O trabalho e as tecnologias digitais

Não só no Brasil, mas no mundo, o trabalho está em um estado de fluxo contínuo de mudanças, o que está causando uma ansiedade considerável – e com boas razões. Há uma crescente polarização das oportunidades do mercado de trabalho entre empregos de alta e baixa qualificação, desemprego e subemprego, especialmente entre os jovens, renda estagnada para uma grande proporção de domicílios e desigualdade de renda. A migração e os seus efeitos no emprego tornaram-se uma questão política sensível em muitas economias avançadas. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de autoria dos pesquisadores Aguinaldo Nogueira Maciente, Cristiane Vianna Rauen e Luis Cláudio Kubota, mostrou uma tendência de extinção de atividades que envolvem força física e valorização de habilidades cognitivas e gerenciais. Ou seja, a cada dia, as novas tecnologias estão mais presentes no dia a dia dos brasileiros. Apesar de todos os benefícios, os avanços podem impactar na oferta de algumas funções no trabalho, principalmente nas indústrias.

emprego2Hayrton Rodrigues do Prado Filho –

Atualmente, o desenvolvimento da automação possibilitada por tecnologias que incluem robótica e inteligência artificial traz a promessa de maior produtividade (e com produtividade, crescimento econômico), maior eficiência, segurança e conveniência. Mas, essas tecnologias também levantam questões difíceis sobre o impacto mais amplo da automação em empregos, habilidades, salários e a própria natureza do trabalho.

Muitas atividades que os trabalhadores realizam hoje têm o potencial de serem automatizadas. Ao mesmo tempo, sites de correspondência de empregos como o linkedin e o monster estão mudando e expandindo a forma como as pessoas procuram trabalho e as empresas identificam e recrutam talentos.

Os trabalhadores independentes estão cada vez mais optando por oferecer seus serviços em plataformas digitais, incluindo upwork, uber e etsy e, no processo, desafiando ideias convencionais sobre como e onde o trabalho é realizado. Para os formuladores de políticas, os líderes empresariais e os próprios trabalhadores, essas mudanças criam uma incerteza considerável, juntamente com os benefícios potenciais.

O desemprego e o subemprego aumentam em todo o mundo. Nos Estados Unidos e nos 15 países centrais da União Europeia (UE-15), há 285 milhões de adultos que não estão na força de trabalho – e pelo menos 100 milhões deles gostariam de mais trabalho. Cerca de 30% a 45% da população em idade ativa em todo o mundo é subutilizada – isto é, desempregada, inativa ou subempregada.

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Isso representa cerca de 850 milhões de pessoas nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Alemanha, no Japão, no Brasil, na China e na Índia. A maior parte da atenção é dada à parcela desempregada desse número, e não o suficiente para as partes subempregadas e inativas, que compõem a maioria do potencial humano inexplorado.

A grande maioria das pessoas obtém rendimentos de empregos. Nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e nas economias avançadas, os rendimentos do mercado (de salários e capital) estagnaram ou caíram para cerca de dois terços dos agregados familiares em 2005-14, um período marcado por profunda recessão e recuperação lenta após a crise financeira de 2008.

A denominada globalização trouxe inúmeros benefícios, incluindo a remoção de milhões de pessoas nas economias emergentes para a classe consumista. Mas, também, teve impacto em alguns setores, como a manufatura nas economias avançadas, com alguns empregos sendo transferidos para o exterior. Um melhor apoio poderia ter sido fornecido para ajudar os trabalhadores afetados a desenvolver novas habilidades e fazer a transição para novos setores ou ocupações.

Os sistemas educacionais não estão acompanhando a natureza mutável do trabalho, resultando em muitos empregadores dizendo que não conseguem encontrar trabalhadores suficientes com as habilidades de que necessitam. Aproximadamente 40% dos empregadores acreditam que a falta de habilidades era a principal razão para vagas de emprego de nível iniciante. 60% acham que os recém-formados não estavam adequadamente preparados para o mundo do trabalho.

A migração de trabalhadores entre fronteiras tem sido uma consequência natural em um mundo no qual as pessoas não encontram oportunidades de trabalho atraentes em seu país de origem, em um momento em que outras economias não estão preenchendo adequadamente suas lacunas de habilidades. A migração impulsiona a produtividade global, mas suas consequências são frequentemente temidas por trabalhadores nativos, que enfrentam desconexões no mercado de trabalho e a falta de empregos bem remunerados.

Uma observação deve ser feita: a mudança tecnológica reformulou o local de trabalho continuamente ao longo dos últimos dois séculos desde a Revolução Industrial, mas a velocidade com que as tecnologias de automação estão se desenvolvendo hoje e a escala na qual elas poderiam perturbar o mundo do trabalho são amplamente sem precedentes. À medida que as máquinas evoluem e adquirem recursos de desempenho mais avançados que correspondem ou excedem as capacidades humanas, a adoção da automação tenderá a aumentar.

Contudo, a viabilidade técnica para automatizar não se traduz normalmente na sua implantação no local de trabalho. O potencial técnico é apenas o primeiro de vários elementos que devem ser considerados. Um segundo elemento é o custo de desenvolver e implantar o hardware e o software para automação.

A dinâmica de oferta e demanda de mão de obra é um terceiro fator: se os trabalhadores com habilidades suficientes para a ocupação dada são abundantes e significativamente mais baratos que a automação, isso poderia desacelerar a taxa de adoção. Um quarto a ser considerado são os benefícios da automação além da substituição de mão de obra – incluindo níveis mais altos de produção.

Finalmente, as questões regulatórias e sociais, como o grau em que as máquinas são aceitáveis em qualquer ambiente também devem ser avaliadas. É por esses vários motivos, que vão além da viabilidade puramente técnica da automação, que as estimativas para a sua adoção são menores. Os especialistas calculam que pode levar pelo menos duas décadas até que a automação atinja 50% de todas as atividades de trabalho atuais, levando em conta regiões onde os salários são relativamente baixos.

A pesquisa do Ipea, feita com base em dados de 2003 e 2017, conclui que o trabalho que envolve força física – como classificação e separação de objetos, controle de estoques e operação de máquinas – tende a perder importância e ser substituído pela automação, sobretudo nos países em que os salários sejam relativamente mais elevados. Em termos educacionais, o estudo do Ipea mostra que houve uma expansão de 19,3% nos anos de estudo dos trabalhadores formais civis no Brasil entre 2003 e 2017.

A qualidade das ocupações disponíveis, no entanto, não acompanhou esse crescimento. “A população está cada vez mais escolarizada, mas isso não tem se traduzido em empregos que exijam melhores habilidades”, ressalta Aguinaldo Nogueira Maciente, coordenador de Estudos e Pesquisas em Trabalho e Desenvolvimento Rural do Ipea e um dos autores da publicação.

A pesquisa revelou, ainda, que as habilidades que terão maior importância no futuro são as cognitivas, como as que envolvem o raciocínio e o domínio de linguagens; interpessoais, como o cuidado e o contato humano; gerenciais e habilidades ligadas às ciências, tanto as da natureza quanto as sociais ou aplicadas. Acrescente a isso, que historicamente, a introdução de novas tecnologias e suas consequências para o mundo do trabalho são inerentes à história econômica.

As principais revoluções na capacidade de trabalho humano se iniciaram há cerca de 10.000 anos, com a chamada revolução agrícola, que combinou a domesticação animal e novas tecnologias de plantio para a expansão da produção, do transporte, das comunicações e, em escala crescente, da urbanização. Já nos primórdios do capitalismo, surgiu na Inglaterra, em fins do século XVIII, a primeira revolução industrial que, baseada na energia a vapor e na mecânica, possibilitou a expansão sem precedentes da metalurgia, da produção têxtil e dos transportes.

Esta revolução se fundamentou na complementaridade entre o capital fabril e a mão de obra de baixa qualificação que, combinados, substituíram a produção artesanal, relativamente mais qualificada, mas limitada em sua capacidade de produção. A segunda revolução industrial surgiu cerca de um século depois, em fins do século XIX, baseada na energia elétrica e na linha de produção, que possibilitaram a produção em massa.

Ela foi acompanhada também de grandes avanços nas comunicações, com o surgimento do telégrafo e, posteriormente, do telefone. A partir da segunda revolução industrial, o capital e o trabalho qualificado passaram a ser complementares, e o trabalho de mais baixa qualificação passou a ser gradualmente substituído na produção fabril.

A terceira revolução industrial, também chamada de revolução digital, surgiu a partir dos anos 1960, com o desenvolvimento do computador, acompanhada, nos anos 1990, da difusão da internet. A partir desta revolução, uma vez mais o capital físico passou a substituir o trabalho qualificado, ao reduzir de forma generalizada a demanda por trabalho rotineiro; por exemplo, as tarefas desempenhadas por trabalhadores de escritório e de chão de fábrica.

A chamada quarta revolução industrial, em pleno curso na atualidade, baseia-se na difusão e integração das tecnologias já utilizadas desde os anos 1970, por meio das tecnologias de informação e comunicação (TIC), bem como em novos avanços tecnológicos nos campos da inteligência artificial, da nanotecnologia e da biologia. A fusão dessas tecnologias nos domínios físico, digital e biológico tem o potencial de tornar a quarta revolução fundamentalmente diferente das anteriores.

Tanto a velocidade das transformações quanto o escopo das atividades humanas que ela afetará serão muito maiores. Enquanto em décadas passadas os trabalhadores afetados se concentravam na linha de produção ou nas camadas gerenciais intermediárias, essa revolução traz em seu bojo a possibilidade de automação de atividades altamente especializadas e não rotineiras. A transformação digital tem impactado os padrões de atividade, de interação humana e de produção em ritmo e escala sem precedentes.

Novas tecnologias, como big data analytics, inteligência artificial, machine learning, cloud computing, internet das coisas (IoT) e manufatura 4.0, são reflexo das possibilidades ensejadas pelas transformações do mundo digital. Viabilizada por esse ecossistema baseado em dados e inserida no que se convencionou definir como a quarta revolução industrial, a conectividade entre sistemas de tecnologia da informação (TI), subsistemas, processos, objetos e aplicativos, que se comunicam entre si e com humanos, está transformando os processos de produção e está se tornando um diferencial competitivo entre as empresas e os países.

As estimativas levantadas por alguns pesquisadores mostram que o mundo alcançará a marca de mais de 30 bilhões de dispositivos conectados à internet em 2020 e, de acordo com relatório publicado pelo McKinsey Global Institute em 2015, o impacto da IoT nos diversos setores econômicos pode chegar a US$ 11,1 trilhões em 2025, o que corresponderia a 11% da economia global. Isso envolve os padrões da manufatura 4.0 como aqueles baseados na completa digitalização dos processos produtivos, em que se associam componentes físicos e digitais em uma mesma planta produtiva.

Entre os processos de digitalização da manufatura, estão incluídos: o embarcamento de sensores em praticamente todas as peças componentes e equipamentos fabris; a utilização de sistemas ciberfísicos, de sistemas de segurança e de monitoramento de consumo energético; e o emprego de sistemas analíticos e de monitoramento de dados relevantes para a produção. Trata-se de um modelo da fábrica inteligente, no qual sistemas controlados por computador monitoram processos, criam uma cópia virtual do mundo físico e tomam decisões descentralizadas com base em mecanismos de auto-organização.

Seja como insumo estratégico para os negócios, seja no segmento produtivo ou de serviços, o diferencial competitivo conferido por novos fatores de produção baseados em dados alterou o modo como agentes percebem a dinâmica econômica e as formas de apropriação da riqueza. As alterações nos padrões sociais e tecnológicos impostos pela atual revolução tecnológica impõem a necessidade de ajustes nas políticas públicas, em particular daquelas relacionadas ao mercado de trabalho, na medida em que grande parte dessas tecnologias se propõe a substituir atividades humanas, manuais e cognitivas, antes exclusivamente humanas, por soluções automatizadas.

Segundo o Ipea, a literatura aponta os prognósticos diferenciados sobre o impacto das novas tecnologias digitais sobre o emprego. Alguns autores têm estudado o conjunto de atividades que tenderiam, com o avanço tecnológico, a não ser mais desempenhadas por trabalhadores, enquanto outros dão uma ênfase maior para as tarefas que continuarão a ser desempenhadas pelos trabalhadores.

Nos estudos pioneiros sobre o tema, as atividades são classificadas em rotineiras e não rotineiras. As atividades rotineiras seriam aquelas mais negativamente afetadas pelas novas tecnologias, passando a ser realizadas por máquinas e/ou computadores; o que não ocorreria com as atividades não rotineiras.

Uma tarefa rotineira é aquela passível de desmembramento em passos previsíveis e codificáveis numa sucessão de comandos lógicos. Ao longo dos anos 2000, e até meados da década atual, alguns trabalhos empíricos corroboraram as predições dessa linha de estudos. No entanto, estudos mais recentes têm alertado para o fato de que a distinção entre, de um lado, tarefas rotineiras e não rotineiras e, de outro, entre tarefas negativamente ou positivamente afetadas por novas tecnologias deve ser questionada nos dias de hoje. O grau de complexidade das novas tecnologias permite que as máquinas/os computadores modernos sejam capazes de desempenhar um conjunto cada vez maior de atividades não rotineiras.

As atividades de dirigir carro e de traduzir textos em diferentes idiomas, por exemplo, poderiam ser consideradas não rotineiras por não serem passíveis de se codificar via sucessão de comandos lógicos. No entanto, ambas já podem ser desempenhadas por máquinas ou computadores, tendo sido possibilitadas pela utilização de enormes bases de dados – mapas de rua e textos da Organização das Nações Unidas (ONU), para exemplificar –, combinadas a algoritmos sofisticados de busca de padrões.

Em suma, é como se a fronteira entre atividades impactadas negativamente e positivamente pelas novas tecnologias esteja sendo continuamente deslocada, no sentido de aumentar o leque de atividades que possam ser desempenhadas por máquinas ou computadores. A segunda dimensão apontada na literatura diz respeito à alocação do conjunto de tarefas que continuariam a ser desempenhadas pelos trabalhadores e seu efeito sobre o grau de especialização dos trabalhadores.

Dessa forma, entram duas dimensões. Primeiro, para determinar o número de tarefas a ser alocado para um trabalhador, é necessário ter em conta que um número menor de tarefas, decorrentes da presença cada vez maior da automação, permite uma maior especialização, que tende a ser associada a ganhos de produtividade. Já um conjunto menor de atividades por trabalhador tende a aumentar o custo de coordenação entre os trabalhadores, para que o conjunto completo de tarefas seja realizado de forma satisfatória.

As novas tecnologias, sobretudo as de comunicação, tendem a diminuir o custo de coordenação e favorecer um maior grau de especialização dos trabalhadores, com um possível aumento dos níveis hierárquicos. Mas, há que se considerar outro dilema na alocação das tarefas remanescentes entre os trabalhadores.

No desempenho de uma tarefa, todo trabalhador está sujeito a se deparar com um problema novo. Quando isso ocorre, há duas opções: ou o próprio trabalhador procura a solução, sacrificando tempo de produção, ou o trabalhador aciona outro trabalhador mais especializado em resolver problemas (gerentes ou supervisores).

As novas tecnologias, sobretudo as de informação, favorecem a busca de soluções pelo próprio trabalhador, levando a uma redução dos níveis hierárquicos das empresas. Nesse sentido, ainda não está claro qual será o impacto líquido das novas tecnologias digitais sobre o grau de especialização e hierarquização dos trabalhadores, o que pode trazer diferentes impactos para a natureza dos empregos a serem gerados no futuro, sobretudo em termos das habilidades requeridas.

Independentemente, porém, das incertezas ainda existentes diante de um cenário de grandes e rápidas transformações, alguns aspectos do futuro do trabalho já parecem ser consensuais. O trabalho que envolve força física, classificação e separação de objetos, controle de estoques e operação de máquinas tende a perder importância, sobretudo nos países em que os salários sejam relativamente mais elevados. Por sua vez, habilidades cognitivas, como as que envolvem o raciocínio e o domínio de linguagens, habilidades interpessoais, como o cuidado e o contato humano, habilidades gerenciais e habilidades ligadas às ciências, tanto as da natureza quanto as sociais ou aplicadas, terão maior importância no futuro.

No Brasil, a introdução de tecnologias relacionadas à quarta revolução industrial é ainda incipiente, principalmente devido às deficiências na infraestrutura de comunicações, ao alto custo de importação de máquinas e equipamentos e ao reduzido grau de inovação tecnológica verificado para o conjunto da economia, como atestam os dados da Pesquisa de Inovação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pintec/IBGE) na última década.

Alguns setores mais produtivos da indústria e alguns serviços aplicados a tecnologias mais difundidas, como smartphones, por exemplo, já têm avançado na substituição de formas tradicionais de produção e venda de bens e serviços. Isso, porém, não tem sido suficiente para alterar significativamente o perfil do emprego no país.

Em termos educacionais, houve uma expansão de 19,3% nos anos de estudo dos trabalhadores formais civis no Brasil entre 2003 e 2017. A melhoria na qualidade das ocupações disponíveis no mercado de trabalho, no entanto, cresceu em níveis muito inferiores, como mostra o gráfico abaixo. A escolaridade mínima média exigida para o desempenho das ocupações civis no país cresceu apenas 3,5%, enquanto o nível médio de habilidades cognitivas exigidas para o exercício dessas ocupações cresceu somente 4,1% no mesmo período.

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Do ponto de vista regional, a figura abaixo classifica as mesorregiões do país segundo dois critérios. As mesorregiões que estavam em 2017 entre a metade com maior utilização de habilidades cognitivas foram classificadas como de alta utilização dessa habilidade, enquanto as que estavam na metade inferior foram classificadas como de baixa utilização.

Aquelas que estão na metade que apresentou maior crescimento percentual na utilização dessas habilidades no período foram classificadas como de alto crescimento, enquanto as que ficaram na metade com menor crescimento – ou decréscimo – foram classificadas como de baixo crescimento. Foram classificadas como demais as regiões que estavam entre as 30% com menor emprego total em 2016, e foi desconsiderado o emprego da administração pública.

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A evolução favorável da utilização de habilidades cognitivas, denotada pela coloração verde na figura acima, diferencia as regiões com uma evolução favorável ao longo do período. Nota-se uma maior concentração de regiões com desempenho favorável no Sul e no Sudeste, nas mesorregiões da região Centro-Oeste que se encontram vizinhas da região Sudeste, além de mesorregiões na Bahia, no Ceará, no Rio Grande do Norte, no Maranhão, em Pernambuco e na Paraíba. Os estados do Amazonas, de Rondônia, de Roraima, do Mato Grosso, de Goiás e do Piauí apresentam a evolução menos favorável no conjunto de suas mesorregiões.

Padrões muito semelhantes são verificados em relação à distribuição de habilidades de engenharia e design e de TI, por exemplo. Chama atenção, entre as mesorregiões de alta utilização de habilidades, mais baixo dinamismo no período, nas mesorregiões do sudeste de São Paulo e do sul do Rio de Janeiro, que concentram uma importante parcela do emprego manufatureiro.

Dessa forma, os pesquisadores do Ipea apontam que o panorama de baixa qualificação e baixa utilização de habilidades de alto nível nas ocupações brasileiras – particularmente, as cognitivas, em design e engenharia e em tecnologia da informação – indica uma alta vulnerabilidade do país às novas demandas tecnológicas. São particularmente preocupantes a persistente desigualdade regional e a estagnação intertemporal, que ocorre em três níveis: na utilização geral de habilidades no país; na utilização de habilidades desagregadas por setores de atividade; e na evolução de algumas regiões tradicionalmente importantes para a produção manufatureira, sobretudo no eixo Rio-São Paulo.

Assim, o caminho para preparar o Brasil para o futuro do trabalho é longo e desafiador. São de particular importância a melhoria dos sistemas de educação, em todos os níveis, de modo a possibilitar a redução das desigualdades e da evasão entre os jovens e o ensino de competências e habilidades de maior valor cognitivo e analítico. São também importantes a criação e a manutenção de um sistema de informações ocupacionais e uma maior integração e coordenação das políticas de educação, recolocação profissional e treinamento profissional.

Enfim, o impacto transformador da tecnologia no ambiente de trabalho moderno é evidente. As reuniões presenciais muitas vezes deram lugar a videoconferências, salas de correspondência para caixas de entrada de e-mail e máquinas de escrever e papel carbono para processadores de texto. A tecnologia também permitiu que uma parte substancial do trabalho – e a força de trabalho – ultrapassasse os limites de um escritório tradicional. É comum que profissionais conectados digitalmente realizem parte de seu trabalho em cafés ou lojas, em casa, até mesmo à beira da piscina, durante as férias.

Esta revolução tecnológica traz consigo muitos benefícios óbvios. Os colegas podem se comunicar facilmente através de regiões geográficas, reduzindo simultaneamente despesas, danos ambientais e desgaste corporal. O software de código aberto, os mecanismos de pesquisa e os serviços de compras online permitem reunir em poucos cliques as ferramentas e as informações de que se precisa para que todos sejam produtivos.

Mapas online, sistemas de posicionamento global e serviços de tradução em tempo real ajudam a navegar por lugares desconhecidos e a se comunicar com os mais variados locais. Mas, há desvantagens infundidas pela tecnologia. Particularmente preocupantes são os aspectos envolventes – alguns temem a dependência – das tecnologias digitais, que podem esvaziar os recursos realmente finitos: o tempo e a atenção.

Embora as empresas possam se beneficiar com o aumento da produtividade viabilizado pela tecnologia no curto prazo, a indefinição da linha entre trabalho e vida segue uma lei de retornos decrescentes. O valor derivado do funcionário sempre ativo pode ser prejudicado por fatores negativos, como o aumento da carga cognitiva e a diminuição do seu desempenho e do seu bem-estar.

Em suma, as tecnologias digitais e móveis oferecem muita coisa boa, mas elas também podem deixar as pessoas na mão. Cabe a líderes de talento e de tecnologia pesar as eficiências permitidas por funcionários sempre conectados com o aumento de demandas por tempo e atenção escassos e danos a longo prazo à produtividade, desempenho e bem-estar dos funcionários.

Tirar o máximo proveito da tecnologia e das pessoas não é simplesmente exigir contenção. Trata-se de projetar tecnologias digitais que facilitem o cultivo de hábitos saudáveis de seu uso e não um comportamento viciante. É possível que os líderes e gestores das organizações desempenhem um papel ativo na criação de locais de trabalho que incentivem a adoção de hábitos saudáveis em relação à tecnologia digital.



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2 respostas

  1. Prezados, boa tarde. Matéria muito boa, mas senti a necessidade de se comentar que a tecnologia está desencadeando o surgimento de novas doenças ocupacionais.

  2. O que chamam de Fábrica 4.0 , IoT , 4G , 5G , etc… são protocolos de de tecnologia que no Brasil é mais usada em Marketing do que onde deveria ser; que é a técnica onde é utilizada, mas isso não importa aqui, acho que não existe tecnologia no Brasil, exceto o agricultura e pecuária. Não temos união de ideias para desenvolver novos produtos e processos, isso é o que falta na política brasileira. Dois exemplos para provar esta teoria são: “4.5 G” nunca existiu porque 3G ,4G ou 5G é a geração envolvida, não tem o porque técnico envolvido, outra pergunta é porque nós produzimos a soja e poderíamos transformar em óleo, farelo, etc… nas estradas onde hoje transitam do produtor até o porto de destino sem nada de processo e sempre tem gargalos de caminhões e caminhões nos portos, isso é o Brasil; e funciona mesmo assim, imagina se fosse sério!

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