A gestão da medição para a competitividade

A medição, junto com a normalização, é essencial para qualquer esforço de melhoria da qualidade. No entanto, a maioria das organizações que inicia um sistema de gestão da medição não consegue ficar satisfeita com os resultados. E como se pode garantir o sucesso de um programa de medição que tem um importância fundamental para a competitividade?

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Hayrton Rodrigues do Prado Filho –

Não se pode gerenciar o que não se mede. Esse é um ditado antigo de gestão, mas totalmente válido nos dias atuais. A menos que se meça algo pode-se saber se melhorando ou piorando. Não se pode melhorar se não medir para ver o que está melhorando e o que não está.

Pode-se dizer que os procedimentos de um sistema de gestão de medição devem ser documentados na extensão necessária e validados para assegurar a implementação adequada, sua consistência de aplicação e a validade dos resultados de medição. Entende-se que este requisito vai muito além da prática da simples calibração e arquivo dos certificados de calibração dos padrões, sendo necessária a inclusão de práticas que visem o atendimento de questões vitais para a manutenção da rastreabilidade e conformidade dos produtos e processos.

Nesse contexto, dois outros parâmetros relevantes em qualquer certificado de calibração de padrões merecem atenção e destaque: a tendência e a incerteza associada à calibração. Nenhum padrão, ainda que recém-calibrado, deve ser liberado para uso em uma linha de manufatura, ou seja, ser liberado como referência metrológica, sem antes ter seu certificado de calibração criteriosamente analisado.

Essa prática preventiva visa evitar que indesejáveis propagações das incertezas de medição não controladas possam interferir no processo interno de calibração dos instrumentos de processo. Na verdade, a comprovação metrológica é um conjunto de operações necessárias para assegurar-se de que um dado instrumento de medição se encontra em condições de conformidade com os requisitos para o uso pretendido. Ela normalmente inclui, entre outras atividades, a calibração, qualquer ajuste e/ou reparo necessário e as recalibrações subsequentes, assim como qualquer selagem ou rotulagem necessária.

Deve-se conhecer algumas definições. Um sistema de gestão de medição é um conjunto de elementos inter-relacionados e interativos, necessários para obter a comprovação metrológica e o controle contínuo dos processos de medição. O processo de medição é o conjunto de operações para determinar o valor de uma grandeza e um equipamento de medição é um instrumento de medição, programa de computador, padrão de medição, material de referência ou dispositivos auxiliares, ou uma combinação deles, necessários para executar um processo de medição.

A característica metrológica é a propriedade distinta que pode influenciar os resultados de medição e a comprovação metrológica é o conjunto de operações necessárias para assegurar que um equipamento de medição atende aos requisitos do seu uso pretendido. Ela normalmente inclui calibração ou verificação, qualquer ajuste ou reparo necessário, e subsequente recalibração, comparação com os requisitos metrológicos para o uso pretendido do equipamento, assim como qualquer etiqueta ou lacre necessários.

A comprovação metrológica não é alcançada, até que, e a menos que, a adequação do equipamento de medição para o seu uso pretendido tenha sido demonstrada e documentada e os requisitos para o uso pretendido incluem considerações tais como amplitude, resolução, erro máximo/erro permitido. Os requisitos de comprovação metrológica são normalmente distintos dos requisitos do produto, e não estão especificados nestes requisitos. A função metrológica é a função com responsabilidade técnica e administrativa para definir e implementar o sistema de gestão de medição.

A NBR ISO 10012 de 04/2004 – Sistemas de gestão de medição – Requisitos para os processos de medição e equipamentos de medição especifica requisitos genéricos e fornece orientação para a gestão de processos de medição e comprovação metrológica de equipamento de medição usado para dar suporte e demonstrar conformidade com requisitos metrológicos. Ela especifica requisitos de gestão da qualidade de um sistema de gestão de medição que pode ser usado por uma organização que executa medições como parte de um sistema de gestão global, e para assegurar que os requisitos metrológicos são atendidos.

Não tem a intenção de ser usada como um requisito para demonstrar a conformidade com a NBR ISO 9001, NBR ISO 14001 ou qualquer outra norma. As partes interessadas podem concordar em usar esta norma como uma entrada para satisfazer os requisitos do sistema de gestão de medição nas atividades de certificação.

Esta norma não pretende ser um substituto ou uma adição aos requisitos da NBR ISO/IEC 17025. Existem outras normas e guias para elementos particulares que afetam os resultados de medição, por exemplo, detalhes de métodos de medição, competência de pessoal e comparações interlaboratoriais.

Um sistema de gestão de medição eficaz assegura que o equipamento de medição e os processos de medição são adequados para seu uso pretendido e é importante para atingir os objetivos da qualidade do produto e gerenciar o risco de resultado de medição incorreta. O objetivo de um sistema de gestão de medição é gerenciar o risco de que o equipamento de medição e os processos de medição possam produzir resultados incorretos afetando a qualidade dos produtos de uma organização.

Os métodos usados para o sistema de gestão de medição variam da verificação básica do equipamento à aplicação de técnicas estatísticas no controle do processo de medição. Nesta norma, o termo processo de medição aplica-se às atividades físicas de medição (por exemplo, em projeto, teste, produção, inspeção). As referências a esta norma podem ser feitas: por um cliente ao especificar os produtos requeridos, por um fornecedor ao especificar produtos ofertados, por organismos legisladores ou regulamentadores e em avaliação e auditoria de sistemas de gestão de medição.

Um dos princípios de gestão estabelecidos na NBR ISO 9001 trata da abordagem orientada ao processo. Recomenda-se que os processos de medição sejam considerados como processos específicos que objetivem dar suporte à qualidade dos produtos produzidos pela organização.

O modelo de sistema de gestão de medição aplicável, utilizado nesta norma é apresentado na figura abaixo. Inclui tanto requisitos como orientação para implementação de sistemas de gestão de medição e pode ser útil na melhoria de atividades de medição e da qualidade de produtos.

As organizações têm a responsabilidade de determinar o nível dos controles necessários e especificar os requisitos do sistema de gestão de medição a ser aplicado como parte do seu sistema de gestão global. Exceto por acordo, esta norma não tem a intenção de adicionar, subtrair nem substituir qualquer requisito de outras normas.

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O sistema de gestão de medição deve assegurar que requisitos metrológicos especificados são satisfeitos. A organização deve especificar os processos de medição e o equipamento de medição que estão sujeitos às provisões desta norma. Ao decidir o escopo e a extensão do sistema de gestão de medição, devem ser levados em consideração os riscos e as consequências de falhas no cumprimento dos requisitos metrológicos.

O sistema de gestão de medição consiste no controle de processos de medição indicados e em comprovação metrológica de equipamento de medição (ver figura abaixo), e dos processos de suporte necessários. Os processos de medição contidos no sistema de gestão de medição devem ser controlados (ver 7.2). Todo equipamento de medição que faz parte do sistema de gestão de medição deve ser comprovado (ver 7.1).

Para os objetivos da qualidade, a gestão da função metrológica deve definir e estabelecer objetivos mensuráveis da qualidade para o sistema de gestão de medição. Os critérios de objetivos de desempenho e procedimentos para os processos de medição e seu controle devem ser definidos. A gestão da função metrológica deve assegurar que o pessoal envolvido no sistema de gestão de medição tenha demonstrado ter habilidade para desempenhar as tarefas designadas.

Qualquer habilidade especializada requerida deve ser especificada. A gestão da função metrológica deve assegurar que seja fornecido treinamento focado nas necessidades identificadas, sejam mantidos registros das atividades de treinamento, e que a eficácia do treinamento seja avaliada e registrada. O pessoal deve ser conscientizado sobre a extensão de suas responsabilidades e do impacto de suas atividades sobre a eficácia do sistema de gestão de medição e na qualidade do produto.

A comprovação metrológica (ver figura abaixo e o Anexo A) deve ser projetada e implementada para assegurar que características metrológicas do equipamento de medição satisfaçam os requisitos metrológicos do processo de medição. A comprovação metrológica compreende a calibração e a verificação do equipamento de medição.

A informação pertinente à comprovação metrológica da situação do equipamento de medição deve estar prontamente disponível para o operador, incluindo quaisquer limitações ou requisitos especiais. As características metrológicas do equipamento de medição devem ser adequadas para seu uso pretendido.

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Os métodos usados para a determinação ou mudança dos intervalos entre comprovações metrológicas devem ser descritos em procedimentos documentados. Esses intervalos devem ser analisados criticamente e ajustados quando necessário para assegurar a contínua conformidade com os requisitos metrológicos especificados.

Cada vez que um equipamento de medição não conforme é reparado, ajustado ou modificado, o intervalo para sua comprovação metrológica deve ser analisado criticamente. Acessos aos meios de ajustes e dispositivos sobre equipamento de medição comprovado, cuja posição afeta o desempenho, devem ser selados ou de alguma outra forma protegidos para prevenir mudanças não autorizadas.

Selos ou proteções devem ser projetados e implementados de tal forma que mudanças não autorizadas sejam detectadas. Procedimentos do processo de comprovação metrológica devem incluir ações a serem tomadas quando selos ou proteção são encontrados quebrados, danificados, contornados ou faltando.

Na NBR ISO 9001, no item 7.1.5 Recursos de monitoramento e medição, especifica-se que a organização deve determinar e prover os recursos necessários para assegurar resultados válidos e confiáveis quando monitoramento ou medição for usado para verificar a conformidade de produtos e serviços com requisitos. A organização deve assegurar que os recursos providos: sejam adequados para o tipo específico de atividades de monitoramento e medição assumidas; sejam mantidos para assegurar que estejam continuamente apropriados aos seus propósitos. A organização deve reter informação documentada apropriada como evidência de que os recursos de monitoramento e medição sejam apropriados para os seus propósitos.

Quando a rastreabilidade de medição for um requisito, ou for considerada pela organização uma parte essencial da provisão de confiança na validade de resultados de medição, os equipamentos de medição devem ser: verificados ou calibrados, ou ambos, a intervalos especificados, ou antes do uso, contra padrões de medição rastreáveis a padrões de medição internacionais ou nacionais; quando tais padrões não existirem, a base usada para calibração ou verificação deve ser retida como informação documentada; identificados para determinar sua situação; salvaguardados contra ajustes, danos ou deterioração que invalidariam a situação de calibração e resultados de medições subsequentes.

A organização deve determinar se a validade de resultados de medição anteriores foi adversamente afetada quando o equipamento de medição for constatado inapropriado para seu propósito pretendido, e deve tomar ação apropriada, como necessário. Dessa forma, os requisitos metrológicos do cliente (RMC) são aqueles requisitos de medição especificados pelo cliente como pertinente para os processos de produção do cliente.

Eles, portanto, dependem das especificações para as variáveis a serem medidas. Os RMC incluem aqueles envolvidos na verificação da conformidade do produto com as especificações do cliente, em adição àqueles oriundos do controle do processo de produção e suas entradas.

A determinação e especificação destes requisitos é de responsabilidade do cliente, embora este processo possa ser desempenhado em nome do cliente por algumas pessoas qualificadas adequadamente. Isso frequentemente requer um profundo conhecimento do processo de produção, bem como de metrologia.

Recomenda-se que os RMC também levem em conta o risco de más medições e os efeitos delas sobre a organização e os negócios. Os RMC podem ser expressos em termos de erro máximo permissível, limites operacionais, etc.

Recomenda-se que eles sejam suficientemente detalhados para permitir aos operadores do processo de comprovação metrológica decidir inequivocamente se um equipamento de medição particular é capaz ou não de controlar, medir ou monitorar a variável ou quantidade especificada de acordo com o seu uso pretendido.

Como exemplo, quando é requerido que a pressão seja controlada entre 200 kPa e 250 kPa em um reator de processo para uma operação crítica. Este requisito deve ser interpretado e expresso como um RMC para o equipamento de medição de pressão.

Isso poderia resultar em um RMC que o equipamento seja capaz de medir uma faixa de pressão de 150 kPa a 300 kPa, com 2 kPa de erro máximo permissível, uma incerteza de medição de 0,3 kPa (não incluindo os efeitos relacionados com o tempo), e com uma tendência não maior que 0,1 kPa por período de tempo especificado. O cliente compara os RMC com as características (explícitas ou implícitas) especificadas pelo fabricante do equipamento e seleciona equipamento de medição e procedimentos que melhor atendam aos RMC. O cliente pode especificar um fornecedor particular para um manômetro com uma classe de exatidão de 0,5% e faixa de 0 kPa a 400 kPa.

As características metrológicas do equipamento de medição (CMEM) são frequentemente determinadas por calibração (ou várias calibrações) e/ou testes, a função metrológica dentro do sistema de comprovação metrológica especifica e controla todas aquelas atividades necessárias. As entradas para o processo de calibração são o equipamento de medição, um padrão de medição e um procedimento que estabeleça as condições ambientais.

Convém que os resultados da calibração incluam uma declaração da incerteza da medição. Esta é uma importante característica como uma entrada quando se avalia a incerteza da medição para o processo de medição quando o equipamento é usado.

Os resultados da calibração podem ser documentados dentro do sistema de comprovação metrológica por qualquer método apropriado como, por exemplo, certificados de calibração ou relatórios de calibração (onde calibrações são terceirizadas) ou por registros dos resultados da calibração (quando desempenhado inteiramente dentro da função metrológica da organização). As características importantes para a medição, por exemplo, incerteza de medição, são não só dependentes do equipamento, mas, também, do ambiente, do procedimento de medição específico e, algumas vezes, da habilidade e experiência do operador.

Por esta razão, é muito importante que o processo de medição completo seja considerado quando se seleciona o equipamento de medição para satisfazer requisitos. Esta consideração é a responsabilidade da função metrológica para a organização, embora atividades específicas possam ser desempenhadas pela organização ou por uma pessoa adequadamente qualificada, como um metrologista independente.

Após a calibração, as CMEM são comparadas aos requisitos metrológicos do cliente (RMC) antes de confirmar o equipamento para seu uso pretendido. Por exemplo, o erro relatado da indicação do equipamento de medição deveria ser comparado ao erro máximo especificado como um requisito metrológico do cliente (RMC).

Se o erro for menor que o erro máximo permissível, então o equipamento está conforme com aqueles requisitos e pode ser comprovado para uso. Se o erro for maior, as ações deveriam ser tomadas para remover a não-conformidade ou o consumidor deve ser informado que o equipamento não pode ser comprovado. Tal comparação direta do CMEM e RMC é frequentemente chamada de verificação.

O sistema de comprovação metrológica é firmemente baseado em tais verificações, mas convém, também, incluir considerações detalhadas e análise crítica do processo de medição completo, no sentido de fornecer garantia da qualidade das medições feitas com o equipamento em apoio à determinação da conformidade do produto com os requisitos do cliente.

No exemplo anterior, assumido que o erro encontrado pela calibração é 3 kPa em 200 kPa, com uma incerteza da medição na calibração de 0,3 kPa. Portanto, o instrumento não atende ao requisito de erro máximo permissível. Após o ajuste, o erro encontrado pela calibração é 0,6 kPa e a incerteza no processo de calibração é 0,3 kPa.

O instrumento agora atende ao requisito do erro máximo permissível e pode ser confirmado para uso, assumindo que a evidência de demonstração de atendimento do requisito de tendência vem sendo obtida. Contudo, se o instrumento foi submetido a recomprovação, convém que o usuário do instrumento seja informado dos resultados da primeira calibração, uma vez que as ações corretivas referentes à realização do produto podem ser requeridas para o período antes que o instrumento tenha sido retirado do uso aguardando a reconfirmação.

Se a verificação dos processos for desempenhada pelos usuários ou pela função metrológica, os resultados desta verificação podem ser compilados em um documento de verificação, em adição a quaisquer relatórios ou certificados de calibração ou teste, como parte de observação de auditoria dentro do sistema de comprovação metrológica. O estágio final no sistema de comprovação metrológica é a identificação adequada da situação do equipamento de medição, por exemplo, por etiquetagem, marcação, etc. Após isso, o equipamento de medição pode ser usado para a finalidade para a qual ele tenha sido comprovado.



Categorias:Metrologia, Normalização, Qualidade

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4 respostas

  1. Outro excelente artigo. Parabéns.

  2. Muito boa explicação sobre gestão da medição abordando o uso da NBR/ISO 10.012.

  3. Parabéns ao autor do artigo, Prof. Hayrton Rodrigues, valioso enfoque e significativa profundidade.

    • Cara Aurelia: obrigado pelo elogio. Mas, uma observação: não sou professor, sou apenas um jornalista que busca disseminar o conhecimento, se possível, de forma didática. Às vezes, a gente consegue e às vezes não. Estou às ordens.
      Hayrton

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