietário: três letras; identificador da categoria do equipamento: uma letra; número de série: seis numerais; dígito de controle: um numeral. O uso das marcas conforme o sistema de identificação especificado, isto é, código do proprietário, identificador da categoria do equipamento, número de série e dígito de controle, é obrigatório para todos os contêineres de carga e recomendado para todos os equipamentos especificados.

As características (dimensões, formato, leiaute, etc.) detalhadas devem ser apresentadas tanto quanto possível conforme a seção 6, isto é, devem ser capazes de serem lidas a olho nu. A disposição do código de proprietário, o identificador da categoria do equipamento, número de série e dígito de controle em contêineres, de preferência, devem ser em linha simples horizontal (ver figuras abaixo). Quando houver características de construção diferentes, a disposição pode ser vertical (ver figuras abaixo).

A disposição dimensional e o código tipo, sempre que for praticável, devem ser em linha horizontal abaixo da linha horizontal do código do proprietário, identificador da categoria do equipamento, o número de série e dígito de controle. Quando o código do proprietário, identificador da categoria do equipamento, o número de série e dígito de controle são indicados verticalmente, a dimensão e o código tipo devem ser colocados adjacentes às outras marcas obrigatórias (ver figuras).

Se em contêineres para finalidades específicas, onde uma disposição completa horizontal ou vertical não for possível, a disposição das marcas de identificação obrigatórias deve ser mantida em grupos horizontais ou verticais, como especificado a seguir (ver figuras). Nestes contêineres para finalidades específicas onde a disposição completa horizontal ou vertical não for possível e a disposição das marcas de identificação obrigatórias são horizontais, o dimensional e o código tipo deve ser colocado ao lado das marcas obrigatórias (ver figuras).

O código do proprietário e o identificador da categoria de equipamento devem estar juntos e devem ser separados do número de série por pelo menos o espaço de um caractere. O número de série deve ser separado do dígito de controle pelo espaço de um caractere e o digito de controle deve ser indicado rodeado por uma figura geométrica retangular.

contêiner3

Para identificar se um contêiner é aéreo/terrestre, com as devidas restrições no que se refere ao empilhamento, deve ser usado o símbolo indicado na figura abaixo. O símbolo deve estar localizado no canto superior do lado esquerdo das paredes laterais, nas paredes de extremidade e no teto, se adequado (ver ISO 8323).

O símbolo aeronáutico deve ter pelo menos 130 mm (5 in) de altura e 360 mm (14 in) de comprimento. O símbolo de empilhamento deve ter pelo menos 280 mm (11in) de altura e 260 mm (10 in) de largura. As proporções recomendadas devem ser usadas. As letras maiúsculas devem ter no mínimo 80 mm (3 in) de altura. A cor do símbolo deve ser negra. Contudo, se a cor do contêiner não permitir que o símbolo se destaque claramente, um painel de cor adequada, de preferência branca, deve ser usado como fundo.

contêiner4

Todos os contêineres com altura superior a 2,6 m (8 ft 6 in) devem ter as seguintes marcas obrigatórias: em ambas as laterais, uma marca de altura similar à descrita no anexo F; sobre as travessas superiores das estruturas frontal e traseira e parede lateral, em cada canto adjacente ao dispositivo de canto, uma área de 300 mm (12 in) de comprimento mínimo, de faixas pretas e amarelas, que possam ser vistas do solo ou do topo. Em aditamento, qualquer outra marca opcional, como uma marca simétrica como descrito no anexo F, pode ser colocada em qualquer lugar julgado conveniente (por exemplo, na parede frontal).

Enfim, os contêineres são utilizados somente com a finalidade de transportar cargas e por isso, para garantir que resistam ao uso intenso e constante, são fabricados com alumínio, aço e fibra. Com os avanços tecnológicos, novas possibilidades surgiram e permitiram expandir a utilização deste produto, especialmente na construção civil.

Basicamente, existem dois tipos de contêineres que podem ser utilizados neste setor: o marítimo comum, bastante resistente à corrosão, mas com baixo isolamento térmico e acústico; e o reefer, criado com a finalidade de transportar carga congelada, financeiramente mais caro, pois apresenta melhor isolamento térmico e acústico.

Embora os contêineres apresentem vida útil de quase um século, no mercado de transportes eles são descartados, em média, após completar uma década. Isso faz com que um excedente de contêineres esteja sem função no mundo todo, especialmente depositados em portos. Ou seja, estão prontos para se transformar em escritórios, casas, restaurantes, lojas de roupas, centros comerciais e estandes de vendas. Sempre levando em consideração os riscos nesse tipo de construção.

No caso específico de uso dos contêineres na construção civil e para evitar os riscos dos incêndios aos ocupantes, basta o proprietário e, por conseguinte, os poderes constituídos (prefeitura e corpo de bombeiros fiscalizarem o cumprimento das normas contra incêndio), implementar as normas técnicas de incêndio na edificação.

A NBR 9077 – Saídas de emergência em edifícios fixa as condições exigíveis que as edificações devem possuir a fim de que sua população possa abandoná-las, em caso de incêndio, completamente protegida em sua integridade física; e para permitir o fácil acesso de auxílio externo (bombeiros) para o combate ao fogo e a retirada da população. Segundo a norma, os objetivos previstos devem ser atingidos projetando-se as saídas comuns das edificações para que possam servir como saídas de emergência; e as saídas de emergência, quando exigidas.

A norma se aplica a todas as edificações, classificadas quanto à sua ocupação, constantes na Tabela 1 do Anexo (consultar na norma), independentemente de suas alturas, dimensões em planta ou características construtivas, fixando ainda os requisitos para edifícios novos, podendo, entretanto, servir como exemplo de situação ideal que deve ser buscada em adaptações de edificações em uso, consideradas suas devidas limitações.

Para os efeitos da norma, as edificações são classificadas: quanto à ocupação, de acordo com a Tabela 1 do Anexo; quanto à altura, dimensões em planta e características construtivas, de acordo, respectivamente, com as Tabelas 2, 3 e 4 do Anexo. Importante é que a saída de emergência compreende o seguinte: acessos ou rotas de saídas horizontais, isto é, acessos às escadas, quando houver, e respectivas portas ou ao espaço livre exterior, nas edificações térreas; escadas ou rampas; e descarga. Elas devem ser dimensionadas em função da população da edificação. A população de cada pavimento da edificação é calculada pelos coeficientes da Tabela 5 do Anexo, considerando sua ocupação, dada na Tabela 1 também do Anexo.

Uma outra norma a ser cumprida, quando houver um conjunto de contêineres, é a NBR 14276 de 12/2006 – Brigada de incêndio – Requisitos que estabelece os requisitos mínimos para a composição, formação, implantação e reciclagem de brigadas de incêndio, preparando-as para atuar na prevenção e no combate ao princípio de incêndio, abandono de área e primeiros socorros, visando, em caso de sinistro, proteger a vida e o patrimônio, reduzir as consequências sociais do sinistro e os danos ao meio ambiente, sendo aplicável para toda e qualquer planta. Uma brigada de incêndio é um grupo organizado de pessoas preferencialmente voluntárias ou indicadas, treinadas e capacitadas para atuar na prevenção e no combate ao princípio de incêndio, abandono de área e primeiros socorros, dentro de uma área preestabelecida na planta. O responsável pela brigada de incêndio da planta deve planejar e implantar a brigada de incêndio, bem como monitorar e analisar criticamente o seu funcionamento, de forma a atender aos objetivos dessa norma. (leia mais sobre essa norma)

A NBR 10898 de 09/1999 – Sistema de iluminação de emergência fixa as características mínimas exigíveis para funções a que se destina o sistema de iluminação de emergência a ser instalado em edificações, ou em outras áreas fechadas sem iluminação natural. A função desses sistemas é a de viabilizar a evacuação segura do local. A iluminação de aclaramento deve atender a todos os locais que proporcionam uma circulação vertical ou horizontal, de saídas para o exterior das edificações, ou seja, rotas de saída.

Deve assinalar todas as mudanças de direções, obstáculos, saídas, escadas, etc. Em áreas de risco, é recomendado que seja chamada a atenção com pisca-pisca ou equipamento similar as saídas do local.

No caso de alguns incêndios, que geraram tragédias, a adoção de sprinklers (chuveiros automáticos) tem demonstrado ser o melhor equipamento disponível, e que obteve maior êxito no combate ao incêndio em edificações. Contudo, é sempre bom lembrar que um sistema de sprinklers tem como função central realizar o primeiro combate ao incêndio, na sua fase inicial, para extingui-lo ou então controlá-lo até a chegada do Corpo de Bombeiros.

A norma a ser cumprida é a NBR 10897 de 10/2007 – Sistemas de proteção contra incêndio por chuveiros automáticos – Requisitos que estabelece os requisitos mínimos para o projeto e a instalação de sistemas de proteção contra incêndio por chuveiros automáticos, incluindo as características de suprimento de água, seleção de chuveiros automáticos, conexões, tubos, válvulas e todos os materiais e acessórios envolvidos em instalações prediais.

Quando se trata de segurança, saúde e meio ambiente, quem não cumpre as normas técnicas comete um crime. A norma técnica brasileira tem a natureza de norma jurídica, de caráter secundário, impositiva de condutas porque fundada em atribuição estatal, sempre que sinalizada para a limitação ou restrição de atividades para o fim de proteção de direitos fundamentais e do desenvolvimento nacional, funções eminentemente estatais.

Elas podem ser equiparadas, por força do documento que embasa sua expedição, à lei em sentido material, uma vez que obriga o seu cumprimento. As normas técnicas brasileiras, que alcançam todo o território nacional e se impõem aos órgãos públicos e privados por expressa disposição legal ou regulamentar, são, como todas as normas jurídicas – únicas que podem impor comportamentos – imperativas em seu cumprimento e acarretam, também por expressa determinação legal ou regulamentar, em caso de descumprimento, a aplicação de penalidades administrativas – e eventualmente até de natureza criminal.



Categorias:Normalização, Qualidade

Tags:, , , , , , , , , , ,

1 resposta

  1. Não se esqueça que assim como várias pessoas morrem queimadas dentro de uma casa, la tbm foi uma fatalidade, não existe nível de segurança bem no container e muito menos em uma casa, caso as técnicas sejam mau aplicadas, então não é questão de ser menos seguro, a questão é: vc contratou um profissional para construir? Essa é a pergunta. Casa com elétrica mau feita pode matar uma família inteira, então mesmo para construção em container ou em Alvenaria, contate sempre um engenheiro ou um especialista, vc está correndo o risco do mesmo jeito, caso opte por construir com qualquer pessoa sem experiência.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: