Como preservar a água em edifícios

As tecnologias e as estratégias de conservação de água costumam ser os aspectos mais negligenciados de uma estratégia de um projeto de um edifício. No entanto, o planejamento para vários usos da água está se tornando cada vez mais uma alta prioridade. Isso se deve a várias razões, a saber, que os recursos hídricos novos e existentes estão se tornando cada vez mais escassos em várias regiões do país; o consumo de água per capita está aumentando anualmente; as taxas de água e esgoto aumentaram dramaticamente na última década de 100% a 400% em alguns locais; e as novas opções de abastecimento de água são muito caras ou totalmente indisponíveis – geralmente resultando em requisitos rigorosos de uso da água em novas aplicações de construção. Além disso, há um reconhecimento crescente das economias de água e energia, que podem ser obtidas através da implementação de iniciativas eficazes. Assim, deve entender os procedimentos e as diretrizes para edificações com uso residencial, comercial, institucional, de serviços e de lazer, novas e existentes, que optarem pela conservação de água, na combinação de alternativas de ações, no todo ou em partes, para a gestão da demanda e para a gestão da oferta, conforme viabilidade técnica e econômica caso a caso.

editorial2Existem várias estratégias que podem ser empregadas para reduzir a quantidade de água consumida em uma instalação. Em termos gerais, esses métodos incluem a otimização do sistema (ou seja, projeto eficiente de sistemas de água, detecção e reparo de vazamentos); as medidas de conservação de água; e os sistemas de reutilização/reciclagem de água.

Mais especificamente, uma ampla gama de tecnologias e medidas pode ser empregada dentro de cada uma dessas estratégias para economizar água e o consumo de energia associado. Por exemplo, as torneiras eficientes em termos de água (sanitários e mictórios de fluxo ultra baixo, mictórios sem água, pias de baixo fluxo e com sensor, chuveiros de baixo fluxo e máquinas de lavar e lavar louça com eficiência de água); as medidas de irrigação e paisagismo (sistemas de irrigação eficientes em termos de água, sistemas de controle de irrigação, aspersores de baixo fluxo, práticas de agendamento eficientes em termos de água); as medidas de reciclagem ou reutilização de água (sistemas de reciclagem de água e processos cinzentos); e os métodos para reduzir o uso de água em sistemas de climatização.

Embora não seja uma especificação de projeto ou uma opção tecnológica, obter a participação de moradores da construção no programa de conservação de água é essencial para alcançar as metas de redução do uso da água e é frequentemente uma das estratégias mais simples e econômicas a serem empregadas. Uma das primeiras etapas na implementação de um programa de conservação de água é treinar os funcionários sobre o uso de novas tecnologias eficientes em termos de água, bem como a equipe de manutenção nos procedimentos de organização e métodos (O&M).

As tecnologias que não sejam usadas ou mantidas adequadamente não atingirão seu potencial máximo de economia. Por exemplo, a descarga dupla de vasos sanitários com descarga ultra baixa pode resultar em mais consumo de água do que os dispositivos convencionais mais antigos.

O fator humano é fundamental para obter os resultados desejados das estratégias de conservação de água, e o desenvolvimento de uma campanha de informação e educação pode ajudar sua instalação a fazer com que o fator humano funcione em favor de iniciativas de conservação de água. Igualmente, o desempenho de uma auditoria do sistema de distribuição de água não se limita a edifícios antigos e envelhecidos.

Os vazamentos do sistema de água podem ocorrer em novas construções devido à instalação inadequada de tubulações e acessórios ou impactos nos sistemas de tubulações durante o processo de construção. Portanto, durante o processo de projeto, é essencial desenvolver um orçamento de água para o novo edifício e comissionar o sistema de distribuição de água como parte do processo geral de comissionamento do edifício.

Se o consumo estimado de água for superior a 10% do orçamento básico da água estabelecido durante o processo de projeto, pode ser necessário um estudo de detecção de vazamentos. Entre em contato com a concessionária de água local para obter assistência, pois muitos executam o serviço gratuitamente ou por uma taxa mínima.

Os vazamentos no sistema de água que não são reparados imediatamente podem danificar as estruturas do edifício, pois mesmo um pequeno vazamento pode resultar na perda de grandes quantidades de água ao longo do tempo. Além disso, vazamentos não reparados resultarão em aumento nas contas de água. A medição de instalações individuais é uma medida de economia de água que deve ser levada em consideração seriamente.

A NBR 16782 de 11/2019 – Conservação de água em edificações – Requisitos, procedimentos e diretrizes especifica requisitos e estabelece procedimentos e diretrizes para edificações com uso residencial, comercial, institucional, de serviços e de lazer, novas e existentes, que optarem pela conservação de água, na combinação de alternativas de ações, no todo ou em partes, para a gestão da demanda e para a gestão da oferta, conforme viabilidade técnica e econômica caso a caso. Os requisitos especificados nesta norma são aplicáveis aos incorporadores, construtores, projetistas, instaladores, fabricantes de materiais e componentes, gestores da água, empresas prestadoras de serviços de saneamento, síndicos e gestores de prédios.

A redução do consumo de água em edificações é parte constituinte de uma estratégia abrangente de redução da pressão imposta aos mananciais, buscando-se otimização no uso dos recursos hídricos disponíveis, a favor da viabilidade de centros urbanos, em especial aqueles com expressivo adensamento populacional, com melhoria da gestão da água. Existem diversas práticas aplicáveis à conservação de água em edifícios, com a utilização de tecnologias para uso eficiente da água.

No entanto, ainda há lacuna normativa para o estabelecimento de boas práticas e incentivo à difusão de tecnologias, processos e práticas que visem a uma abordagem mais sistêmica e abrangente sobre o assunto e que permitam a perenidade dos resultados obtidos. A conservação de água em edifícios é definida como o conjunto de ações que, além de otimizar a operação do sistema predial de modo a reduzir a quantidade de água consumida (gestão da demanda), promovem também o uso de água proveniente de fontes alternativas à água potável fornecida pelo sistema público ou privado (gestão da oferta).

A gestão da demanda possui foco no uso eficiente da água, por meio de ações no sistema hidráulico que viabilizam a utilização de menor quantidade de água para a realização das mesmas atividades e o permanente monitoramento de indicadores de consumo durante a ocupação, o que permite rapidamente identificar e corrigir elevações de consumo não desejadas. A gestão da oferta, por sua vez, foca na redução do consumo de água potável por meio do uso de água não potável em processos consumidores específicos, ou seja, a utilização de água menos nobre para fins menos nobres.

Ao mesmo tempo em que a economia gerada pela utilização de água não potável para processos específicos resulta em redução de consumo de água potável, há também maiores riscos sanitários associados à esta prática, demandando capacitação técnica e responsabilização dos gestores e fornecedores. O papel do usuário na conservação da água é fundamental, sendo importante prever ações de conscientização e capacitação para o correto uso, operação e manutenção.

É possível conservar água e reduzir o volume de esgoto gerado nos edifícios por meio de sistemas economizadores de água, ações comportamentais, aproveitamento de fontes alternativas, jardinagem com plantas que consumam pouca água, gestão da água durante a operação e manutenção dos sistemas envolvendo ações de base operacional, educacional e institucional, ou seja, responsabilidade social. Na dimensão social, a conservação de água propicia melhor distribuição dos recursos hídricos à população, por meio dos volumes excedentes obtidos.

Na dimensão ambiental, implica em preservação dos recursos hídricos e redução de impactos ambientais gerados pela extração de insumos necessários ao tratamento da água e do esgoto sanitário. E, por último, na dimensão econômica tem-se a redução de custos em função da menor quantidade de insumos utilizados no tratamento da água e de esgoto tais como energia, sulfato de alumínio, cal, cloro e ácido fluorídrico, além de racionalizar os custos operacionais e de manutenção dos sistemas de tratamento de água e de esgoto.

Dessa forma, a água deve ser entendida como um insumo finito, não do ponto de vista de quantidade, mas do ponto de vista de qualidade; de valor econômico e fundamental para a preservação da saúde pública, devendo ser conservada em quantidade e qualidade para garantir os suprimentos existentes e contribuir com a sustentabilidade do meio ambiente. A conservação de água em edifícios é definida como o conjunto de ações que otimizam a operação do sistema hidráulico predial de modo a permitir a utilização apenas da quantidade de água necessária para o desempenho das atividades consumidoras (gestão da demanda) e de ações que promovam a oferta de água produzida no próprio edifício e proveniente de fontes alternativas à água uso eficiente da água.

A conservação de água abrange o conceito de uso racional da água, usualmente aplicado na gestão da demanda nos pontos de consumo, conscientização do usuário e outras ações, visando o uso eficiente da água. A conservação de água em edifícios requer gestão com foco permanente na quantidade e na qualidade da água utilizada, para garantir a saúde dos usuários, o desempenho do sistema hidráulico predial e a manutenção de indicadores de consumo compatíveis com as atividades consumidoras.

A responsabilidade pela qualidade da água fornecida pelo sistema público de saneamento básico é da empresa prestadora de serviços de saneamento. A responsabilidade pela qualidade da água utilizada no edifício é dos profissionais que concebem, projetam e executam cada um dos sistemas, do gestor da água e da empresa prestadora de serviços durante a operação destes sistemas.

A prática de conservação de água requer uma visão sistêmica da edificação, seus usuários, localização geográfica e atividades consumidoras de água. A partir da caracterização hídrica da edificação, são obtidas informações que viabilizam a elaboração de balanço hídrico, para avaliação técnica e econômica das possibilidades existentes relacionadas às ações de conservação de água e tomada de decisão quanto à configuração mais adequada a cada edifício.

As ações para conservação de água otimizam o consumo, combatem o desperdício, reduzem o volume de efluentes gerados e racionalizam custos operacionais e de manutenção. As ações para conservação de água evitam que a água potável seja utilizada em quantidade superior à necessária e para a realização de quase todas as atividades, independentemente de características de qualidade da água necessárias para cada atividade consumidora.

As ações para conservação de água buscam o uso eficiente da água e a utilização de alternativas de abastecimento, com características de qualidade distintas, de acordo com as necessidades das atividades consumidoras. O planejamento das ações a serem implementadas deve ser realizado dentro de uma visão sistêmica da edificação, com ampla abordagem sobre o sistema hidráulico, os usuários e as atividades consumidoras de água.

Para edifícios novos, as ações com foco na conservação da água devem ser definidas no início do desenvolvimento dos projetos do edifício, de modo que o projeto de arquitetura contemple os espaços técnicos necessários e que toda a infraestrutura seja prevista no projeto dos sistemas prediais hidráulicos e elétricos. Para edifícios existentes convém avaliar, além das questões diretamente associadas à conservação de água, a viabilidade das obras civis eventualmente necessárias.

Antes de definir quais medidas tecnológicas serão implantadas, recomenda-se identificar e eliminar as perdas de água causadas por vazamentos visíveis e invisíveis no sistema, além de executar a manutenção e regulagem das peças de utilização. A determinação de ações que promovem o uso eficiente da água e a opção por inserir ou não fontes alternativas de água para suprir a (s) demanda (s) de determinadas atividades consumidoras deve ser realizada conforme cada caso, para cada edifício, em função de sua tipologia, população, localização e atividades/equipamentos que consomem água.

O estudo de viabilidade técnica e econômica auxilia na tomada de decisão e na definição das ações que trazem, além da conservação de água, o benefício econômico. Convém que, para a implementação da gestão da conservação de água, sejam estabelecidos indicadores de consumo que constituam os valores de referência para a fase de gerenciamento do consumo e que sua gestão permanente mostre a tendência do consumo a longo prazo.

O conhecimento do indicador de consumo viabiliza o estabelecimento de metas de consumo tendo por referência outros sistemas com as mesmas características. Os indicadores de consumo devem ser aferidos por meio dos dados coletados pelo sistema de medição, definido pelo plano de setorização. A setorização do consumo de água permite o gerenciamento do uso da água nas edificações e contribui para o combate ao desperdício.

A avaliação do impacto de intervenções e ações por meio de indicadores de consumo deve considerar que variações no número de agentes consumidores e na quantidade de atividades ou processos realizados podem resultar em variações proporcionais do volume consumido. O manual de uso, operação e manutenção contendo as especificidades do projeto e as orientações sobre uso e manutenção, elaborado em conformidade com as NBR 5674 e NBR 14037, é uma ferramenta fundamental para usuários e profissionais envolvidos com o edifício.

O atendimento às orientações que constam neste manual auxilia na manutenção do desempenho esperado do sistema e, por conseguinte, resguarda a saúde dos usuários, como, por exemplo, evitando ligações cruzadas, especialmente em eventuais reformas. Os Anexos A e B apresentam, para edifícios novos e existentes respectivamente, sugestões de fluxograma para implantação da conservação de água.

A caracterização hídrica de uma edificação contempla as informações que possibilitam a compreensão do ciclo da água e são necessárias para a elaboração do balanço hídrico e do estudo de viabilidade técnica e econômica, que é a base de tomada de decisão para definição das ações de conservação de água a serem implantadas. A caracterização hídrica de uma edificação nova deve ser realizada na fase de concepção/estudos preliminares do empreendimento.

Para edifícios existentes já construídos, ocupados ou não, a caraterização hídrica deve contemplar levantamentos de campo. No caso de edifícios existentes, mas ainda não construídos, a caracterização hídrica deve ser realizada com base no projeto aprovado. O Anexo C fornece um exemplo de caracterização hídrica para um edifício. O projeto de edifícios novos deve considerar indicadores de consumo com base na experiência de uso e ocupação de edifícios semelhantes, observando a frequência de uso, os componentes hidráulicos, região, hábitos e costumes do futuro usuário e atividades consumidoras.

Porém, recomenda-se que, após o início da operação do edifício, o método estabelecido no Anexo D seja utilizado para comparar os valores obtidos com os valores estimados. A caracterização hídrica de uma edificação nova deve ser realizada na fase de concepção/estudos preliminares do empreendimento. Para edifícios existentes já construídos, ocupados ou não, a caraterização hídrica deve contemplar levantamentos de campo.

No caso de edifícios existentes, mas ainda não construídos, a caracterização hídrica deve ser realizada com base no projeto aprovado. O Anexo D apresenta instruções para a determinação de indicadores de consumo. O balanço hídrico de uma edificação é elaborado a partir da caracterização hídrica do edifício e contempla os consumos de água e geração de efluentes das diversas atividades consumidoras, com objetivo de identificar ofertas e demandas na edificação.

Esta ferramenta é utilizada para a elaboração do estudo de viabilidade técnica e econômica que indicará ações de conservação de água. O balanço hídrico de um edifício, novo ou existente, deve conter no mínimo as seguintes informações para elaboração da matriz de oferta e demanda de água: identificação das demandas de água existentes, cálculo estimativo de volumes e vazões necessárias e respectivos requisitos de qualidade associados; definição das demandas potáveis e não potáveis; a identificação dos indicadores de consumo; a identificação das possíveis ofertas de água potável e não potável.

A matriz de oferta e demanda resultante deve distinguir as demandas potáveis e não potáveis. Os fatores que influenciam significativamente o desperdício de água são a ocorrência de vazão e volume excessivos na utilização de aparelhos em geral, principalmente devido a existência de pressão estática e pressão dinâmica muito elevada à montante das peças de utilização. O controle da pressão de trabalho contribui para a redução do desperdício de água durante o uso, vazamentos devidos a rupturas em tubulações e engates flexíveis provocados por vazões excessivas.

A redução do consumo de água não pode resultar em vazões que prejudiquem o desempenho dos aparelhos hidráulicos. As vazões devem atender os valores limites de vazão máxima estabelecidos na tabela abaixo. A limitação das vazões e pressões dinâmicas nos pontos de consumo é essencial para o uso eficiente da água.

A vazão do (s) ponto (s) de consumo pode ser reduzida por meio do seguinte: redução da pressão de trabalho, por exemplo, adoção ou regulagem de válvulas redutoras de pressão nas entradas de unidades autônomas ou setores; especificação de componentes que limitem a vazão, por exemplo, restritores de vazão convencionais, restritores de vazão constante, registros reguladores de vazão, arejadores de vazão constante, individualmente ou combinados, entre outros; especificação de componentes que já possuam incorporada(s) tecnologia(s) com esta finalidade, por exemplo, torneiras e duchas com vazões limitadas, entre outros. A tabela abaixo apresenta valores de vazões máximas de água, consideradas a jusante das peças de utilização. Valores superiores aos indicados não são considerados adequados para a conservação de água.

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Para pontos de consumo que não constam da tabela acima, verificar limites estabelecidos nas respectivas normas de produto ou especificação do fabricante. Valores inferiores aos limites máximos podem se mostrar eficientes. Recomenda-se que em função da tipologia, atividades consumidoras e componentes, seja avaliada a vazão a ser praticada entre a vazão máxima e a mínima visando a eficiência do consumo e o conforto do usuário.

No caso de componentes que necessitam de regulagem de vazão para seu funcionamento, esta deve ser regulada conforme a tabela acima ou de acordo com as especificações do fabricante. Deve-se observar as vazões mínimas estabelecidas nas normas vigentes dos aparelhos sanitários e as recomendações dos fabricantes dos componentes instalados no sistema, bem como as necessidades do processo consumidor e as expectativas dos agentes consumidores. É necessária a verificação de atendimento das vazões máximas da tabela acima quando do início da operação dos equipamentos. Os componentes hidráulicos economizadores ou convencionais devem ser especificados com base na tipologia da edificação, atividade consumidora e na expectativa dos usuários.

Enfim, os indicadores de consumo devem ser verificados periodicamente e, no caso de elevações injustificadas ou indesejadas, deve-se verificar a causa e proceder às ações corretivas necessárias para retorno ao patamar original. O monitoramento dos indicadores de consumo deve considerar possíveis efeitos de sazonalidade.

Se for necessário, o plano de setorização deve ser atualizado de forma a acomodar novos pontos de medição ou atualizações no sistema de medição e permitir a obtenção de indicadores de consumo mais precisos para as atividades e processos consumidores. Deve-se realizar avaliação periódica de possíveis melhorias no sistema e implementação de novas tecnologias economizadoras. A implementação deve ser feita após avaliação.

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Hayrton Rodrigues do Prado Filho

hayrton@hayrtonprado.jor.br



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