A formação dos metrologistas em calibração

A calibração representa as operações que estabelecem, sob condições específicas, a relação entre os valores indicados por um instrumento de medição, sistema de medição ou valores representados por uma medida materializada ou material de referência aos valores correspondentes às grandezas estabelecidas por padrões. Pode-se dizer calibrar significa colocar um instrumento de medição em condições de utilização, por meio da comparação dos valores das medições fornecidos pelo instrumento com os valores padrão, aplicando-se quando necessário, o ajuste ou regulagem. As calibrações podem ser realizadas por quem tem conhecimentos e meios para realizá-las. Caso seja realizada com o devido rigor técnico e respeitando as exigências de padrões, condições ambientais e tendo um procedimento claro, os resultados da calibração serão tecnicamente aceitáveis. Por isso, a importância dos metrologistas em calibração que devem ter competência para executar a calibração de instrumentos de medição de acordo com procedimento de calibração e sob a supervisão definida pelo empregador.

metrologista2Da Redação –

A calibração deve ser realizada em todos os instrumentos de medição que tiverem influência na exatidão ou validade dos ensaios, incluindo aqueles não diretamente vinculados à medição como, por exemplo, os de controle do ambiente de trabalho ou de armazenamento de amostras, que devem ser calibrados antes de serem colocados (ou recolocados) em serviço. Nem todos os instrumentos de medição necessitam de calibração, contudo o bom senso técnico deve prevalecer sempre que houver alguma dúvida e de modo geral devem ser calibrados aqueles instrumentos que são usados para controlar qualidade, sejam eles de clientes, próprios ou emprestados.

Conforme a NBR ISO 9001 de 09/2015 – Sistemas de gestão da qualidade – Requisitos − que especifica requisitos para um sistema de gestão da qualidade quando uma organização: necessita demonstrar sua capacidade para prover consistentemente produtos e serviços que atendam aos requisitos do cliente e aos requisitos estatutários e regulamentares aplicáveis, e visa aumentar a satisfação do cliente por meio da aplicação eficaz do sistema, incluindo processos para melhoria do sistema e para a garantia da conformidade com os requisitos do cliente e com os requisitos estatutários e regulamentares aplicáveis −, em seu item 7.1.5 Recursos de monitoramento e medição, a organização deve determinar e prover os recursos necessários para assegurar resultados válidos e confiáveis quando monitoramento ou medição for usado para verificar a conformidade de produtos e serviços com requisitos.

A organização deve assegurar que os recursos providos: sejam adequados para o tipo específico de atividades de monitoramento e medição assumidas; sejam mantidos para assegurar que estejam continuamente apropriados aos seus propósitos. A organização deve reter informação documentada apropriada como evidência de que os recursos de monitoramento e medição sejam apropriados para os seus propósitos.

Quando a rastreabilidade de medição for um requisito, ou for considerada pela organização uma parte essencial da provisão de confiança na validade de resultados de medição, os equipamentos de medição devem ser: verificados ou calibrados, ou ambos, a intervalos especificados, ou antes do uso, contra padrões de medição rastreáveis a padrões de medição internacionais ou nacionais; quando tais padrões não existirem, a base usada para calibração ou verificação deve ser retida como informação documentada; identificados para determinar sua situação; salvaguardados contra ajustes, danos ou deterioração que invalidariam a situação de calibração e resultados de medições subsequentes. A organização deve determinar se a validade de resultados de medição anteriores foi adversamente afetada quando o equipamento de medição for constatado inapropriado para seu propósito pretendido, e deve tomar ação apropriada, como necessário.

Os resultados da calibração do instrumento de medição, expressos em um certificado de calibração, são importantes, pois fornecem as informações válidas e úteis que podem auxiliar na tomada de decisões gerenciais, como por exemplo, para correções a serem realizadas no processo de medição. Permite ainda, o estabelecimento da correspondência entre a indicação do instrumento de medição e o valor padrão.

Assim, as empresas devem estabelecer um programa de calibração/manutenção dos instrumentos de medição, que contemple os critérios para calibração/manutenção, incluindo os parâmetros a serem calibrados; as metodologias; as frequências e quando procedente, o laboratório ou organismo responsável pelas calibrações. Tudo isso é fundamental para que as medições, feitas em laboratório, possam ser rastreáveis aos padrões de medidas estabelecidos.

A frequência da calibração deve ser estabelecida em um procedimento, sendo o critério escolhido por meio de uma série de fatores, tais como: tipo de equipamento e periodicidade estabelecida pelo fabricante; análise da tendência conforme os dados das calibrações anteriores; histórico de uso e manutenção; comparações com periodicidade de equipamentos similares; e acurácia da medida. Não se deve esquecer de que um instrumento de medição tem um tempo de vida útil. Esse fato muitas vezes é esquecido pelos usuários e gestores de equipamentos de medição. O entendimento da necessidade de avaliar o desempenho de um equipamento de medição ao longo do tempo é fundamental para a confiabilidade dos resultados de medição e na obtenção da qualidade de produtos e processos.

De uma forma simplificada a calibração é uma comparação entre os valores de um equipamento de medição/medida materializada/material de referência e os valores estabelecidos por padrões sob condições especificas, tais como: temperatura ambiental, ausência de poeira e vibrações, tensão de alimentação, etc. As calibrações devem ser realizadas com base em referências técnicas, tais como normas nacionais e internacional, documentos orientativos do Inmetro, procedimentos internos de laboratórios, recomendações de fabricantes, etc. Usualmente são realizadas por laboratórios de calibração que podem oferecer serviços acreditados (RBC) ou rastreados (utilizando padrões calibrados em laboratórios acreditados pela RBC).

Os laboratórios pertencentes a Rede Brasileira de Calibração (RBC) atendem à NBR ISO/IEC 17025 de 12/2017 – Requisitos gerais para a competência de laboratórios de ensaio e calibração que especifica os requisitos gerais para a competência, imparcialidade e operação consistente de laboratórios. Eles possuem sua competência técnica avaliada pela CGCRE/Inmetro. Os laboratórios com serviço rastreado normalmente atendem à NBR ISO 9001 e possuem seus padrões calibrados nos laboratórios da RBC.

Um certificado deve apresentar diversas informações sobre o procedimento e as condições de calibração. Usualmente é apresentado uma tabela ou um gráfico como resultado de cada ponto medido ao longo da faixa de medição do equipamento, bem como as estimativas do erro ou correção e da incerteza expandida associada ao erro ou correção. Com as informações apresentadas em um certificado de calibração é possível avaliar o desempenho do equipamento comparando com especificações de uma norma, do fabricante, ou em acordo com a tolerância do processo.

Em plena era da globalização não existe mais espaço para produtos e serviços de baixa qualidade. Para as empresas, é crucial a manutenção e melhoria da qualidade de seus produtos, serviços e processos. A qualidade deve ser obtida a qualquer custo, o que só acontece quando se utilizam os equipamentos de medição confiáveis e devidamente calibrados.

A NBR 16781 de 06/2019 – Qualificação e certificação de metrologistas em calibração estabelece a sistemática para a qualificação e certificação de metrologistas em calibração. É aplicável a todos os grupos de serviço de calibração, conforme legislação vigente. A certificação é obtida pelo candidato por meio do cumprimento de exames teóricos e práticos. A certificação, em qualquer modalidade, pressupõe o preenchimento de pré-requisitos relacionados com grau de escolaridade, treinamento e/ou experiência profissional.

O Organismo de Certificação de Pessoas (OPC) deve estar estruturado e operar conforme a NBR ISO/IEC 17024. Os Centros de exames de qualificação (CEQ) são as instalações ou dependências de organizações aprovadas pelo OPC, e que podem ser organizados por empresas e instituições públicas ou privadas. Os critérios para credenciamento de CEQ são estabelecidos pelo OPC.

O CEQ deve: aplicar os exames de qualificação; aplicar um sistema da gestão da qualidade documentado, aprovado pelo OPC; possuir recursos necessários para aplicar exames, incluindo as calibrações e controle dos equipamentos; preparar e conduzir os exames sob a responsabilidade de um examinador autorizado pelo OPC; possuir pessoal qualificado, instalações e equipamentos adequados para garantir exames de qualificação satisfatórios para as modalidades em questão; usar apenas os documentos e questionários de exames estabelecidos e/ou aprovados pelo OPC; se responsabilizar para garantir a segurança de todos os materiais de exame (corpo de prova, gabarito, banco de questões, etc.); manter corretamente os registros de acordo com as exigências do OPC.

O empregador/contratante deve validar as informações pessoais prestadas, quando solicitado. A documentação deve conter declarações de formação escolar, treinamento e experiência necessários para estabelecer a elegibilidade do candidato. O empregador/contratante deve assumir responsabilidade total pelos trâmites que envolvem autorização para trabalhar, incluindo a validade dos resultados.

No caso de profissional autônomo este é considerado empregador, devendo assumir todas as responsabilidades atribuídas a este. Os profissionais são classificados em três níveis crescentes de qualificação. O metrologista em calibração nível 1 (N1) é uma pessoa certificada como nível 1 e deve demonstrar competência para executar a calibração de instrumentos de medição de acordo com procedimento de calibração e sob supervisão definida pelo empregador.

Dentro do escopo de competências definido no certificado, o profissional nível 1 deve ser capaz de e pode ser autorizado pelo empregador para: instalar e preparar os instrumentos de medição envolvidos na calibração de acordo com procedimento de calibração; utilizar padrões definidos pelo procedimento de calibração; realizar a calibração conforme definido em 5.1.1; registrar os dados obtidos durante a execução do procedimento de calibração. Uma pessoa certificada como Nível 1 não pode ter a responsabilidade de definir o método de calibração a ser utilizado nem a responsabilidade de avaliar o resultado da calibração.

O metrologista em calibração nível 2 (N2) é uma pessoa certificada e deve ser capaz de executar também as atividades de um profissional N1. Dentro do escopo de competências definido no certificado, o profissional nível 2 deve ser capaz de e pode ser autorizado pelo empregador para: elaborar procedimento de calibração; identificar as fontes de incertezas envolvidas no processo de calibração; executar cálculos, inclusive os de incerteza, envolvidos no processo de calibração; selecionar o procedimento de calibração para o instrumento de medição a ser calibrado; definir as limitações da calibração com base em análise crítica do processo de calibração; interpretar os procedimentos de calibração e sugerir adequações; ajustar o instrumento de medição; avaliar resultados de acordo com normas, especificações, procedimentos ou padrões aplicáveis; executar e supervisionar todas as tarefas de profissionais níveis 1 ou 2; prover orientação para profissional nível 1 ou 2; organizar e relatar os resultados de uma calibração; e elaborar e analisar certificados de calibração.

O metrologista em calibração nível 3 (N3) deve ser capaz de executar também as atividades realizadas pelo N2. Dentro do escopo de competências definido no certificado, o profissional nível 3 deve ser capaz de e pode ser autorizado pelo empregador para: aprovar procedimentos de calibração e instruções de trabalho; validar métodos de calibração; interpretar normas, especificações e procedimentos; supervisionar as atividades técnicas de seu escopo de certificação; orientar os profissionais de todos os níveis; avaliar e interpretar os resultados de acordo com normas, especificações, procedimentos ou padrões aplicáveis; demonstrar conhecimento das normas de gestão da qualidade aplicáveis a laboratórios de metrologia.

Dentro do escopo de competências definido no certificado, um profissional certificado para nível 3 pode ser autorizado pelo empregador para assumir inteira responsabilidade por uma instalação de laboratório, por um CEQ e seu pessoal envolvido nas calibrações. Os candidatos à certificação em qualquer dos três níveis de qualificação devem atender aos pré-requisitos relacionados com grau de escolaridade, treinamento e/ou experiência profissional.

O candidato deve providenciar evidências aceitáveis pelo OPC do seu treinamento para o nível para a qual busca a certificação. Os provedores desse treinamento devem emitir prova documental da realização do programa, atendendo aos requisitos mínimos de conteúdo e duração estabelecidos no Anexo A. A carga horária mínima do treinamento está estabelecida na tabela abaixo.

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Para acesso direto à certificação como N2, o candidato deve comprovar treinamento para N1 e N2. Para acesso direto à certificação como N3, o candidato deve comprovar treinamento para N1, N2 e N3. Os requisitos mínimos de grau de instrução e experiência profissional a ser obtida antes da certificação devem atender ao especificado na tabela abaixo. As evidências documentadas para comprovação da experiência profissional devem ser confirmadas pelo empregador e submetidas ao OPC.

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Os exames de qualificação devem ser compostos por exames teóricos e práticos para todos os níveis. O OPC deve estabelecer procedimentos para desenvolvimento e aplicação dos exames teóricos e práticos. Os exames práticos devem ser conduzidos por instalações autorizadas ou pelos centros de exames de qualificação reconhecidos, e monitorados pelo OPC.

O examinador deve ser responsável pela condução do exame, de acordo com procedimentos aprovados pelo OPC. O candidato é considerado aprovado se demonstrar sua capacidade de execução da atividade durante a prova de conhecimentos práticos e obtiver aprovação nas provas de conhecimento teórico.

Os exames teóricos com 40 questões de múltipla escolha devem abranger ao respectivo conteúdo programático descrito no programa de treinamento do Anexo A, devendo ser completadas em 90 min. O candidato deve ser aprovado no exame teórico para realizar o exame prático. O exame é composto pela execução de procedimento(s) prático(s) pertinente(s) à certificação solicitada e abrangendo as atividades descritas em 5.1 e 5.2.

Para o nível N3, o candidato deve ser submetido a um exame escrito que deve abranger conhecimentos teóricos por meio de uma prova de múltipla escolha com 30 questões abrangendo os tópicos citados no Anexo A. O candidato deve também realizar um exame prático de forma a comprovar seus conhecimentos sobre o conteúdo especificado em 5.3.

O exame prático pode ser situação problema, estudo de caso e outros, de forma dissertativa. Estes exames, assim como a administração do tempo, devem ser definidos pelo OPC. Para habilitar-se para exames de qualificação, o candidato deve apresentar ao OPC uma solicitação acompanhada de toda a documentação comprobatória requerida para demonstrar o cumprimento dos pré-requisitos apresentados nesta norma.

O candidato a qualquer nível de qualificação, para ser certificado, deve obter índice de acerto mínimo de 70% no exame teórico e 80% no exame prático. O candidato que não obtiver índice de acerto suficiente, conforme especificado em 7.4, para ser aprovado no exame de qualificação deve aguardar no mínimo 30 dias para realizar outro exame. O exame teórico pode ser solicitado tantas vezes quanto for necessário.

O exame prático inicial deve ser realizado até no máximo um ano após aprovação no exame teórico. O candidato que não obtiver a nota requerida no exame prático realizado no CEQ pode solicitar reexame até duas vezes, desde que os reexames ocorram a intervalos mínimos de 30 dias e não mais do que um ano depois do exame prático inicial. O candidato reprovado no segundo reexame prático deve seguir o procedimento estabelecido para novos candidatos.

O resultado dos exames deve ser fornecido pelo OPC. Ocorrendo a apresentação pelo candidato de evidências comprobatórias de erros de correção, conceitos, formulação de questões ou condução imprópria nos exames de qualificação realizados, cabe ao OPC a análise dos fatos e a revisão dos resultados do exame. Confira na norma no Anexo A Anexo A (normativo) um programa de treinamento. Há uma tabela que apresenta os requisitos mínimos de conteúdo e duração para o programa de treinamento.



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