Varandas envidraçadas devem ser executadas de acordo com a norma técnica

Uma tendência que virou moda é o fechamento com vidros de sacadas e varandas de apartamentos, pois torna o ambiente mais aconchegante, reduz o barulho exterior, assim como preserva o espaço da chuva e poluição. Mas, para evitar riscos isso deve ser feito conforme a norma técnica.

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Mauricio Ferraz de Paiva

A primeira providência a ser tomada: antes de contratar o serviço é importante verificar com o condomínio sobre as normas do edifício para manter o padrão visual da construção. O cuidado mais essencial a ser tomado é com relação à segurança, pois há muitos perigos que envolvem materiais inadequados e mal colocados.

Atualmente o sistema mais utilizado é o europeu que proporciona a abertura total do vão e pode ser instalado em qualquer tipo de sacada: côncava, convexa, reta, em grau, etc. Nesse sistema, as folhas de vidro ficam alinhadas no trilho e, para abrir, precisam girar 90° e se recolher em um dos cantos. O vidro pode ir do piso ao teto ou começar a partir do guarda-corpo, dependendo da resistência da mureta original.

Os materiais variam dos mais simples aos mais sofisticados. Há sistemas em que cada vidro mede 90 cm de largura, o que faz com que a fachada fique mais limpa, sem tantas emendas. Para o fechamento de sacadas e varanda existem dois tipos de vidro de segurança: o temperado e o laminado. A escolha do vidro correto deve ser feita com base em cálculos que consideram a região do país em que se encontra, a posição do prédio, o número de andares, etc.

O temperado é bastante resistente ao vento e a impactos (até seis vezes mais do que o laminado comum), suportando com segurança pressões de vento de todas as regiões do Brasil, até as regiões com índices de ventos mais fortes como: São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É o único vidro utilizado na Europa para esse tipo de aplicação.

Recomenda-se a utilização do vidro temperado em conjunto com a película de segurança, pois em caso de quebra este não estilhaçará. Já o laminado é menos resistente ao vento e impactos, porém pode ser utilizado com segurança em regiões com incidência de ventos mais fracos, como Rondônia, Acre e grande parte do Nordeste, além de edifícios com poucos pavimentos.

Os ensaios em laboratório mostram que um sistema com vidro temperado de 10 mm suporta pressões de vento superiores a 3.000 Pascal enquanto o laminado 5+5 mm suporta no máximo 1.100 Pascal. Uma região como São Paulo, com edifícios entre 20 e 30 andares, o sistema deve suportar no mínimo 2.210 Pascal, portanto o vidro temperado é sem dúvidas o mais seguro.

Deve-se contratar os prestadores de serviços que conheçam a norma, pois eles saberão garantir o bom funcionamento do sistema de fechamento, com procedimentos essenciais, tais como: medir o espaço corretamente, pois, para funcionar, o sistema precisa estar dentro do prumo, não pode estar torto; e de deixar um espaço de três cm entre a viga superior e o gradil para que o vidro gire.

A NBR 16259 de 01/2014 – Sistemas de envidraçamento de sacadas – Requisitos e métodos de ensaio estabelece os requisitos e métodos de ensaio que asseguram o desempenho dos sistemas de envidraçamento de sacadas, em edificações de uso público ou privado.  Se o sistema utilizar painéis de vidro, estes devem ser: vidro de segurança laminado, conforme NBR 14697; vidro de segurança temperado, conforme NBR 14698.

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O tipo de vidro utilizado deve atender aos valores de pressão de vento e os critérios estabelecidos para cada região do país onde o sistema será instalado, conforme estabelecido e avaliado visualmente, por meio da sua ruptura. A espessura deve ser calculada de acordo com o estabelecido pela NBR 7199.

A fixação do vidro ao perfil pode ser mecânica, normalmente por meio de parafusos, ou química, por meio de adesivos. Para a fixação química, é necessário atender aos seguintes requisitos: limpeza do perfil e do vidro de qualquer substância desengraxante e sujeira. A limpeza do vidro deve ser feita com álcool isopropílico 90% ou um ativador de superfície indicado pelo fabricante do adesivo.

Importante é que o adesivo não pode ser aplicado no perfil sem acabamento. O acabamento não pode ter falhas, pois isto pode comprometer o desempenho do adesivo. No caso de adesivos à base de poliuretano, o adesivo não pode ser exposto aos raios ultravioleta e, em caso de uma parte do adesivo ficar exposto, este deve ser selado e a área de aplicação do adesivo deve ser de acordo com o peso do vidro e tamanho do perfil.

Deve-se obedecer à orientação do fabricante com relação às cargas suportadas por quantidade aplicada do adesivo, de acordo com NBR 15737; deve-se obedecer ao tempo de cura do adesivo estipulado pelo fabricante antes da instalação do sistema; quando utilizados selantes à base de silicone, estes devem ser de cura neutra e utilizados para colagem estrutural. Em todos os casos, seja qual for à base do adesivo, deve-se seguir as orientações do fabricante do adesivo em relação aos cuidados antes da aplicação, quantidade do adesivo e tempo de cura.

varanda3A instalação do sistema de envidraçamento de sacadas é fundamental para o seu desempenho. Em relação à preparação do local, após a verificação do prumo e nível do vão acabado, efetuar a limpeza do vão para possibilitar a fixação dos perfis. A fixação mecânica deve ser feita com parafusos de material inoxidável, entre alumínio e alvenaria e alumínio e alumínio.

Os parafusos devem ser adequados, quanto à espessura e tamanho, à necessidade de fixação dos perfis (diâmetro e comprimento). O instalador deve se certificar de que os parafusos alcancem a viga e/ou concreto, e a profundidade do furo na viga deve ser compatível com o comprimento do parafuso, possibilitando a correta ancoragem do sistema.

Quanto ao perfil de fixação na alvenaria e trilho superior na sacada reta: o espaçamento entre os elementos de fixação do perfil de fixação e do trilho superior deve ser no máximo de 500 mm, sendo que, na zona de recolhimento (estacionamento) dos painéis, a distância entre eles deve ser de no máximo 70 mm. Na sacada curva: o espaçamento entre os elementos de fixação, quando aplicáveis em projetos curvos, deve obedecer a seguinte regra: a cada 50 mm da emenda do perfil, deve-se utilizar um elemento de fixação; quando esta seção for maior que 500 mm, seguir a orientação da sacada reta.

Para o perfil de fixação na alvenaria e/ou trilho inferior, tanto para sacada reta quanto para sacada curva, os espaçamentos devem ser os mesmos utilizados no trilho superior. Antes do início do processo de vedação, deve-se assegurar que a superfície a ser vedada esteja totalmente limpa e seca. Utilizar somente selantes de cura neutra.

Para a carga estrutural ou vertical, estabelecer o peso total do conjunto de cargas, quando o sistema estiver totalmente aberto e a carga concentrada em pontos determinados, podendo ser em um ou vários pontos. Neste caso, deve-se considerar as cargas eventuais que a sacada envidraçada pode suportar. Deve-se consultar, na elaboração do projeto, o engenheiro calculista do edifício onde o sistema deve ser instalado ou a construtora do prédio, sendo o mesmo envolvido na elaboração e aprovação do projeto.

Caso não haja possibilidade de acesso às informações dos cálculos estruturais, o responsável pelo projeto deve seguir os parâmetros exigidos na NBR 6120 e/ou executar prova de carga, descrita na NBR 9607, para definição da resistência do elemento estrutural. Deve-se levar em consideração que o ponto crítico de carga é a área de recolhimento dos painéis quando o sistema se encontra aberto.

Recomenda-se que a empresa contratada para o fornecimento do sistema de envidraçamento de sacada disponibilize para o contratante a documentação de responsabilidade técnica do projeto e execução do sistema, devidamente registrado em órgão competente. O sistema de envidraçamento de sacadas, quando ensaiado conforme descrito no Anexo A e submetido à pressão de vento de acordo com a Tabela 1 (disponível na norma), para a região em que ele é utilizado, não pode: apresentar ruptura, colapso total ou parcial de qualquer de seus componentes, incluindo o vidro; ter o seu desempenho, quanto às condições de abertura e fechamento, deteriorado; apresentar destacamento parcial ou total de componentes e dos elementos de fixação.

O sistema, de acordo com seu tipo deve resistir aos ensaios especificados nos Anexos B e C, sem que haja: ruptura dos vidros; deterioração ou ruptura de qualquer componente; deterioração do seu desempenho, quanto às suas funções de abertura e fechamento, depois de ensaiado. O sistema deve suportar 10.000 ciclos completos de abertura e fechamento, incluindo o movimento deslizante e pivotante, conforme descrito no Anexo B.

Após a realização dos ensaios conforme o Anexo B, o sistema não pode apresentar ruptura dos vidros, deterioração ou ruptura de qualquer componente, e deve manter as suas funções de abertura e fechamento. O sistema de envidraçamento de sacadas, quando ensaiado de acordo com o Anexo C, não pode apresentar: destacamento do sistema de fixação; e descarrilamento ou ruptura do sistema de roldanas.

Os ensaios devem ser realizados em dois corpos de prova distintos. O primeiro corpo de prova, para a primeira bateria de ensaios (cargas uniformemente distribuídas e impacto de corpo mole), deve ter as seguintes dimensões: altura 2.300 mm, largura 2.300 mm, com quatro folhas de aproximadamente 575 mm. O segundo corpo de prova, para os demais ensaios, deve ser composto de um sistema completo com as seguintes dimensões: altura 2 300 mm, largura 1 150 mm e apenas uma folha móvel de aproximadamente 575 mm.

O corpo de prova deve ser idêntico ao sistema que está sendo avaliado, executado e instalado com os mesmos detalhes de projeto ou do manual de instalação do fabricante, componentes, selantes e outros dispositivos de vedação daquele que deve ser entregue ao consumidor. A sequência dos ensaios de desempenho prescritos nesta norma deve obedecer à seguinte ordem: primeiro corpo de prova: os ensaios devem ser realizados na seguinte sequência: verificação da espessura do vidro; resistência a cargas uniformemente distribuídas; ensaio de impacto de corpo mole; e verificação visual do tipo de vidro por meio de sua ruptura.

O segundo corpo de prova: ensaio de corrosão e resistência a operações de manuseio. Deve-se realizar primeiro o ensaio de corrosão nos componentes. Posteriormente a este ensaio, reinstalar os componentes já ensaiados à corrosão no sistema e realizar o ensaio de resistência às operações de manuseio.

O modelo ou tipo de envidraçamento é aprovado se atender a todos os requisitos estabelecidos nesta norma após a realização dos ensaios. A instalação dos sistemas deve seguir rigorosamente as condições previstas no projeto, consideradas para a avaliação do protótipo. Deve ser cuidadosamente inspecionada a correta fixação das ancoragens à estrutura da edificação, quando for o caso.

A integridade individual dos componentes do sistema e a sua correta colocação deve ser objeto de inspeção visual. O relatório deve conter as seguintes informações, além dos respectivos resultados de cada ensaio: identificação do corpo de prova ensaiado, constando: nome do fabricante; dimensões; modelo e tipologia; material predominante do sistema; tipo de vidro utilizado e sua espessura; descrição da forma de instalação do sistema na câmara; e outras informações pertinentes; desenhos detalhados do corpo de prova ensaiado, em escala, constando: elevação; detalhes dos cortes horizontais; detalhes dos cortes verticais; detalhes característicos e discriminação de todos os materiais e componentes constantes no sistema, em escala normalizada.

Em resumo, pode-se afirmar que o fechamento das varandas permite que haja a proteção tanto do vento quanto da poluição e do ruído externo característico de grandes cidades. Os sistemas impedem a entrada de vento, chuvas, maresia, poeira e sujeira, contribuindo para criar um ambiente ainda mais confortável, e que pode ser utilizado em todas as épocas do ano.

Em muitos empreendimentos, as varandas apresentam áreas que poderiam ser melhor aproveitadas pelos proprietários do apartamento caso tivessem uma proteção. O fechamento de sacadas com vidro permite que estas se tornem parte da área de estar do apartamento, recebendo decoração apropriada e um uso mais intenso pelos moradores em muitos casos.

Mas, não se esqueça de alguns problemas. A área de varanda não é incluída na chamada área útil da unidade habitacional, e seu peso para o cálculo do IPTU costuma ser menor. A partir do fechamento da sacada, a prefeitura do município pode entender que houve aumento da área útil do apartamento, e querer elevar o valor do IPTU.

A forma como é entendida a questão do envidraçamento de varandas depende do município, podendo ser mais ou menos flexível. Para evitar surpresas, pesquise sobre o assunto e entenda como a prefeitura da cidade onde mora lida com esta questão.

Além disso, as reformas como fechamento de sacadas com vidro interferem na fachada do edifício, de forma que, antes de qualquer coisa, deve se certificar se o condomínio permite a prática. Os detalhes como as cores do vidro e os perfis são normalmente determinados em convenções internas do condomínio, de forma a definir um padrão, mantendo a unidade visual do edifício.

Mauricio Ferraz de Paiva é engenheiro eletricista, especialista em desenvolvimento em sistemas, presidente do Instituto Tecnológico de Estudos para a Normalização e Avaliação de Conformidade (Itenac) e presidente da Target Engenharia e Consultoria – mauricio.paiva@target.com.br



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