Esqueceram do jornalismo de qualidade no Brasil

Jornalismo é a atividade de coletar, avaliar, criar e apresentar notícias e informações. É também o produto dessas atividades. Pode ser distinguido de outras atividades e produtos por certas características e práticas identificáveis. Esses elementos não apenas separam o jornalismo de outras formas de comunicação, mas deveriam se tornar indispensáveis para as sociedades democráticas. A história revela que, quanto mais democrática é uma sociedade e menos aparelhada por defensores de criminosos corruptos, mais notícias e informações ela tende a ter.

jornalismo2Depois de mais de 20 anos de um jornalismo atrelado ao poder executivo que, para ter fontes de qualquer espécie, passou a distribuir dinheiro público para os donos da imprensa no Brasil e até para jornalistas com blogues que rezavam a mesma cartilha. Isso se refletiu na qualidade dos textos, na apuração da verdade, etc. Com a concorrência da internet, que jogou nos fundo do poço a mídia impressa, os barões da imprensa ficaram perdidos e não sabem mais o que fazer. Só geram boatos e fofocas, pensando que a imprensa é a mesma coisa que uma rede social.

Com os meios digitais a todo vapor, o jornalismo brasileiro e o processo de produção informativa se perderam no meio do caminho. Com a imensa massa do denominado livre discurso digital, qualquer pessoa passou a se denominar jornalista, usando meios de propagação informativa que não percorrem o mito do jornalismo baseado em apuração, veracidade, precisão e verificação no campo. E isso passou a ser seguido pelas redações da grande mídia.

Na verdade, o jornalismo brasileiro tradicional, focado em modelos de negócio rígidos e com nenhuma preocupação com os ambientes onde sua audiência trafegava, ou seja, nos aplicativos sociais, acabou naufragando em um mundo cada vez mais interativo. Somam-se a isso os websites e redes privadas anônimos criados para espalhar informação ou desinformação que não necessitam seguir o processo formal. Eles se utilizam com destreza das funcionalidades oferecidas pela rede digital para a propagação e o alcance da audiência.

No fundo, a sociedade brasileira precisa entender que a primeira obrigação do jornalismo com qualidade é com a verdade. A tomada de decisões depende de pessoas que tenham fatos confiáveis e precisos colocados em um contexto significativo.

Não se pode buscar a verdade em um sentido absoluto ou filosófico, mas em uma capacidade mais realista. Deve-se lembrar que todas as verdades – até mesmo as leis da ciência – estão sujeitas a revisão, mas se deve atuar com elas nesse meio tempo porque são necessárias e funcionam.

O jornalismo deve procurar uma forma prática e funcional da verdade, não a verdade no sentido absoluto, filosófico ou científico, mas sim uma busca das verdades pelas quais podemos operar no dia a dia, sem nenhuma base filosófica de esquerda, centro ou direita. Essa verdade jornalística deve ser um processo que começa com a disciplina profissional de reunir e verificar fatos e depois transmitir um relato justo e confiável de seu significado, sujeito a investigações posteriores.

Esses profissionais devem ser tão transparentes quanto possível sobre fontes e métodos para que o público possa fazer sua própria avaliação da informação. Mesmo em um mundo de vozes em expansão, procurar acertar é a base sobre a qual tudo é construído – contexto, interpretação, comentário, crítica, análise e debate. A verdade maior, ao longo do tempo, emerge deste fórum.

Como os cidadãos encontram um fluxo cada vez maior de dados e informações, eles têm mais necessidade – não menos – de fornecedores de informações dedicadas a encontrar e verificar as notícias e colocá-las em contexto, porém, a primeira lealdade deve ser com os cidadãos. A editora de jornalismo – seja uma corporação de mídia respondendo a anunciantes e acionistas ou um blogueiro com suas próprias crenças e prioridades pessoais – deve demonstrar uma lealdade final aos cidadãos. Eles devem se esforçar para colocar o interesse público – e a verdade – acima de seus próprios interesses financeiros ou convicções políticas.

Dessa forma, um compromisso com os cidadãos é um pacto implícito com o público e uma fundação do modelo de negócio jornalístico – o jornalismo oferecido sem medo ou favor pode ser percebido como mais valioso do que o conteúdo de outras fontes de informação. Isso também significa que o jornalismo deve procurar apresentar uma imagem representativa dos grupos constituintes da sociedade. Ignorar certos cidadãos tem o efeito de privá-los das informações completas.

Minha ideia é que jornalismo ou conteúdo com credibilidade pode construir um público amplo e leal e que o sucesso econômico segue por sua vez. Lembrando sempre que não se pode explorar essa fidelidade ao público antes de outras considerações. A tecnologia pode mudar, mas a confiança – quando ganha e é nutrida – irá perdurar.

Embora não haja um código normalizado, todo jornalista verdadeiro deve usar determinados métodos para avaliar e testar as informações para acertar. Ser imparcial ou neutro não é um princípio central do jornalismo, porque ele deve tomar decisões humanas que, muitas vezes, não são objetivas. Mas os métodos jornalísticos são sempre objetivos.

Quando o conceito de objetividade originalmente evoluiu, isso não implicou que os jornalistas estivessem livres de preconceitos. Chamava-se, antes, de um método consistente de testar a informação – uma abordagem transparente à evidência – precisamente para que preconceitos pessoais e culturais não minassem a exatidão do trabalho. Ou seja, o método é objetivo, não o jornalista.

Buscando várias testemunhas, revelando o máximo possível sobre fontes, ou pedindo para os vários lados comentar implica na disciplina da verificação. Isso é o que separa o jornalismo de outras formas de comunicação, como propaganda, ficção ou entretenimento e até informações propagadas nas redes sociais.

Outro ponto importante: a independência é uma pedra angular da confiabilidade. Isso significa não ser seduzido por fontes, intimidado pelo poder ou comprometido pelo interesse próprio. Em um nível mais profundo, fala de uma independência de espírito e uma mente aberta e curiosidade intelectual que ajuda o jornalista a enxergar além de sua própria classe ou status econômico, raça, etnia, religião, gênero ou ego. Sem preconceitos preconcebidos.

A independência jornalística não é ficar neutro. Embora os editorialistas e os comentaristas não sejam neutros, a fonte de sua credibilidade ainda é sua precisão, imparcialidade intelectual e capacidade de informar – não sua devoção a um determinado grupo ou resultado financeiro. Mas, na maioria das vezes, os profissionais se perdem em arrogância, elitismo, isolamento ou niilismo.

Mais uma função essencial para o bom jornalista: servir como um monitor independente de poder. O jornalismo deve tem uma capacidade incomum de servir como protetor sobre aqueles cujo poder e posição mais afetam os cidadãos. Pode também oferecer voz aos sem voz. Ser um coordenador independente do poder significa vigiar os poderosos da sociedade em nome de muitos para se protegerem contra a tirania. Os primeiros jornalistas estabeleceram firmemente como princípio central a responsabilidade de examinar os cantos invisíveis da sociedade.

No Brasil, os meios de comunicação acabaram recebendo privilégios ou melhor polpudas verbas publicitárias com o dinheiro público, o que acabou com a suposição de que o jornalismo – por causa de seus princípios e práticas – forneceria um fluxo constante de conteúdo de maior qualidade para os cidadãos e o governo usaria isso para tomar as melhores decisões. Isso não ocorreu, pois o dinheiro falou mais alto.

Jornalismo é contar histórias com um propósito, que deve ser medida tanto pelo quanto um trabalho atrai público e o informa. Isso significa que os jornalistas devem continuamente perguntar quais informações são mais valiosas para os cidadãos e de que forma as pessoas são mais propensas a assimilá-las.

Enquanto o jornalismo deve ir além de tópicos como governo e segurança pública, ele não pode ser dominado por trivialidades e significados falsos, trivializando o diálogo cívico e, em última instância, a política pública. Hoje, qualquer pessoa plugada nas redes sociais, mais do que nunca, trabalha como jornalista. Escrever um post em um blogue, comentar em um site de mídia social, enviar um tweet ou curtir uma foto, provavelmente envolve uma versão abreviada do processo jornalístico.

Dessa forma, alguém se depara com informações, decide se é ou não acreditável, avalia suas forças e fraquezas, determina se tem valor para os outros, decide o que ignorar e o que transmitir, escolhe a melhor maneira de compartilhá-las e, em seguida, aperta a tecla do celular ou do computador. Embora esse processo possa levar apenas alguns segundos, é essencialmente o que os repórteres fazem.

Contudo, duas coisas separam esse processo jornalístico de um produto final que é o jornalismo com qualidade. O primeiro é motivo e intenção. O objetivo do jornalismo é dar às pessoas as informações necessárias para ela tomar as melhores decisões sobre suas vidas e sobre a sociedade.

A segunda diferença é que o jornalismo envolve a aplicação consciente e sistemática de uma disciplina de verificação para produzir uma verdade funcional, em oposição a algo que é meramente interessante ou informativo. Mas, enquanto o processo é crítico, o produto final – a história – do jornalismo será julgado em última instância.

Com a internet, que alterou tudo na vida dos seres humanos, o novo jornalista não é mais um porteiro que decide o que o público deveria e não deveria saber. O indivíduo é agora seu próprio gerente e editor de circulação. Para ser relevante, os tais jornalistas das redes sociais devem agora verificar as informações que o consumidor já tem ou é provável encontrar e, em seguida, ajudá-los a entender o que isso significa e como eles podem usá-las.

Se a imprensa representa o quarto poder, depois do executivo, legislativo e judiciário, a liberdade de opinião tem levado os meios de comunicação de massa a constantemente extrapolar as garantias constitucionais dos cidadãos e de instituições, pela busca de audiência, por meio do sensacionalismo, ou para atender seus interesses econômicos e políticos, com a seleção e a veiculação de notícias específicas.

A informação veiculada com responsabilidade e desprovida de compromisso com as partes envolvidas, visando exclusivamente o esclarecimento de fatos e ideias, produz efeito benéfico na opinião pública. Assim, o jornalista moderno deveria se preocupar com o domínio não apenas da teoria e da prática específicas de sua profissão, mas também como o ordenamento jurídico nacional, conhecimento basilar para o desenvolvimento de um jornalismo voltado ao interesse público, sem abdicar de sua tarefa de agente crítico das demais instituições e poderes nacionais.

Enfim, a principal tarefa do novo jornalista é verificar quais informações são confiáveis e depois compartilha-las para que as pessoas possam compreendê-las com eficiência. Uma parte dessa nova responsabilidade jornalística é fornecer aos cidadãos as ferramentas de que precisam para extrair conhecimento para si mesmos. Isso pode diferenciar da inundação de rumores indiferenciados, propaganda, fofoca, fato, ruído, afirmação e alegação que o sistema de comunicações está produzindo atualmente no Brasil.

hayrton

Hayrton Rodrigues do Prado Filho

hayrton@hayrtonprado.jor.br



Categorias:Editorial

Tags:, , , ,

1 resposta

  1. Excelente matéria. É triste percebermos que parte de profissionais jornalistas não tem o mínimo de lisura com a verdade e enfeiam esta nobre profissão, não sei se por interesse financeiro, ideologia ou falta de caráter mesmo. A importância da imprensa livre e inestimável, razão pela qual, seria contributivo para a democracia, se a própria imprensa se auto-analisasse e contribuísse rigorosamente com busca de verdade para noticiar, de modo a permitir ao leitor refletir com isenção.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: